A ideologia alemã

A ideologia alemã Karl Marx
Friedrich Engels




Resenhas - A ideologia alemã


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Rangel 15/12/2009

A consciência social de se fazer revolução
A obra “A ideologia alemã: teses sobre Feuerbach” de Karl Marx e Friederich Engels, pela Editora Centauro, São Paulo, 2004, 119 p., menciona a respeito da revolução social que pode banir a idéia da superstição e religião na sociedade. O livro situa a Revolução Francesa como uma brincadeira de resíduos mesquinhos de uma tentativa de aglutinação das classes oprimidas na França, quando o terceiro estado era a maioria da população e resolveu subverter a ordem contra o primeiro e o segundo estados (a Igreja e a Nobreza). O espírito da putrescência e o espírito absoluto fizeram dos capitalistas industriais se lançarem sobre novas combinações da filosofia liberal. A concorrência se tornou a luta da mudança histórica, o que fez a crítica alemã apregoada por Hegel de que não se abandonou a filosofia, quando ocorreu a referida transformação. Strauss critica a religião que não é favorável ao progresso. O progresso assumiu representações teológicas, políticas, metafísicas, morais e jurídicas dos dominantes sobre a classe dominada e o culto deles para eles próprios pelo Direito do Estado. A categoria lógica da compreensão e a crítica das representações e declarações religiosas luta contra as ilusões da consciência. Mudar a consciência exige interpretar de outro modo tudo o que existe, e que por isso, deve-se reconhecer outra interpretação. O resultado da crítica filosófica conduz ao esclarecimento da história do Cristianismo e descobertas de importância histórica universal. A concepção materialista da história se deve a organização física dos seres humanos com a natureza; os homens começaram a produzir meios de vida material. E, conforme sua própria natureza, os homens dependem da natureza e das condições materiais de produção. A produção surgiu com o aumento da população e o intercâmbio entre indivíduos é condicionado pela produção. As relações se desenvolveram pelas forças produtivas, divisão do trabalho e intercâmbio, o que provocaram a separação da cidade e do campo, como depois separou o comércio da indústria. As formas de propriedade são: 1) a tribal (agricultura, caça, pesca – pelo patriarcalismo e escravatura); 2) a comunal; 3) a estatal antiga (união das tribos, a cidade por acordo ou conquista, e a continuidade da escravatura, o que origina a propriedade móvel e depois imóvel, e por fim, a propriedade privada e a camponesa; depois com esse modelo, surgiram os proletários); 4) feudal (estados, ordens sociais, do campo que se dispersa área, com territórios mais extensos, a constituição militar, a estrutura da propriedade fiduciária, senhores nobres e servos – camponeses; nas cidades, surgem as propriedades corporativas e os ofícios, trabalho conforme o indivíduo, depois vieram as corporações dos artesãos e outros, relações de produção, a reunião de territórios feudais que formaram o Reino). A essência da concepção materialista da história é de que os indivíduos de modo de produção nas relações sociais e políticas no processo de suas vidas é como determinados indivíduos agem e reagem realmente como produzem materialmente. As idéias nascem da consciência de atividade material e o intercâmbio na vida real. As condições da libertação real do homem são a autoconsciência, o pensamento das relações históricas e a importância da luta. O comunista é aquele que é o materialista prático e que deve revolucionar o mundo existente e não o que o Feuerbach apregoa, a respeito do comunista que utiliza somente da contemplação e sensação. Os homens devem ter condições de viver para fazerem sua própria história, através dos meios de produção e a produção conforme suas necessidades, com a devida ação de satisfação, reproduzirem-se pela família e pela relação social de cooperação. A divisão do trabalho é feita de repartição desigual de forma quantitativa e qualitativa, o que também desiguala os homens pela propriedade; o interesse comunitário deve assumir autonomia como Estado, separado dos indivíduos e como aspiração dos interesses da classe produtiva. O desenvolvimento das forças produtivas tem como premissa material do comunismo: o indivíduo histórico mundial no lugar dos índios locais, estes que são comunistas locais. O intercâmbio deveria ser sucumbido no caso. O comunismo não é um estado de coisas, mas um ideal pelo que a realidade terá de se regular. É, portanto, um movimento real que supere o estado das coisas. A sociedade civil deve restabelecer o verdadeiro lar e o teatro da história. Das famílias simples e compostas que surgem o sistema tribal. A concepção materialista da história é uma sucessão de diversas gerações que explora os materiais, os capitais e as forças de produção. Por isso que o mercado mundial do estado das coisas deve ser derrubado pela revolução comunista. Assim, percebe-se que há a falta de fundamento da concepção idealista da filosofia alemã pós-hegeliana. Falta uma crítica adicional de Feuerbach na concepção idealista da história. A classe dominante e sua consciência dominante também dominam nas idéias de seu tempo, o que ocasiona existir as lutas de classes e grupos. E, por isso, que as idéias devem ser separadas por razões empíricas. Há concorrência de indivíduos e formação de classes, que desenvolvem a contradição entre indivíduos e condições de vida. A burguesia é uma comunidade ilusória e a unidade dos indivíduos no comunismo é real. O papel da violência na história se dá para a conquista pela escravatura, pelos bárbaros e conquistadores. As condições e as conseqüências da propriedade privada como necessidade fizeram surgir a apropriação dos instrumentos de produção e o processo de desenvolvimento do homem. A relação de Estado e de Direito fez a propriedade se tornar livre. A consciência social tendo a visão da realidade deve se autonomizar e ocupar profissionalmente pela divisão do trabalho. A religião se tornou algo de consciência da transcendência. A idéia central do livro é que os autores criticam a forma de concepção comunista de Feuerbach e se posicionam que o comunismo acontece através da consciência social e da revolução para se apropriar dos meios, modos, força e instrumentos de produção. Os objetivos são bem claros de organização lógica e consistente. Divide-se o livro em capítulos e subcapítulos. A obra é de grande importância para a compreensão do comunismo como socialismo científico, com evidências científicas e históricas. As exemplificações são tanto genéricas como específicas. O público-alvo é o meio acadêmico e os trabalhadores organizados. O tom usado é de forma discursal, envolvente e formal. Há vários pontos fortes na crítica efetuada a Feuerbach e citações razoáveis para sustentação argumentativa. Os resultados e a conclusão dos autores é bem forte em relação de a necessidade de se fazer a revolução comunista. O texto é ilustrativo e o estilo dos autores é teórico-revolucionário.

