“[...] Eu precisava colocar as palavras no papel, me distrair. Seja lá quem estivesse naquela casa, eu podia ouvir a criatura rindo de mim. Escrever era a única coisa que me trazia alívio naquelas madrugadas. Eu pensava que se contasse aquela história, as sombras me deixariam em paz.” — Pág. 190
Seria Escrita Maldita uma verdadeira maldição encadernada? Se foi usado um lápis, uma máquina de escrever ou um computador, não sabemos... mas as palavras foram certamente impressas em sangue...
Há tempos um livro de terror não me encantava tanto! Chega a ser estranho usar o verbo “encantar” para algo tão obscuro, mas os amantes da leitura de horror sabem bem como é se sentir extasiado com uma boa leitura do gênero. E Escrita Maldita cumpre muito bem a sua tarefa, e até mesmo ultrapassa nossas expectativas, nos sacia e ao mesmo tanto cria um vício que nos impedir de querer mais e mais. Seus capítulos curtos nos abrem um apetite visceral, e não sabemos se estamos devorando as páginas, ou se elas é que estão nos devorando.
Ben sabe muito bem utilizar as palavras e criar situações, não dá nem para dizer que “ele chega devagar e nos conquista”, pois o processo é muito rápido, quando menos se espera, a sua narrativa já nos abraça, e é um abraço que vai nos envolvendo... apertando... esganando... estrangulando... até que a respiração quase para, pois esquecemos como se respira.
“— Essas coisas não se ensinam. Você precisa vivê-las. Não se pode virar escritor da noite para o dia. Não é como se eu não quisesse te contar como se fosse um segredo. A magia da escrita escolhe o autor e não o contrário.” — Pág. 41
Se você é um escritor, certamente irá se identificar com os personagens desse livro, ou pelo menos irá se identificar com as críticas que Ben insere durante a narrativa, sobre o mercado editorial, as dificuldades de se alavancar no mercado, o processo da escrita que por vezes pode ser doentio etc.
O autor certamente tem suas inspirações e referências, algumas explicitas, outras ocultas, a união de todas essas ideias, fez com que ele criasse personagens únicos, sombrios, apaixonados, física e psicologicamente vivos e isso torna eles reais.
“Daniel era como o manuscrito de um romance não terminado, todo rabiscado e desconexo, esquecido dentro de uma gaveta e jamais encontrado. Nem ele tinha o manual necessário para decifrar seus pensamentos. Era uma ilha jamais descoberta, submersa no mar da solidão.” — Pág. 82
Durante a leitura, por meio de sua narrativa descritiva e nada cansativa, do viés psicológico que entremeia as frases, conseguimos imaginar cada cena, cada situação, de forma clara, mesmo quando a escuridão ronda a casa de campo onde os autores digitam as palavras insanamente...
“[...] As luzes do escritório piscaram, como se a qualquer segundo fossem apagar. Ele caiu e começou a chorar, não porque sentia dor e sim porque aquela presença maligna queria vê-lo morto.” — Pág. 67
Ben mais uma vez surpreende, se a escritora Amélia de Remetente Nº15 já me cativou, imagine Daniel Luckman e Laurence Loud, que são ainda mais completos e obscuros? Um livro de terror que merece ser lido e acrescentado em todas as coleções. Um nacional de respeito que reúne o terror psicológico e sobrenatural como só os grandes mestres sabem fazer... Recomendo, e muito, essa leitura e Escrita Maldita não leva nada menos que 5 estrelas.