Duendes - Contos sombrios de reinos invisíveis
Por Thamirys Gênova
Título: Duendes contos sombrios de reinos invisíveis | Organizadora: Ana Lúcia Merege | Editora: Draco | Gênero: fantasia| Páginas: 304 | Ano de publicação: 2019 | Nota: 5,0/5,0
Há no mundo um Povo Pequeno, quase invisível. Basta um piscar de olhos para que se movam entre dimensões sem que os percebamos. Podem ser bons ou maus para com os homens. Divertidos ou cruéis para os que os buscam. Leprechauns, gnomos, fadas, cluricauns, kappas, monaciellos
Afinal, o que são os duendes?
Na antologia Duendes contos sombrios de reinos invisíveis, a mestra de sagas Ana Merege reúne um time de autores audaciosos para invadir territórios proibidos e contar histórias apavorantes. Passeando por várias tradições culturais, percebe-se o fio comum da desconfiança, da sutileza das barganhas bem ou mal elaboradas, da necessidade de ouro e de posse sobre mundos que não são os seus. E, veja bem, nem sempre estou falando dos duendes.
Para além da excelente curadoria literária dos textos presentes no livro, há ainda outro mérito: um vislumbre histórico e etnológico sobre a manifestação dos duendes em várias sociedades e tempos. Um trabalho primoroso, à altura da maga que o conduz. Imprescindível na estante!
Encerro aqui meu comentário geral da antologia e agora passo brevemente pelos contos que mais se destacaram, descrevendo sucintamente os motivos.
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A Sombra da Colina do Rei, por Diego Guerra
Na América colonial, Eris Soromom, um prelado, busca por seu irmão desaparecido. Em sua investigação, Soromom descobre estranhos acontecimentos envolvendo a comunidade onde o irmão vivia e recorre às instruções de uma bruxa para encontrá-lo.
Excelente conto, que apresenta vários elementos do imaginário dos colonos ingleses na América, como as bruxas, o medo de feitiços, o temor a Deus etc. Além disso, também conta como pano de fundo as dificuldades práticas da colonização, como fazer render o cultivo em novas terras, a organização do trabalho e as disputas de autoridade no contexto de ocupação do território. Adivinhem quem também está nessa disputa por terras? Os duendes, é claro!
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Sob as sombras do Akuna, por Daniel Folador Rossi
Um guerreiro indígena misterioso busca um velho feiticeiro para reaver uma memória arrancada de seu pai. A jornada exige cuidados para chegar até o feiticeiro e ainda mais cautela para barganhar com ele, conhecido por ser habilidoso e enganador.
Conto rico, que apresenta elementos da cultura indígena de forma suave e contextualizada. Aborda essencialmente a questão da barganha com os duendes e o faz de modo inteligente. É o melhor exemplo desse aspecto de trocas discutíveis e de trapaça, típicos do tema proposto na antologia.
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Jeremejevite, por Cristina Pezel
Um conto bastante sombrio e dramático sobre Cibele, que após se mudar de residência com a família, descobre um intruso nada agradável em seu novo lar. Após demonstrações dos estragos que pode causar na vida dela, do marido e da filha, o pequeno ser lhe faz uma oferta mirabolante em troca do tão desejado sossego na casa nova. Cibele vai contra o tempo, contra seu dinheiro e mesmo contra suas habilidades domésticas para acalmar a fúria do indesejado morador.
O conto é assustador por se passar em um cenário contemporâneo e pela dúvida se Cibele está realmente vendo um duende ou alucinando por outros elementos apresentados pela autora. Em resumo: é assustador justamente porque poderia acontecer com qualquer um de nós se estivéssemos em situação de estafa ou estresse.
Há ainda uma sutileza do gênero envolvida; Cibele parece ser cobrada pelo duende, em alguns momentos, por habilidades específicas tradicionalmente delegadas às mulheres e isso a deixa profundamente frustrada. Além disso, a barganha central requer todo o seu dinheiro, toda sua habilidade de mulher independente para dar certo e o duende parece de divertir em ver a fortaleza da modernidade feminina ruindo. Excelente texto.
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O Juramento de um Pirata, por Aya Imaeda
Conto ambientado na cultura oriental que nos apresenta Hana e Norisuke, um casal de piratas. Em meio a uma crise conjugal, eles se deparam com seres sobrenaturais e revelações que podem mudar a vida deles para sempre.
Texto belíssimo, com uma protagonista cativante e um final surpreendente. As motivações das personagens são muito interessantes e o papel dos duendes, ou melhor, dos kappas nessa história merece destaque pelo seu caráter odioso e traiçoeiro. Adorei e não digo mais nada senão vira spoiler!
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A fortuna de Rhydderch, por Ana Lúcia Merege
Rhydderch é um bardo misterioso que busca sua fortuna e estabilidade. Para conquistar isso, ele viaja até o reino de Gruffyd, um soberano exigente, que não se impressiona com a fala mansa de Rhydderch nem com suas respostas rápidas. Decidido a garantir seu espaço na corte, Rhydderch desafia o rei a dar-lhe qualquer tarefa e o resultado não é dos melhores para o bardo. Para manter sua honra intacta, ele deve enfrentar magia, perigos, soberanos de outros reinos e o pior de tudo, um sem fim de promessas que não podem ser quebradas.
Um conto belíssimo, que explora toda a tradição mítica dos duendes, que se mostram aos homens como querem e se vingam deles como podem. Há ainda uma história de amor envolvente, cheia de reviravoltas. Toda a atmosfera do texto é envolta por um tema que gosto muito, e que resume o espírito da antologia: o cuidado com as barganhas e palavras que são ditas, em especial ao Povo Pequeno. Viva Ana Merege!
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