Rangel 10/08/2011minha estante
Avaliar sem justificar não é válido.




Patrick 24/01/2017

Materialismo Histórico-Dialético
A resenha abaixo é um trabalho feito por mim para a disciplina "Teoria Social e Organizações" da Universidade Federal do Paraná. Logo, o objetivo principal é expor os conceitos.

"A presente resenha tem por objetivo explanar aspectos pontuais presentes na obra A Ideologia Alemã, escrita majoritariamente por Karl Marx entre os anos de 1845 e 1846. O livro consiste em uma coletânea de diversos manuscritos do sociólogo, publicados após sua morte e organizados por Friedrich Engels. Embora existam várias edições na língua portuguesa, é importante salientar que essa análise da obra A Ideologia Alemã foi embasada na edição HUCITEC, de 1993.

O livro pode ser dividido em três partes fundamentais: A - A ideologia em geral e em particular a ideologia alemã, B - A base real da ideologia e C – Comunismo. Há ainda outras divisões presentes nesses capítulos, além de um prefácio, uma breve introdução e, ao menos nessa edição, alguns anexos como anotações e partes suprimidas do texto original.

Logo no início da obra, Marx esclarece que um dos principais objetivos de sua argumentação é debater os conceitos defendidos pelo filósofo Hegel e seus discípulos, os jovens neo-hegelianos. Para o autor, o idealismo, que está diretamente relacionado ao mundo das representações e evoca, inclusive, o “mundo inteligível” de Platão, apresenta-se como uma concepção falha, por não estabelecer um vínculo entre as teorias e o mundo material.

