“Não há histórias que não sejam verdadeiras. O mundo é infinito, e aquilo que é bom para certas pessoas pode ser abominável para outras”.
Considerado como o ‘patriarca’ da literatura africana, Chinua Achebe entregou ao mundo em 1958 o livro “O Mundo se Despedaça” marcando a sua entrada na literatura nigeriana.
Situado na Nigéria no final do século XIX, a história narra o destino trágico de Okonkwo, um guerreiro temido e muito poderoso, cuja única preocupação é não se parecer com seu pai. O romance também oferece um testemunho autêntico sobre a vida de uma aldeia ‘Igbo’ à luz da colonização britânica, que tragicamente vai desaparecendo com a chegada dos colonos.
No final do século XIX, numa aldeia nigeriana, Okonkwo é um notável chefe de família, respeitado pelos seus pares pela sua coragem e pela força das suas convicções. No entanto, é obrigado a abandonar tudo da noite para o dia devido a um acidente fatal pelo qual é considerado responsável. Ao regressar de sete anos de exílio, encontra a sua comunidade profundamente transformada.
Homens brancos instalaram-se no país e a sua influência espalhou-se como uma praga, mudando todos os aspectos da vida quotidiana, as crenças religiosas e a educação das crianças da aldeia. Como um herói trágico, Okonkwo confrontará este novo mundo e lutará contra o desaparecimento do antigo.
Antes mesmo de embarcarmos neste romance, somos aconselhados a abandonar nossas idealizações europeias etnocêntricas, a esquecer da visão distorcida que temos da África e dos africanos através do prisma de seus pontos de referência habituais, a se distanciar dos nossos próprios critérios culturais e, acima de tudo, a não nos comportarmos como um turista textual.
Porque para compreendermos a mensagem e a intenção do autor com esse romance, devemos adotar o ponto de vista do narrador, que está profundamente ancorado e enraizado no contexto ‘civilizacional’ da narrativa, e entrarmos no universo de Okonkwo, que viveu numa época da história que pode ser situada nos séculos XVI/XVII, tempos esses em que começaram as prisões em massa organizadas por, ou para, os traficantes de escravos, e também da chegada dos primeiros missionários cristãos nas comunidades autônomas de aldeias em um vasto território correspondente à província oriental da atual Nigéria.
E durante a leitura vivenciamos ‘de dentro’ todas as etapas sociais pelas quais o incansável agricultor de inhame passa, uma a uma, superando com ele as provações das colheitas ruins, da má sorte e dos lutos, compartilhando da mesma satisfação gerada pela lenta multiplicação dos celeiros repletos de inhame à medida que a terra que lhe é dada para cultivar se expande.
Sentimos com ele o orgulho de poder, consequentemente, tomar uma segunda esposa, depois uma terceira, depois uma quarta, e nos alegrarmos ao vê-lo adquirir, um após o outro, os títulos tradicionais, codificados com muita precisão no contrato social do clã, que gradualmente o tornam um notável guerreiro respeitado na comunidade.
E, evidentemente, sofremos com Okonkwo, embora reconheçamos a legitimidade, de acordo com o costume, da sanção, quando é excluído do clã Umuofia por sete anos por ter acidentalmente causado a morte do filho de um dos notáveis chefes da aldeia.
Essa viagem literária, essa descoberta cultural, essa percepção de humanidade só será possível se seguirmos os conselhos que lhes disse no sexto parágrafo dessa humilde resenha crítica.
Outro ponto muito interessante desse livro é que é um livro clássico de três partes e isso foi fundamental para a estruturação do romance e o desenvolvimento dos temas, sobretudo, a partir da chegada do homem branco e dos missionários cristãos ao sudeste da Nigéria. Toda a estrutura magnífica do romance, sua complexidade e sua análise sofisticada da sociedade humana e do imperativo colonial vão se revelando no decorrer da narrativa.
Exatamente por isso, a princípio, Achebe está muito mais interessado em evocar uma cultura e elaborar um retrato matizado de seu protagonista imperfeito do que em propriamente construir uma trama.
Entretanto, esse equilíbrio se inclina drasticamente no final do primeiro ato, apresentando a chance para o autor começar a sobrepor lenta e delicadamente seu contexto social e histórico mais amplo através das partes dois e três. Primeiro Okonkwo deixa sua aldeia e então, em seu retorno, descobre que, de muitas maneiras, sua aldeia o abandonou.
Então, o romance nos mostra como as tradições milenares do lugar são gradualmente corroídas e engolidas pela chegada dos missionários cristãos e das autoridades coloniais. Mostra-nos a decadência de uma civilização através do declínio de um homem gradualmente levado à marginalização e ao suicídio.
