Iniciei a leitura desse livro imaginando uma divertida empreitada com a mistura da narrativa fluida de Solomon e de amenidades de viagens, o que certamente me proporcionaria bons momentos, como apreciadora de uma boa viagem.
Surpreendentemente, me vi cercada de muita história geral, mergulhando em conhecimento bem estruturado através de vivências e reflexões das quais o autor nos convida a participar.
Da ação de transitar pelo mundo para o entendimento de que trata-se de um ato político - essa ponte foi o que, semi-consciente, sempre me motivou a vagar por aí - e cuja expressão consciente essa obra tem o mérito de trazer à tona.
Ilustro um pouco do raciocínio que, a meu ver, subjaz à construção do livro por meio desses trechos pinçados do posfácio:
“O tipo de tirania contra o qual muitos dos povos aqui mencionados lutaram — Afeganistão, Líbia, Rússia, África do Sul, Camboja, Ruanda e muitos outros — agora ameaça partes do mundo nas quais isso parecia impensável. Suas histórias são prova de que resistência e coragem podem ser aprendidas, e assim deve ser. Se pretendemos sobreviver à autocracia que floresce no Ocidente, devemos estudar a história recente dos países castigados e ouvir as pessoas que dentro desses países defenderam a liberdade, apesar da perseguição implacável.
Alexander von Humboldt, o grande naturalista do século XIX, disse: ‘Não há visão de mundo tão perigosa quanto a daqueles que não viram o mundo’. Cada vez mais, as reviravoltas políticas recentes vêm depositando o poder em mãos de pessoas que abertamente se abstêm de ver o mundo, incluindo aqueles que viajam sem ver”.
“Mas o internacionalismo não é um projeto de caridade pensado para salvar hordas sujas no estrangeiro; é o reconhecimento pragmático de que o destino das nações tornou-se cada vez mais inexoravelmente entrelaçado e que a exclusão atinge os exclusores tanto quanto os excluídos. No mundo globalizado, nem a Grã-Bretanha é uma ilha, completa em si mesma.”
“A identificação com um grupo, seja de esquerda ou de direita, não é desculpa para a falta de compaixão para com os que estão fora do grupo. Mas a solução não é o abandono da identidade; é ampliá-la e torná-la inclusiva, deixando que as pessoas definam as particularidades de seus relacionamentos. Enquanto as identidades individuais podem ser extremamente específicas, a autorrealização radicada na política identitária é praticamente universal. Todas as identidades se enriquecem com contatos externos ao grupo.
O “Ulysses” de Tennyson diz: ‘Sou uma parte de tudo que conheci’. Tudo que ele conheceu era parte dele também; Tennyson sabia que cruzar fronteiras constitui uma língua. E está se tornando uma língua ameaçada de extinção.”
“Continuar chocado [referindo-se à Era Trump] exige que você resista à dessensibilização provocada pela repetição. Tem a ver com a capacidade de permanecer alerta ao valor da conectividade, e não assumir o que Sebastian Haffner, em seu memorial de Hitler, chamou de ‘transe hipnótico em que seu público embarca, sucumbindo com resistência cada vez menor aos atrativos da depravação e ao êxtase do mal’. Escrevi nestas páginas a respeito de viagens que fiz para entender a depressão, mas na verdade viajar é o oposto de depressão. A depressão é um enroscar-se para dentro, e viajar é abrir-se para fora. Assistir a um mundo global é um meio de fazer um mundo global”.
Amo o texto e visão de mundo de Solomon e me sinto privilegiada por ter chegado a essa narrativa, favoritada!