O idealismo de Hegel pressupõe que diversos pilares da sociedade, tais como política, economia, direito e moral, estão submetidos à esfera das representações, ou seja, são frutos da consciência humana. Essa teoria é veementemente debatida por Marx em A Ideologia Alemã. “Eles, os criadores, renderam-se às suas próprias criações” (MARX, 1993, p.17).

Karl Marx argumenta que os homens diferem dos animais por produzirem os seus meios de vida. Além disso, o autor afirma que o trabalho real corresponde à essência do ser humano. Essa concepção é bastante clara no seguinte trecho do livro: “O que os indivíduos são, portanto, depende das condições materiais de produção” (MARX, 1993, p.28). É importante ressaltar que “trabalho” é considerado toda ação humana que visa produzir algo a partir da natureza para criar os meios de vida do indivíduo, não sendo necessariamente sinônimo de “emprego”.

Um dos principais conceitos que Marx estabelece em sua obra é o “Verkehr”, traduzido como intercâmbio. Esse vocábulo diz respeito às relações materiais e espirituais existentes entre indivíduos, grupos sociais e até mesmo nações. Segundo o sociólogo, o intercâmbio fez-se presente em diversos momentos da história, nas diferentes ocasiões de divisão do trabalho, ou seja, distintas formas de propriedade, que são explicados posteriormente no livro.

Segundo o autor, é possível discernir as formas de propriedade em quatro tipos. A primeira forma é tribal, momento histórico em que a propriedade é coletiva e a divisão do trabalho é quase inexistente fora do âmbito familiar. Depois, Marx esclarece a propriedade comunal ou estatal, comum na Antiguidade, em que a propriedade privada incluía os escravos e a divisão do trabalho é mais evidente. A terceira forma de propriedade é a feudal ou estamental, momento no qual o feudalismo engendrou novas relações de trabalho entre nobreza e servos. Essa última forma de propriedade fomentou diversas das observações de Marx.

Após a formação da sociedade feudal, houve a necessidade de se estabelecer relações comerciais e de troca – intercâmbio – entre os indivíduos. Dessa forma, a ascensão da classe burguesa tornou-se possível, e a propriedade de terras, outrora pertencente à classe nobre, passou a ser detida em grande parte pelos burgueses na modernidade. Assim, Marx esclarece que a nova propriedade, a chamada corporativa, impõe diversas alterações na sociedade.

A primeira delas é concernente ao auge da divisão do trabalho. Esse fato, a despeito de desenvolver as forças produtivas, torna o processo de produção algo praticamente insuportável para o trabalhador. Nesse sentido, Marx argumenta que as condições de trabalho relativamente abrangentes e agradáveis presentes, por exemplo, nas corporações de ofício da Idade Média extinguem-se. “No interior da divisão social do trabalho, as relações sociais adquirem uma existência autônoma” (MARX, 1993, p.119). Com isso, o autor infere que, na modernidade, o trabalhador não mais se reconhece no trabalho que realiza.

Outro aspecto que sofreu alteração diz respeito à maior competitividade presente nos meios de produção. O aumento da manufatura tornou o comércio algo vinculado à política e ao intercâmbio internacional. Desse modo, a influência do Estado na propriedade privada foi reduzida drasticamente, ao passo que a interdependência entre os indivíduos no cenário trabalhista aumentou em grandes proporções.

Contudo, Marx também relata diversos impactos da propriedade privada corporativa que transcendem o ambiente trabalhista. Para ele, a classe dominante impõe as suas ideias ao restante da sociedade. Em outras palavras, as ideias que os membros das classes não dominantes possuem são externas aos indivíduos. Assim, o interesse coletivo tem forma autônoma, distando muito dos interesses individuais.

