Se a série Minha Luta apresenta a vida do norueguês Karl Ove Kanausgård mediante o exame meticuloso de suas memórias, na Quadrilogia das Estações, o escritor aborda o mundo que o cerca com o intuito de apresentá-lo a Anne, a caçula de seus quatro filhos, que ainda irá nascer.
Outono, o primeiro livro, foi escrito em 2013 e lançado dois anos depois, mas só agora, foi publicado no Brasil e pretende ser um guia para essa nova integrante da família, à medida que reúne 3 cartas endereçavas a ela e 60 pequenos ensaios sobre as mais diversas coisas que encontrará pela frente, resultando numa miríade de informações que conduzem a uma indagação: “o que faz com que valha a pena viver?”
Uma questão que centraliza a obra de Klaus Ove e, nesse caso, abdicando de longas argumentações filosóficas, o escritor sintetiza em poucas linhas: “Eu quero mostrar a você o mundo em que vivemos da maneira como é agora: a porta, o assoalho, a pia e o tanque, a cadeira de jardim apoiada na parede sob a janela, o sol, a água, as árvores. Você há de vê-lo do seu próprio jeito, você há de criar as suas próprias experiências e viver a sua própria vida, então é acima de tudo para mim que eu faço isso. Mostrar o mundo a você faz com que valha a pena viver a minha vida.”
Trata-se não só uma descrição sazonal como também uma reflexão sobre o dia a dia do escritor ao lado de sua família na zona rural da Suécia, mais especificamente na cidade portuária de Malmö, onde residiam na época. Uma exposição que resgata a própria infância de Karl Ove e redimensiona o vínculo entre pais e filhos.
Em linhas gerais, ele consegue escapar do óbvio. Enquanto caia um muro, poda um salgueiro, ou crava os dentes numa maçã recém-colhida, o escritor observa atentamente os fenômenos e objetos ao redor, para resgatar um mundo vasto e admirável, que não pode ser compreendido apenas pela razão.
O cenário perfeito para se refletir sobre uma sacola plástica no oceano, a estranheza dos texugos ou o impacto de uma ave de rapina capturando a presa no seu quintal. Vez ou outra, ele igualmente surpreende pelas comparações divertidas e até pueris — os primeiros dentes são como “pedrinhas” e os dedos lembram “vermes ou pequenas serpentes” – que remetem ao seu estreito convívio com os filhos pequenos.
Contudo, esse livro possui um ponto nevrálgico: a inevitável comparação com a monumental Minha Luta. Sem maiores pretensões, a Quadrilogia Das Estações é deve ser compreendido como um interlúdio, enquanto o escritor se prepara para voos mais altos e duradouros.
A despeito dessa particularidade, recomendo o livro, tanto para aqueles já conhecem a hexalogia, como para os que jamais tiveram contato com a obra. Não é por acaso que Karl Ove é considerado um dos maiores nomes da literatura contemporânea. 🍁