Em 2017, um burburinho em Hollywood se tornou um escândalo que cresceu até se tornar um movimento global. Você deve ter ouvido falar do #MeToo, que deu voz a centenas de atrizes norte-americanas que confessaram anos de abuso e assédio por parte do alto escalão da indústria do entretenimento e abriu as portas para o começo do fim da tolerância ao assédio e abuso sexual. Ela Disse conta em detalhes os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo e representou um marco para o jornalismo investigativo do século 21. Saiba mais!
Onde você estava quando Harvey Weinstein foi desmascarado por dezenas de mulheres assediadas por ele? Lembro que eu estava na academia, ouvindo o podcast The Daily, do The New York Times. Por lá o escândalo estava começando a estourar e ainda não se falava com tamanha força disso tudo por aqui. Lembro de ter me perguntado quem era esse homem que afetou de forma tão destrutiva a vida de tantas pessoas, de tantas mulheres, algumas delas verdadeiras estrelas do cinema e do entretenimento. Em pouco tempo a internet já começou a borbulhar com outras mulheres se pronunciando e compartilhando histórias de abuso e nomes de assediadores. O #MeToo, que havia começado como um movimento de ajuda para mulheres vítimas de violência doméstica, agora ganhava o mundo em uma verdadeira onda de sororidade.
Pouco se fala a respeito da criadora do #MeToo, o movimento que atingiu uma escala global e escancarou episódios de assédio e abuso sexual na indústria do entretenimento. Tarana Burke, ativista e novaiorquina do Bronx, foi a responsável pela origem desse catalisador. Em 2006, Burke fundou o movimento Me Too e começou a usar essa frase para aumentar a consciência acerca da crescente generalização do assédio e abuso sexuais na sociedade norte-americana. Em Ela Disse, as autoras mencionam Burke algumas vezes e espero que a ativista ganhe mais espaço nas próximas discussões a respeito do #MeToo.
Em Ela Disse, Jodi Kantor e Megan Twohey descrevem as motivações e as decisões dolorosas e arriscadas das primeiras fontes corajosas a quebrar o silêncio que rodeava Weinstein e toda a indústria do entretenimento norte-americano. Segundo as próprias autoras, “o título Ela Disse é intencionalmente complicado/ escrevemos sobre aquelas que disseram algo, sobre as que decidiram não o fazer e sobre as nuances de quando, como é por quê”. No livro as autoras explicam como provaram a existência de um padrão de comportamento com base em relatos pessoais, documentos financeiros e legais, memorandos de empresa etc, em meio à ebulição do conceito de fake news e da crescente onda de desconfiança em torno do jornalismo.
Uma figura muito mencionada pelas autoras é Rose McGowan. Conhecida por suas polêmicas, Rose é porta-voz de movimentos pelas minorias e, infelizmente, entra na lista de mulheres feridas por Hollywood e seus poderosos. Ela Disse fala sobre o envolvimento de McGowan na apuração da reportagem e menciona que a atriz estava começando a trabalhar em seu livro de memórias, que já apareceu em uma resenha por aqui. Em CORAGEM ela escancara a porta de sua vida e convida o leitor a conhecer os bastidores de uma indústria até pouco tempo inabalável. Com reflexões e relatos, Rose escreve uma autobiografia doída, mas extremamente necessária.
O livro também é uma importante referência para quem busca entender melhor as nuances e minúcias do processo investigativo dentro do jornalismo. Conseguimos perceber o cuidado em proteger as fontes, o interesse em manter a história o mais objetiva e informativa possível, o afinco para garantir a veracidade das informações, o cuidado de entregar um produto jornalístico íntegro e imparcial, dando a chance para que o acusado se defenda. Ela Disse é uma prova irrefutável da importância do jornalismo como ferramenta de luta social e como quarto poder dentro de uma sociedade.
O livro também da destaque para as mulheres que participaram dos bastidores da apuração e investigação da reportagem, incluindo Rebecca Corbett, uma das mais reverenciadas jornalistas estadunidenses. Mesmo que não apareça tanto na mídia, ela tem um papel fundamental no apoio e edição de algumas das matérias mais impactantes dos últimos anos nos Estados Unidos.
Ela Disse é também um belíssimo exemplo da minuciosidade e da importância do jornalismo investigativo. As autoras ilustram de forma exemplar como o sistema jurídico e a cultura corporativa, e não apenas a estadunidense, diga-se de passagem, serviram para silenciar as vítimas e ainda inibem a mudança.
Como mulher foi um privilégio ter podido ver, em primeira mão, os desdobramentos da reportagem enquanto eles aconteciam. Foi um alívio poder ver, enquanto começava minha vida adulta, que eu estava crescendo em uma sociedade que começava a ser cada vez mais obrigada a ouvir as pautas das minorias políticas e sociais. Como mulher, observar o mundo sendo forçado a arrancar alguns pedaços das suas viseiras, é uma benção. Ela Disse serve como um registro poderoso de como as mulheres tiveram e ainda têm que lutar arduamente por seus direitos mais básicos em um mundo pautado pelo machista e misógino status quo. As mudanças são lentas, dolorosas e hercúleas, mas elas acontecem e estão acontecendo.