Karl Marx comenta acerca do pensador Feuerbach. Embora este, ao contrário de Hegel, considere importante o mundo sensível e material, o autor relata que as ideias continuam demasiadamente restritas. Por exemplo, na análise antropológica, Feuerbach analisa o homem no seu conceito abstrato e imaterial, pois desconsidera diversas das relações sociais sob as quais o indivíduo está condicionado. Além disso, Marx estabelece uma crítica à passividade do filósofo, que se limita apenas à contemplação do mundo sensível. “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; mas o que importa é transformá-lo” (MARX, 1993, p.14).

Nessa perspectiva, o autor propõe mudanças de grandes proporções, pois constata mazelas oriundas da nova forma de propriedade. “Através da concorrência universal, [a grande indústria] obrigou todos os indivíduos ao mais intenso emprego de suas energias. Destruiu, onde foi possível, a ideologia, a religião, a moral etc.” (MARX, 1993, p.94). O sociólogo defende a existência de uma massa revolucionária que se revolte contra o sistema de produção de vida existente, rumo ao comunismo.

Na última parte de A Ideologia Alemã, Karl Marx esclarece que o comunismo não é uma mera representação (como defenderia Hegel), mas sim uma sociedade utópica e alcançável por intermédio da revolução. Portanto, a revolução tem o fito de alterar o panorama em que apenas a classe dominante é a definidora das ideias das demais classes, de modo a estabelecer uma sociedade coletivista. “Apenas na coletividade é que cada indivíduo encontra os meios de desenvolver suas capacidades em todos os sentidos; somente na coletividade, portanto, torna-se possível a liberdade pessoal.” (MARX, 1993, p.116-117).

Em vista do apresentado, é evidente que Karl Marx estabeleceu uma forma de observar a sociedade distinta dos demais pensadores até aquele momento. Hegel priorizou um suposto mundo ideal, mas intangível. Feuerbach realizou a análise e a observação do mundo sensível em detrimento de interferências ou modificações daquilo que contemplava. Durkheim observou a divisão do trabalho como responsável pela coesão social. Karl Marx, porém, propõe uma revolução, rumo ao comunismo, de modo que o trabalhador consiga se identificar com sua atividade e consiga também conquistar a liberdade individual através do coletivismo. Sem dúvidas, A Ideologia Alemã é uma obra que merece ser analisada com afinco."
Ikaro de Paula 16/10/2018minha estante
Não entendi então pq vc deu nota 1/5...




Marc 29/04/2015

A Ideologia Alemã é provavelmente o texto capital do marxismo. Mesmo não havendo consenso sobre os textos que compõem o livro, o essencial é mantido nas diversas edições. Marx e Engels pretendiam alterar radicalmente o curso da história da filosofia e do pensamento. A famosa frase, nos fragmentos sobre Feuerbach é não apenas um ponto de partida para seu pensamento, mas também um desafio a todos que viriam depois deles: é preciso modificar o mundo não mais apenas pensá-lo.

Toda a filosofia, inclusive os hegelianos de seu tempo, trabalhava com uma concepção equivocada da realidade. Para todos esses autores o homem, enquanto ser pensante, com desejos e afetos era o responsável pela história. Mas o fato primordial, esquecido por todos é que a história é um constante avanço, uma modificação constante de tudo. Não existe esse homem, entendido como a plenitude dos ideais burgueses dominantes. Esse conceito, que a todos os filósofos parece tão atemporal, tão verdadeiro, é apenas uma construção histórica e como tal um dia será superada, como no passado superou os valores dominantes de outras épocas. É importante ressaltar a distinção no pensamento desses autores: os homens fazem sua história, como uma sociedade que caminha para uma direção e com isso, com as mudanças nas forças produtivas,nascem novos modos de pensar, novas consciências; diferentemente dos autores que critica, Marx e Engels entendem que os homens fazem sua história, mas não individualmente, e sim como sociedade. E, dessa forma, os indivíduos personificam os valores que a sociedade criou coletivamente.

