A negra cor das palavras

A negra cor das palavras Alexandra Vieira de Almeida




Resenhas - A negra co das palavras


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Alexandre Kovacs / Mundo de K 22/04/2020

Alexandra Vieira de Almeida - A negra cor das palavras
Editora Penalux - 102 Páginas - Editoração Eletrônica e Capa de Karina Tenório - Posfácio de Nuno Rao - Lançamento: 2020.

Os poemas neste mais recente lançamento de Alexandra Vieira de Almeida, A negra cor das palavras, lidam com os simbolismos relacionados ao chiaroscuro, como era denominada a técnica de pintura renascentista que consistia em revelar os objetos por meio do contraste entre luz e sombra. Neste jogo de diferenças – mas que pode revelar também harmonia – a poeta destaca as palavras impressas contra a página em branco, a lua que inspira a noite dos poetas, o amanhecer a brincar com a madrugada na floresta negra, o vinho tinto e o erotismo ácido das estrelas, companheiros da aventura da escrita e tantos outros signos.

Acontece também da negritude representar o alerta do desequilíbrio social e preconceito racial contra uma etnia em nosso país dividido em fragmentos, como neste lindo trecho do poema Navio Noturno: "O navio noturno / Não aquele negreiro / A traçar a rota do sofrimento // Mas aquele da beleza / Dos versos plenos de magia // O navio noturno leva um alfabeto / De letras coloridas / Vagando na noite esperançosa / Dos segredos // Em que os versos / Não são feitos de fel e açoite / Mas da luminosidade vaga da lua / Que reflete o sol dos mistérios [...]".

A autora afirma a sua preferência pela noite em Fim?: " [...] a noite e o dia se intercambiam / são gêmeos em sua tessitura de / versos. Mas a noite, ah a noite, / deixa-me comovida como um / elemental que percorre as frestas / das palavras explodindo as pupilas / amaldiçoando o tempo / e levando o dia nas costas / como um ferido soldado de guerra." Assim é a poesia de Alexandra Vieira de Almeida, permeada por imagens surpreendentes e ideias originais, como nos três poemas abaixo: A negra cor das palavras, Tulipa negra e O pássaro negro.

A NEGRA COR DAS PALAVRAS

A negra cor das palavras,
rasgando minha pele abismal

No sono dos mortais,
encontro a imortalidade da chama
que queima o corpo da manhã

Na noite dos apaixonantes véus,
o delírio do verso esférico
como a bola da lua em cristal de espumas

Não digo o verbo de espinhos
qual sangue que fere o tempo
Digo a palavra bruta
que tece os terçóis do sol

Na languidez do mapa,
o itinerário das negras letras
a faiscar um caminho para o Paraíso.

TULIPA NEGRA

Ela era a noite
Escondia-se do sol
Em momentos de lascívia
Na soturna espera dos sentidos
A cor adestrava a vagueza da letra morta
Era cor viva não tal qual sangue
Mas absoluta na sua morbidez de vida

Latejava as duplas montanhas da sorte
Em bebericar a lua numa espera de sol
O encontro era na caverna noturna dos corcéis
Que se atropelavam feito lendas de escorpião

A flor era o segredo da noite
A faiscar bolhas de palavras
Na pele, a sonolência do sol
A sombra desaparecia, pois não era resto
Era plenitude açoitada na fonte

No longínquo mapa do toque
A vastidão do fundo do mar
Em adentrar aquele rosto escuro da beleza
Em pleno despertar das coisas eternas.

O PÁSSARO NEGRO

Ele era o barulho do vazio,
se fazendo lenda no voo da violência

Livre pelo ar,
adocicava a natureza
com sua cor bendita

Rei entre os pássaros,
não se gabava de ser peão
mas imperava no meio da floresta
com seu canto de hinos e versos selvagens

Mas o homem que não era lenda,
só escória no meio do mundo
dispara o tiro mortal
em que o vermelho da dor
era o sublime cântico da vida.

Sobre a autora: Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, resenhista e ensaísta. É Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Trabalha como professora na Secretaria de Estado de Educação (RJ) e tutora de ensino superior a distância na UFF. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: 40 poemas e Painel. Oferta é seu terceiro livro de poemas, pela Editora Scortecci (2014). Em 2016 publicou pela Penalux o livro de poesia Dormindo no verbo. Seu quinto livro de poesia, A serenidade do zero (Penalux, 2017), recebeu elogios de vários nomes importantes no cenário literário. A negra cor das palavras (Penlux, 2020) é o seu sexto e mais recente lançamento na área de poesia.
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Krishnamurti 08/03/2020

"A NEGRA COR DAS PALAVRAS" – DE ALEXANDRA VIEIRA DE ALMEIDA
Em 01/09/2017 escrevi uma resenha sobre o livro “Dormindo no verbo” de uma jovem escritora chamada Alexandra Vieira de Almeida: “Na medida em que avançamos na leitura, sentimos que algo lateja naquela poética a demonstrar que a criação literária não se dá pela livre e espontânea vontade de um sujeito, ela é sempre uma emergência, uma irrupção involuntária e arrebatadora. Aquilo que levou Clarice Lispector a escrever em “A descoberta do mundo”: ‘Não, não estou me referindo a procurar escrever bem: isso vem por si mesmo. Estou falando de procurar em si próprio a nebulosa que aos poucos se condensa, aos poucos se concretiza, aos poucos sobe à tona – até vir como num parto a primeira palavra que a exprima’.

