Não leiam a sinopse da página do livro nesta rede social, ou qualquer outra a propósito. Um, por apresentar spoilers desta obra cuja segunda metade traz uma série de surpresas e reviravoltas, tendo uma delas inclusive, envolvendo um par de abotoaduras, me lembrado do filme Match Point (2005), de Woody Allen (inspirado em Crime e Castigo, de Dostoiévski) e dois, por constituir tarefa ingrata sintetizar trama tão complexa de um romance que poucas resenhas farão jus. E prossigo sem pretensão de escrever uma delas.
Terceiro livro de André Gide que leio, Os Subterrâneos do Vaticano, tem uma leitura que a princípio, não impõe urgência em seu ritmo, diferente de outros romances do escritor que, posso dizer, já está entre os meus favoritos. No entanto, o leitor mais paciente será recompensado com um ato final que respeita o conhecimento prévio das personagens e culmina num clímax emocionante e arrasador. Alguns diálogos, da primeira parte principalmente, surgem reticentes, como se fosse óbvio o que o personagem (que a gente ainda mal conhece) iria dizer, outros parecem saídos de uma peça teatral. Posteriormente descobri no encarte que acompanha esta edição ter havido montagens no teatro francês.
O que havia comparado inicialmente a um romance nos moldes de Um Conto de Duas Cidades, de Charles Dickens, com Roma aqui substituindo a capital inglesa, tornou-se notável recipiente das ideias existencialistas de liberdade do autor, representadas especialmente por seu fascinante e ambíguo (só um entre vários exemplos do dual presentes na obra) personagem central, Lafcadio Wluiki. Não posso afirmar que o entendi completamente ao final. Mas Gide não parece mais preocupado em trazer respostas do que em fazer questionamentos. Há quem não goste, mas as últimas sentenças aqui, não por acaso, são fechadas com pontos de interrogação.