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    Juliano -

    Gore Vidal

    Rocco
    1986
    455 páginas
    15h 10m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
    4.4
    124 avaliações
    Leram224Lendo16Querem153Relendo1Abandonos1Resenhas6
    Favoritos30Desejados153Avaliaram124

    Reconstituição romanceada da vida do imperador Juliano, que reinou apenas três anos (de 361 a 363 de nossa era). Nesse tempo tentou, sem êxito, restabelecer o paganismo e deter o abvanço do cristianismo no mundo romano.

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    Resenhas (6)Ver mais
    Inácio França picture
    Inácio França07/02/2010Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Juliano - www.caotico.com.br

    Nos últimos dias de 2009, no meio daquela correria sem sentido de final de ano, considerei que eu merecia um presente. As semanas que viriam pela frente prometiam ser de muito trabalho, com a chegada dos filhos que moram com a mãe em Tocantins, a obrigação de correr contra o tempo e entregar os textos do Um Rio de Gente e a perspectiva de mais demanda por conta do carnaval em Olinda. Então, resolvi me dar de presente a leitura de Juliano, de Gore Vidal. Depois de comprá-lo num sebo, deixei o livro curtindo na estante, cevando, enquanto gozava a expectativa da leitura. De vez em quando faço isso com algumas coisas que passo um tempão desejando ler, mas quando estou com ele nas mãos, resolvo esperar mais um pouquinho. Um traço masoquista, provavelmente. Eu estava duplamente certo. Estou a ponto de enlouquecer de tanto preparar café-da-manhã, arrumar atividades para as crianças, apartar brigas, suportar arengas, além da ansiedade por causa dos prazos. A sorte é que Juliano é realmente show de bola. Só nas três primeiro páginas, já tinha marcado de lápis uma meia dúzia de trechos. Peguei essa mania de rabiscar o que vou lendo por causa do Caótico, antes meus livros permaneciam limpinhos. Juliano foi o imperador romano que ensaiou uma reação contra o domínio do cristianismo e uma tentativa de revitalizar os cultos aos deuses gregos. O sujeito era filósofo, acreditava que o monoteísmo era uma ameaça ao debate de ideias, à diversidade da natureza e da humanidade. Quando assumiu o poder, tentou enquadrar a máfia dos bispos sem perseguir a liberdade de culto. Acabou vítima de uma conspiração dos galileus, como ele chamava os cristãos. A Idade Média e a intolerância religiosa que é uma das marcas registradas do monoteísmo provou que, em muitas coisas, o imperador estava coberto de razão da cabeça aos pés. Qualquer dia pretendo publicar aqui alguma elocubração sobre monoteísmo, politeísmo e ideologia, mas hoje vou me concentrar no livro. Tem outro esperando que eu o escreva. Juliano é um romance histórico. Gore Vidal tomou como ponto de partida fatos históricos e costurou a história com sua imaginação. A vida desse imperador é muito bem documentada, apesar do seu governo ter durado pouco. Vidal não poupa o cristianismo, principalmente porque levanta argumentos teológicos sem se submeter à lógica hegemônica do monoteísmo. Seu protagonista também não escapa da visão crítica e irônica do escritor norte-americano, que é mordaz, por exemplo, quando narra e descreve os rituais que o estudante de filosofia e futuro imperador considerava sagrados. Em um desses ritos, Juliano e um monte de gente entram no mar segurando um porquinho guinchando. O personagem vê beleza e santidade nessa cena ridícula. Em matéria de ridículo, leitões tomando banho de mar são colocados no mesmo pé de, por exemplo, a convicção de que um monte de ossos de um “santo” pode curar seja lá o que for. O imperador era um humanista, tinha horror à tirania, era um sujeito de bom coração, justo, porém meio ingênuo, quase abestalhado em sua crença nos sacerdores, oráculos, pitonisas e magos. Esse abestalhamento, somada à pressa e falta de habilidade para tocar seus projetos, o lascou. A história é ótima, mas a técnica literária de Vidal faz o livro ficar ainda melhor. Parte da narrativa é em primeira pessoa: as memórias e os diários de Juliano, que foram parar nas mãos do filósofo Prisco, um sujeito bem pragmático, mas frouxo todo, que não pretende usar o material porque tem medo de se expor numa época em que os cristãos já estão tomaram conta do aparelho do Estado romano e estão por cima da carne seca. Os comentários de Prisco, de outro velho filósofo, Libânio, e a troca de cartas entre eles completam a estrutura do romance. Tanto Prisco quanto Libânio existiram e tiveram contato com o imperador. Esse último, aliás, escreveu livros sobre Juliano no século IV. Gore Vidal é escritor, roteirista de cinema e militante de esquerda, não um gênio da literatura. Em consequência, não experimentei aquela sensação de felicidade e completude que senti ao final de livros de Bolaños, Benedetti, Tchekhov ou Dostoievski. Mas é preciso ser justo: além de ter sido envolvido pela história muitíssimo bem contada, aprendi muito, tanto que consultei diversas vezes o Google, o oráculo moderno, para descobrir imagens do próprio Juliano (ao lado), do seu tio e antecessor, Constâncio, e de lugares como Aquiléia, Sirmium, Sarmácia, Nicomédia e Antióquia. No Aurélio, descobri que “perifrástico” é o discurso com muitos rodeios, cheio de voltas; e “virago” é o mesmo que machão. O livro tem uma série de trechos excelentes, que vou transcrever na página Trechos Arretados nos próximos dias, a medida que tiver tempo para digitar.

    8 curtidas

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    Avaliações

    4.4 / 124
    • 5 estrelas58%
    • 4 estrelas27%
    • 3 estrelas11%
    • 2 estrelas3%
    • 1 estrelas1%
    Eugene Luther Gore Vidal profile picture

    Eugene Luther Gore Vidal

    Gore Vidal nasceu em 1925 na Academia Militar de West Point. Era filho de um pioneiro da aviação norte-americana. Foi criado em Washington onde seu pai trabalhou para o governo Roosevelt e seu avô foi o senador T. P. Gore. Ingressou na literatura quando adolescente, escrevendo contos e poemas. Publicou seu primeiro romance aos 21 anos quando servia nas Forças Armadas durante a Segunda Guerra Mundial, mas nos anos 50 passou a sofrer perseguições por parte dos conservadores liderados pelo senador McCarthy. Tem sido um crítico cáustico das posturas belicistas adotadas pelos dirigentes norte-americanos.Gore Vidal é romancista e ensaísta e residiu muitos anos em Ravello, Itália, tendo retornado para os Estados Unidos, Los Angeles, quando da enfermidade e posterior morte de seu companheiro Howard Auster, em 2003. Continua a escrever livros e artigos para periódicos do mundo inteiro. Entre seus livros publicados em português, destacam-se: 1876, À Procura do Rei, Burr, Era Dourada: Narrativas do Império, Palimpsesto, Fundação Smithsonian, Kalki, Messias, Sonhando a Guerra, Myron, Criação, O Julgamento de Paris , Williwaw, "A Cidade e o Pilar" e Juliano.

    46 Livros
    53 Seguidores
    Nova York, Estados Unidos da América

    Eugene Luther Gore Vidal