Aqui vemos pela primeira vez a concepção de que são as forças produtivas, ou seja, tudo que os homens, enquanto sociedade e não indivíduos, as responsáveis pela criação de valores e modos de vida. Quer dizer, quando a burguesia iniciou sua luta pelo poder e destruição da nobreza, ela trouxe novos valores, uma nova concepção de vida, da realidade, que se tornou a verdade dominante quando conseguiu se estabelecer. Todos os valores que nós hoje supomos tão verdadeiros e plenos são apenas a materialização do domínio ideológico de uma classe social. Ora, se a burguesia chegou ao poder e recontou a história sob seu ponto de vista, porque outras classes não poderão também fazê-lo?

E o sistema produtivo criado pela burguesia trouxe desigualdade e exploração entre os homens. Criou miséria e violência. Hoje a violência de ser explorada todos os dias pelo capital é vista como dignidade. A maneira que a burguesia criou para justificar a apropriação da força de trabalho alheia, submetendo as classes pobres à ironia de que o trabalho faz com que se alcance uma posição de destaque na vida, que se conquiste sonhos. Ela alimenta a mentira de que todos que são ricos o são por fruto de seu trabalho, e mascara que na verdade é devido à exploração do trabalho alheio.

Essa contraposição ao idealismo, entendido como a possibilidade dos homens alterarem sua existência apenas com base no desejo, como se bastasse o ato de procurar entender o mundo para se tornar consciente da realidade, estabelece que antes de tudo precisamos compreender a relação entre as forças de produção de uma sociedade, ou seja, como ela lida com o trabalho, e quais os valores que ela produz para se “justificar”. “As ideias dominantes não são nada mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, são as relações materiais dominantes apreendidas como ideias; portanto, são a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante, são as ideias de sua dominação. Os indivíduos que compõem a classe dominante possuem, entre outras coisas, também consciência e, por isso, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o âmbito de uma época histórica, é evidente que eles o fazem em toda a sua extensão, portanto, entre outras coisas, que eles dominam também como pensadores, como produtores de ideias, que regulam a produção e a distribuição das ideias de seu tempo; e por conseguinte, que suas ideias são as ideias dominantes da época.” (p. 47).

Um ponto bastante importante, me parece, é a maneira como esse procedimento se dá: em primeiro lugar os ideólogos separam a consciência, ou seja, os ideais da vida material, como se eles tivessem existência autônoma e não fossem afetados pelas transformações da história, os valores deixam de ser vistos como originados em uma classe e se tornam universais; em seguida, se estabelece uma conexão mística entre essas ideias, quer dizer, completamente destacadas da realidade objetiva, as ideias passam a ser vistas como originando outras e assim por diante; por fim, já com os valores totalmente isolados da vida material, um grupo passa a ser portador de uma sabedoria exclusiva, passa a ser visto como o responsável por essa transmissão. Esses três estágios se completam e conseguem construir a noção de que a consciência e a sabedoria são assunto de um grupo fechado e exclusivo, e que por essa razão não é acessível a todos. Está formado o domínio ideológico de uma classe sobre todas as demais e, assim, ela vai disseminar seus valores por toda a sociedade, valores que dissimulam seu desejo de domínio.

Outro ponto importante, e já entrando no aspecto das transformações históricas que ajudaram a construir essa realidade que conhecemos é a oposição entre campo e cidade. Esta foi essencial ao desenvolvimento do capitalismo porque além de concentrar a população em um pequeno território (o que foi benéfico para as imensas fábricas que surgiam e precisavam de mão de obra), ajudou o capital a se libertar da questão da terra. Na cidade, ao contrário do campo, não é necessário que o rico tenha a propriedade da terra. Ele se torna poderoso e rico devido à quantidade de trocas que consegue fazer, devido à apropriação do trabalho de muitos, e não mais a títulos de propriedade. Além disso, a solidão do campo, os espaços vazios, as distâncias, tudo isso atrapalharia sobremaneira a distribuição da produção. Foi com as cidades que o capitalismo pôde se desenvolver mais rapidamente e de modo mais forte. Ou seja, as cidades são uma forma de organização humana que está intimamente ligada ao surgimento e desenvolvimento do capitalismo.

