O ano é 1997. Ruínas tecnológicas formadas por gigantescos drones de batalha e edifícios abandonados compõem o cenário. Há lixo por toda parte, reflexo de uma sociedade consumista em declínio, há tempos viciada em um sistema de realidade virtual que condenou todos a uma espécie de prisão auto infligida. Mas não exatamente todos. Michelle tem 19 anos e possui uma condição neurológica congênita, uma pupila maior do que a outra, que a impede de usar os projetores neurais. Acompanhamos a viagem da adolescente com o seu pequeno robô amarelo para o oeste americano e, aos poucos, vamos desvendando novos detalhes sobre a sua vida trágica e sobre a guerra que assolou o país.
Se tem uma coisa que o autor/artista Simon Stålenhag sabe fazer é contar uma história visualmente. Sua especialidade é retratar paisagens hiper-realistas dentro do universo da ficção científica ~ e ele vem fazendo isso desde o seu primeiro livro Tales from the Loop (Ur varselklotet), que foi adaptado para uma série de mesmo nome em 2020. Nesse novo livro Stålenhag continua nos presenteando com paisagens fantásticas estranhamente semelhantes às nossas. O impacto visual é de tirar o fôlego.
Ao contrário de muitas obras de sci-fi baseadas em sequências de ação e carregadas de adrenalina, o Estado Elétrico tem um ritmo calmo, quase cauteloso e uma aura de tristeza que nos acompanha do início ao fim. O final, aliás, (mais precisamente a revelação final) é de cortar o coração ~ mas deixa uma fagulha de esperança também. O equilíbrio perfeito.
Os traços do Simon Stålenhag são tão realistas que a impressão é de estar folheando um álbum de fotografias, não fosse o contexto fantástico envolvido. Algumas imagens lembram pinturas também e as imagens noturnas são particularmente impressionantes.
Por aqui o livro foi publicado pela Companhia das Letras (pelo selo Quadrinhos na Cia.), tem capa dura e efeito em verniz, que simula as gotinhas de chuva no para-brisa do carro da personagem principal. O formato é grande, 27×24 cm, o que possibilita páginas inteiras de arte, que se revezam ocasionalmente com pequenos trechos de texto nas laterais. Belíssimo e imperdível para os fãs de ficção científica, graphic novels e arte em geral.
O livro está sendo adaptado para o cinema pelos irmãos Russo e terá Millie Bobby Brown como a protagonista Michelle. Agora é esperar que a adaptação seja tão sensível e bem feita quanto a de Tales from the Loop, que contou com a consultoria de design de produção do próprio Stålenhag.