Okonkwo é a imagem de uma sociedade levada à desintegração. Tudo isso é indubitavelmente verdade, mas sua descrição, fascinante por si só, do cotidiano de Umuofia e da família de Okonkwo, tem mais do que apenas valor hagiográfico. É por ir muito além da tentação do primitivismo feliz que Achebe consegue escrever um dos primeiros romances descolonizados.
Essa sutileza pode ser encontrada, mais uma vez, no personagem Okonkwo, que domina todo o desenvolvimento do romance com sua constituição robusta. Ele não é descrito como um herói, mas sim como um bastardo dramaticamente forte.
Ele só reconhece a força e não está disposto a se curvar para quem quer que seja. A fraqueza o repele, e a única resposta que vê em qualquer situação é a da força. Quando seu filho se converte ao cristianismo, sua única reação é a incompreensão e o anátema.
Nenhuma tragédia é para ele uma oportunidade de se questionar. Muito mais do que a incapacidade dos brancos de reconhecer a identidade dos negros, esse romance retrata a incapacidade dos africanos de confrontar os europeus e questionar seus valores quando em contato com eles.
Mas, de alguma forma, compreendo a perspectiva do protagonista, porque assim como é para ele, para nós leitores a normalidade é Igbo e a barbárie é europeia, pois foi com a chegada do homem branco àquele lugar que tudo desmoronou.
O estilo de escrita de Achebe é simultaneamente lírico e sóbrio. Não há uma única palavra estranha e, no entanto, não é remotamente espartano. Em vez disso, é uma descrição contundente de um mundo supersticioso, muitas vezes opaco.
A tradução, feita pelas mãos de Vera Queiroz da Costa e Silva, é primorosa, conseguindo manter ‘a originalidade’ da língua-mãe, pois, é permeada pelas estruturas idiomáticas e proverbiais do dialeto Igbo. Através de Okonkwo e daqueles com quem ele se relaciona, somos capazes de acessar a riqueza da cultura Igbo e compreender sua visão de mundo.
Achebe se expressa em uma linguagem bastante figurativa, significativa da arte oratória que permeia o universo de onde ele vem. “Os provérbios são o azeite de dendê que faz as palavras fluírem com a fala”, diz um personagem do romance. No entanto, ele não faz da África pré-colonial um paraíso perdido, mas, ao contrário, a torna passível de críticas em muitos aspectos.
A sutileza do livro também reside em mostrar a natureza irreversível da mudança que está ocorrendo. O país é gradualmente forçado a se curvar ao poder do invasor. Mas, em resposta a essa história que se desenrola, o livro de Achebe transmite outra mensagem: a do passado e das tradições, cuja memória deve ser preservada a todo custo. É assim que resistimos e como se torna impossível para o Outro despojá-lo completamente de si mesmo.
O passado narrado que o autor exibe não é romantizado, glamourizado ou santificado. É chocantemente brutal, casualmente cruel e dilacerado por injustiças grandes e pequenas. Mas, por isso mesmo, é ainda mais acessível.
A veracidade permite que todos nós leitores sintam um pouco do que deve ser para sua cultura e costumes milenares serem submetidos a ataques constantes, muitas vezes perniciosos, em nome da ‘civilização’.
A pedra angular deste romance é o paradoxo da intersubjetividade, ou seja, o fato de que o que nos une é tão poderoso quanto frágil. Poderoso pela força dos tabus, ritos e crenças das populações pré-coloniais da Nigéria, que conferiam à vida e aos acontecimentos um caráter profundamente imutável.
Mas muito frágil ao mesmo tempo, porque é desconcertante ver a rapidez com que um sistema tão secular pôde ruir diante do inesperado, de um cisne negro, da chegada de missionários cristãos e colonos europeus.
É uma sátira extraordinariamente cáustica para encerrar. A visão supostamente sofisticada e historicamente preeminente do poder ‘civilizador’ revelada em sua ignorância avassaladora. Não há nada que pacifique a repressão de uma nação, assim como claramente não havia nada inerentemente primitivo na sociedade nigeriana.
Esse romance também nos lembra de que nunca se devem omitir detalhes quando vamos contar a ‘origem’ de qualquer civilização, pois é nos detalhes que reside o verdadeiro sentido da experiência de um indivíduo, de uma tribo, de um país. Achebe apresenta esses detalhes com uma força impressionantemente memorável.
Exatamente por isso, a necessidade de literatura africana, escrita por africanos e para africanos – “Até que os leões tenham seus próprios historiadores, a história da caça glorificará o caçador”. Achebe citou esse provérbio em algum momento da narrativa. Ele captura apropriadamente o significado que ele dá à sua escrita.
“O Mundo se despedaça” é, em última análise, um romance de luto por uma África que desapareceu sob os golpes das forças econômicas, sociais e culturais europeias. No entanto, oferece uma perspectiva vívida sobre essa civilização desaparecida.
É uma maneira de mostrar que, embora os caçadores tenham tomado posse da terra, são os leões que ainda continuam sendo reis.