Gostaria agora de problematizar um pouco esse texto. Para isso vou recorrer às críticas que Eric Voegelin, um filósofo ainda não muito conhecido em nosso país, faz ao marxismo. Vou me limitar ao que é dito sobre esse livro especificamente, porque a crítica é bastante ampla.

Precisamos ter em mente as teses sobre Feuerbach, que são provavelmente o trecho mais usado desse livro e que mais influência teve ao longo dos anos. Voegelin explica que para entendermos o projeto marxiano é preciso alterar um pouco a ordem de leitura: 11, 6 , 7, 4, 8, 3, 1, 9, 10. A principal de todas é mesmo a 11, que estabelece que devemos alterar o mundo e não mais apenas pensá-lo. Em seguida, a sexta trata de Feuerbach e da religião, onde devemos entender que o erro do filósofo foi não ver que os homens são fruto das relações sociais (7) e não de uma consciência isolada. Depois, na tese 4, estabelece que o mistério da sagrada família é a família real, ou seja, que não se pode analisar o mundo a partir dos valores ideológicos, como Feuerbach faria. Tese 8: a vida é prática e isso esclarece todos os mistérios da existência humana. Na tese 3 vemos que as mudanças esperadas só poderão acontecer com o desenvolvimento da prática mesmo, ou, segundo o texto: educar os educadores, pois esses ainda pensam com os valores antigos. Note-se o leque de possibilidades que isso abre, como renegar todo o conhecimento adquirido em nome da revolução. Mas vemos que esse caminho de leitura mostra que o projeto marxiano começa num ponto distante e vai se aprofundando, falando da teoria, da educação e da prática revolucionária. Por fim a tese 1, que diz que Feuerbach ignora o sentido da ação prática e a concebe como desvio da teoria, sem contar que dessa forma mostra que os homens podem ser mudados de acordo com a prática revolucionária, ou seja, para criar uma realidade, basta atuar sobre ela e modificá-la, os homens esquecerão seus valores e viverão de acordo com o novo sistema.

No final vemos que o trajeto de Marx e Engels é destruir a primazia do pensamento como fundamento da realidade e mostrar que essa realidade pode ser alterada e revalorizada de acordo com a prática revolucionária. É o caminho para criar o homem socialista. E esse novo homem pode ignorar completamente milênios de história humana, ignorar valores como os da religião, e tudo o mais. Basta que a revolução estabeleça um novo modo de pensar, que se eduque os educadores e pronto, fim da filosofia e do mundo como o conhecemos.

Para Voegelin, Marx não consegue disfarçar sua revolta contra o pensamento e uma das questões mais importantes de todas, herdada de Aristóteles: qual o fundamento da existência? Isso foge um pouco do livro tratado aqui, mas a resposta do filósofo de Estagira é que o homem não pode ser causa de si mesmo. E Marx ao estabelecer que o homem existe apenas como materialização, destruindo a questão da consciência como surgida de outros fatores que não os materiais, joga essa questão para o esquecimento. Isso sem contar, o que é muito importante para qualquer um que decida seguir no caminho da filosofia, que Marx jamais explica claramente o quer dizer com forças produtivas, materialismo, etc. Falta estabelecer criticamente seu vocabulário... Além disso, Voegelin lembra que ao lidar com a dialética hegeliana, Marx cria uma identificação completa entre o real e o material, o que não era bem verdade para esse filósofo. Esses temas mereceriam ser mais trabalhados, mas nesse espaço não será possível.

