Uma mulher estoniana idosa, Aliide Truu, vive isolada em uma casa decadente no campo, cercada por ervas daninhas e fantasmas. Um dia, encontra uma jovem descalça e ferida no jardim, Zara, uma russa em fuga. Esse encontro, que poderia parecer acidental, desvela uma teia profunda de violências, memórias e segredos enterrados.
À medida que Expurgo se desenrola, somos conduzidos por uma narrativa de camadas, marcada por duas linhas do tempo que se entrelaçam: a Estônia sob domínio soviético e a Estônia pós-independência, ainda marcada pelas feridas da ocupação. Oksanen não nos entrega uma história simples; ela nos arrasta para um labirinto de opressões históricas e íntimas, onde o corpo feminino é território invadido, e a dor é legado.
Cheguei nesse livro por conta do desafio MundAfora em 198 livros. Na época de escolher uma leitura para a Finlândia de deparei com a escritora finlandesa-estoniana Sofi Oksanen. Entretanto, como suas histórias são muito arreigadas na Estônia, deixei para ler fora do desafio. E aqui tenho uma aula sobre a Estônia, sua história e seus traumas.
Ao contar a história de Aliide e Zara, a autora ilumina o conflito histórico entre a Rússia e a Estônia, um país que viveu sob o domínio soviético por quase meio século. A ocupação da Estônia foi mais do que uma perda de soberania: foi uma devastação cultural, familiar e subjetiva. O passado imperialista da Rússia e sua política repressiva emergem como força modeladora do destino de duas mulheres separadas por gerações, mas unidas por um ciclo de violência. Zara, vítima do tráfico sexual contemporâneo vindo da Rússia, encontra em Aliide, que colaborou com a KGB durante a ocupação, um reflexo distorcido de si mesma. Ambas foram abusadas, silenciadas, violadas. Ambas carregam as marcas de um poder que transcende o tempo e atua como fantasma.
Quando decidimos que um livro deve ser abandonado? Confesso que a primeira parte , esse encontro entre as duas, parece arrastada, mas a partir do momento que o mistério vai se desvendando e entramos no passado de Aliide, a trama avança. Porque o mais perturbador em Expurgo é perceber que, apesar das décadas entre elas, Aliide e Zara enfrentam o mesmo inimigo: o autoritarismo russo em suas várias formas. A opressão muda de vestes, mas mantém o mesmo olhar de dominação.
Oksanen estrutura sua narrativa por meio de saltos temporais, entre os anos 1940 e a década de 1990, compondo um mosaico em que o leitor precisa juntar as peças como quem vasculha um porão escuro em busca de ossos. A alternância entre os períodos não apenas constrói tensão, como explicita o caráter cíclico do sofrimento: o que foi vivido sob o regime stalinista ressurge, com outras formas, nos becos do tráfico humano pós-soviético. A Estônia independente ainda carrega os escombros do império, e suas mulheres, como Aliide e Zara, continuam a pagar o preço de uma história escrita com violência, submetidas aos homens russos.
Aliide, em sua juventude, viveu sob a constante ameaça do regime soviético. Irmã de Ingel, casada com Hans, um resistente ao regime comunista. Ela foi testemunha da perseguição que desintegrou sua família. Mas Aliide também foi agente de sua própria tragédia: por amor, por inveja, por medo, ela colaborou. Tornou-se delatora, assinou documentos, sobreviveu. Sua cumplicidade com os soviéticos não apagou sua própria humilhação: ela também foi vítima de tortura, de estupro, de controle. O que Oksanen propõe aqui não é o maniqueísmo, mas uma dolorosa zona cinzenta. Aliide não é apenas vilã nem mártir. É um retrato fabuloso complexidade humana sob regimes de opressão.
Zara, por sua vez, é o corpo jovem marcado pela violência mais contemporânea: o tráfico sexual. Seduzida por promessas de trabalho na Alemanha, acaba prisioneira de uma rede de prostituição comandada por russos. Ela sobrevive, foge, carrega cicatrizes visíveis e invisíveis, e um segredo. As duas mulheres, separadas por cinquenta anos, compartilham a mesma prisão emocional, a mesma herança de dor.
A linguagem de Sofi Oksanen é precisa e cortante. Em muitos momentos, a narrativa soa como um testemunho íntimo, um murmúrio que se transforma em grito. A autora evita o sentimentalismo, mas não economiza na crueza. Ela escreve com a coragem de quem sabe que não se pode suavizar o horror.
Sofi Oksanen oferece, também, por meio de sua escrita, uma crítica à romantização da resistência. O heroísmo, quando posto sob a luz do cotidiano, ganha contornos mais sombrios. Hans, por exemplo, é um símbolo da resistência estoniana, um homem que escolheu se esconder mas sua escolha de se esconder exige que os outros, especialmente as mulheres, arquem com as consequências. A coragem de uns pode significar o martírio de outros. Ninguém sai ileso de uma guerra, sobretudo as mulheres que vivem nas entrelinhas dos discursos patrióticos.
A crítica que emerge do romance não é apenas à ocupação soviética, mas também à omissão e ao conformismo. Aliide sobreviveu, mas a que custo? E essa sobrevivência foi um ato de resistência ou de submissão? Ao mesmo tempo, Zara, ao fugir de seus captores, desafia uma estrutura criminosa global. Ambas são sobreviventes, mas também cúmplices, em diferentes graus, de um sistema que as violentou. Expurgo não oferece redenção fácil. Ele oferece o desconforto esse sentimento necessário para que a literatura cumpra seu papel de questionar.
Ler Expurgo hoje é também pensar sobre o retorno das tensões geopolíticas entre Rússia e seus vizinhos, sobre a fragilidade das democracias e o corpo feminino como território político. A atualidade do romance não está apenas em sua denúncia histórica, mas em sua capacidade de revelar os mecanismos pelos quais a violência se perpetua. Não é por acaso que a protagonista vive cercada por plantas, ela tenta, desesperadamente, enraizar-se em uma terra que sempre a expulsou.
No fim, Expurgo é um livro sobre a memória – e sobre o que fazemos com ela. Esquecer, fingir, recordar? A casa de Aliide é uma metáfora para a própria Estônia: um lugar cheio de compartimentos escondidos, de documentos enterrados, de dores abafadas. Zara é o presente que exige explicações. O encontro entre elas é um convite para revisitar o passado com coragem, ainda que isso signifique encarar os próprios fantasmas.
Apesar do final abrupto (acho que caberia um desenvolvimento nesse ato), é um livro de uma beleza sombria e necessária. Sofi Oksanen nos mostra que as fronteiras da história não são fixas, elas atravessam gerações, corpos, silêncios. E é na escuta desses silêncios que talvez possamos começar, finalmente, a entender, não para perdoar, mas para não repetir.
Expurgo de Sofi Oksanen; tradução de Julián Fuks. Rio de Janeiro: Record, 2012. 346p. Leitura de Maio 2025.