Ora Pro Nobis -

    Carlos Donato

    Clube de Autores
    2019
    136 páginas
    4h 32m
    ISBN-10: B07SC6BDJ4
    Português Brasileiro

    Torquemada chamou os soldados de Espanha, que tão gentilmente Fernando II de Aragão e Isabel de Castela designou para acompanhá-lo, não que isso fosse necessário, pois todos obedeciam e temia a Santa Inquisição. O braço armado da Igreja no combate a heresia muçulmana e judaica. Desde que o Papa Sixto IV instituíra a Inquisição Espanhola, com o intuito de levar a verdadeira religião a todos os rincões do mundo, afastando de vez a heresia e a ignomínia que se espalha sobre o nome de Deus. Mandou os infantes arrombarem a porta do casebre aos pontapés. E após a porta se abrir com um estrondo, mandou-os se afastar. Desejava entrar primeiro, nunca se sabe que tipos de armadilhas estes infiéis preparam para o espírito de um desavisado. Fez o sinal da cruz e após espargir a água benta por toda a sua volta, com ênfase do lado de dentro, adentrou na pequena sala. Esperou um tempo até os olhos se acostumarem com a penumbra, e então divisou, num canto da casa, os cadáveres insepultos de dois adultos, que jaziam lado a lado, como que num abraço mortal. O estado de decomposição indicava que morreram há alguns dias, provavelmente de febre, ou algum ritual maligno, feito para seu mestre Satã. A simples lembrança do nome do inimigo de Deus o fez tremer e num gesto automático, espargiu mais água benta por todo canto. Depois de meticulosa revista no andar inferior, resolveu subir para o quarto. Os soldados, que ficaram parados na entrada, olhavam-no com respeitoso temor, baseado na sua posição social e pela austera função que exercia. Torquemada gostava deste temor fundado que as pessoas comuns tinham dele. Sabia que era um de seus pecados e que à noite, sozinho em seu catre, se penitenciaria com o chicote. Mas esta era sua fraqueza, todos os homens tinha fraquezas e os Padres não eram isentos delas. A única diferença era que eles sabiam que elas existiam e as combatiam, através de orações e penitências. Com este pensamento na cabeça, atingiu o último degrau da escada de madeira. Quando olhou para o quarto, assustou-se com o que viu. Em um primeiro momento achou que fosse um íncubo, o olhando assustado de cima da cama. Mas ao ver que segurava um crucifixo em suas mãos, resolveu se aproximar. Afinal os demônios abominam Deus; o seu filho primogênito; a Igreja e tudo o que ela representa. Ao abrir mais a porta do quarto para que a parca luz advinda da porta da entrada penetrasse, reparou que era uma criança por volta dos dez ou onze anos. Estava com uma aparência terrível: Cabelos completamente desgrenhados, seminu e com todos os ossos aparecendo.

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    Renan Rocha Pereira25/10/2019Resenhou um livro
    1 (Ruim)

    Uma tragédia de verdade.

    Uma tragédia que reflete a verdadeira mentalidade de uma mente obscura que procura expurgar em outros os demônios que habitam neles mesmos. Um livro que faz, vergonhosamente, apologia ao sistema de torturas medievais (chegando ao extremo de assumir a inocência dos réus) em nome de uma pureza que eles jamais foram capazes de alcançar. Ao caçarem as bruxas em outros, eles as enterraram permanentemente neles mesmos. Tornaram-se piores que os próprios ?demônios? que eles juraram expulsar. Nietzsche dizia que aqueles que lutam contra monstros devem acautelar-se para não tornarem-se também em monstros. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha de volta para você e é precisamente isso que ocorreu aos inquisidores que buscavam lutar contra fantasmas externos inexistentes que representavam exatamente a corporificação de seus próprios abismos internos. Pessoas de mentes doentias.

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