A leitura de Alexandra Vieira de Almeida nos leva a fazer conexões com o pensamento de Gilles Deleuze (1925-1995), um filósofo que se diferencia da maioria dos filósofos da tradição do pensamento por manter vivo um diálogo com a literatura que vai se formando como um rizoma (sistema aberto onde os conceitos são relacionados a circunstâncias e não mais a essências), a florescer para todos os lados. Em termos de linguagem, seu valor está em falar de uma máquina abstrata da língua que revela a cada instante, um devir revolucionário dentro da própria língua, acabando com as dicotomias, fazendo o discurso direto banhar-se constantemente no discurso indireto, nos mostrando assim, que falar da linguagem é nos envolver em uma teia que vai se embaralhando nela mesma a nos arrastar para toda complexa malha que povoa o universo linguístico.

Este parece ser o convite que autora nos faz de aventurarmo-nos em uma viagem que se inicia para além da sintaxe. Sairmos dos sulcos costumeiros da linguagem e fazermos da língua, um elemento fundamentalmente expressivo no mundo. É entrando nessa máquina abstrata da língua e enlouquecendo com ela que se pode utilizar a linguagem para obedecer e fazer obedecer e não acreditar nela. Deleuze em seus textos incita-nos a fazer da linguagem um estilo de vida, onde seu abrigo, sua morada, somente passa a existir quando nos abrigamos nela de forma indireta. Esta a travessia que Alexandra assume com toda coragem, torcendo e destorcendo a linguagem, criando uma nova língua dentro da nossa língua, diria Proust, uma espécie de língua estrangeira, de algum modo. O regime semiótico se dá na linguagem criativa, embaralhada. Sabemos que o escritor ‘inspira-se’ no vivido, parte do seu eu, das suas observações e emoções, dos seus estados perceptivos e afetivos. Mas para ultrapassá-los, para adicionar outro tipo de percepções e sentimentos que excedem todas as vivências, para extrair do vivido inéditas sensações e dar-lhes uma vida própria, fazê-las viver a sua própria vida.”

Tempos depois de ter escrito os trechos acima, encontrei novo livro da autora: “A serenidade do zero”, e desta vez (09/10/2018), escrevi: “Duas ordens de ideias nos ocorrem ao cabo da leitura de uma obra como “A serenidade do zero” de Alexandra Vieira de Almeida. A primeira diz respeito à inspiração do fazer poético, e a segunda, de caráter mais prático ligado ao trabalho artístico pensado. É certo que cada poeta tem suas motivações individuais para o ato de produzir literatura. Entretanto a perspectiva do abandono à inspiração quanto a produção consciente e trabalho rigoroso da poeta são importantíssimos porque nessa confluência encontramos o texto poético na originalidade intrínseca de cada palavra, a mágica descoberta de seus sentidos, até alcançarmos a profundeza de significados que resultam na emoção e reflexão propiciadas pela poesia. Ideias e imagens inspiradas nada seriam sem o trabalho consciencioso da palavra, para que a concretude do texto poético seja viável.

“Deixar as palavras livres / fora das gaiolas inquietantes”.

A criação poética remete a uma pluralidade de sentidos de um mesmo vocábulo, para a experimentação de imagens, de ritmos, de sons. Todas essas combinações requerem conhecimento e o trabalho dedicado da autora. Uma artífice que rompe a barreira do óbvio, do literal e do real para criar imagens poéticas, para colocar poesia em sua criação artística. São essas imagens as responsáveis por dizer o que as palavras não dizem, por possibilitarem a fuga do lugar comum, para um espaço afinal privilegiado onde a palavra “pode ser”.

E me vejo aqui em Março de 2020 perplexo e feliz em reencontrar Alexandra Vieira de Almeida que é também professora, poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta, além de Doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a nos brindar com mais uma preciosidade que é este “A negra cor das palavras”. Li em alguma parte, que sobre a obra escreveram: “Por meio da poesia, o livro “A negra cor das palavras”, traz versos que destacam a temática social, procurando revelar, através da negritude, a potência da língua e da voz de uma raça que foi tão oprimida.” Sim, por certo há este enfoque também, mas não é só isto e Antônio Carlos Secchin, avisa na quarta capa da obra, que “Alexandra evita o panfletarismo”. Repetimos. Há mais, muito mais dentro do que ficou dito nas resenhas anteriores dos livros da autora e que constatamos com muita satisfação que a cada nova obra mais se depura. E dito isto está dito tudo.

Muito bem; não há necessidade de acréscimos quanto ao fazer literário de uma autora que sabe aliar imaginação, sentimento e sobretudo capacidade expressiva. Sim; porque ninguém duvide. Talento só não basta, é preciso o formão vigoroso do esforço próprio para fazer a Boa Literatura que lemos em “A negra cor das palavras”. Curto e grosso: querem ler Literatura brasileira contemporânea da mais alta qualidade? Vão lá no link abaixo, e comprem o livro! Um abraço desde a Bahia!

Livro: “A negra cor das palavras”, Poesia de Alexandra Vieira de Almeida, Editora Penalux, Guaratinguetá – SP. 2019, 102p – ISBN 978-85-5833-624-6.
Link para compra e pronta entrega: https://www.editorapenalux.com.br/loja/a-negra-cor-das-palavras
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