Por fim quero falar sobre a edição mais recente do livro no país, a da editora Boitempo. É muito boa, feita com muito cuidado,mas não posso deixar de destacar, negativamente, a apresentação de Emir Sader. Ele começa falando que a filosofia de Aristóteles ensinou que a contradição era sinal de erro e que Hegel ensina justamente o contrário, através do conceito de dialética. Para o filósofo alemão a realidade seria contraditória, teria esse elemento em seu cerne e qualquer explicação verdadeira sobre ela, precisaria levar isso em conta. Ou seja, a contradição não seria mais expressão de erro e sim da realidade. Marx, herdando esse conceito, acrescenta mais elementos, como a necessidade de explicar porque o real nos aparece como uma cisão entre sujeito e objeto. Se pensarmos bem, ao definir que tudo é estabelecido historicamente, nossos autores estão justamente mostrando que a consciência e modo de ver a realidade podem ser objeto, que essa cisão não é muito verdadeira e que o sujeito é ele mesmo fruto desse processo.

Acontece que Emir Sader ignora que a lógica de que trata no começo e a interpretação hegeliana da realidade não estão no mesmo nível. Uma é um princípio de explanação daquilo que se apreendeu da realidade e para que faça algum sentido, A precisa mesmo ser igual A e diferente de B. Caso contrário, não há como existir possibilidade de pensamento, porque qualquer coisa poderia ser qualquer coisa. É nesse sentido que a contradição não é bem vinda para Aristóteles. Já Hegel usa a contradição como uma interpretação da realidade. Ele está dizendo que a realidade é de determinada maneira. Ora, se Hegel abandonasse o princípio da não contradição no momento em que fosse explicar sua dialética é bem possível que muitos de nós até acreditassem que o entendem perfeitamente...

É lamentável que um professor tão conceituado cometa um equívoco dessa natureza, que confunda um princípio de explanação das ideias com as ideias mesmas. Creio poder localizar a causa na noção mesma oriunda do marxismo que prefere analisar um discurso pela sua posição ideológica, por aquilo que pretende provocar na audiência, do que por seu conteúdo, antes de tudo. Assim, é mais importante denunciar que um discurso erra em seu método, mesmo quando não é um método de apreensão da realidade, como é o caso aqui, do que em seu sentido. Que as novas edições corrijam esse lapso...
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Janos.Biro 17/11/2017

A ideologia alemã
O objetivo de Marx em A ideologia alemã é criticar os jovens hegelianos e desligar-se deles por completo. Para Marx, o sistema idealista hegeliano foi criticado por discípulos tardios de Hegel, representados por Feuerbach, Bruno Bauer e Max Stirner, mas seu postulado básico não foi negado. Isto é, eles aceitaram a crença de que o mundo real é produto do mundo ideal. Se as ideias determinam o mundo material e as relações reais dos homens, bastava livrar-se do domínio das ideias e de tudo que a história representou até então. A ideologia alemã teria reduzido a história dos homens a uma concepção falsa ou a uma mera abstração. As condições reais da dominação, porém, permaneceram intocadas.

Rejeitando a crença hegeliana, Marx procura afirmar que os homens não organizaram suas relações em função das representações que faziam. Não foram as representações de Deus, por exemplo, que alienaram o homem, como é o caso na crítica feuerbachiana da religião. O homem não foi dominado pelo seu próprio mundo imaginário, mas pelas relações reais e históricas. Por isso, revoltar-se contra o domínio do mundo das ideias e trocar as ilusões que estariam determinando a vida humana pela própria vida real e material seria uma atitude inocente e pueril, pois o domínio sempre partiu do mundo real, e são as próprias condições reais e materiais de dominação que precisam ser mudadas. Toda essa suposta revolução filosófica que os jovens hegelianos estavam promovendo ao derrubar o sistema hegeliano não seria nada senão charlatanice filosófica de cunho burguês.

Marx denuncia o comprometimento ideológico burguês desses filósofos alemães ao comparar a “revolução filosófica” dos jovens hegelianos a uma exploração industrial dos restos mortais do espírito absoluto e uma disputa comercial para vender os produtos derivados dessa indústria no mercado intelectual alemão. Ele compara a ilusão desses filósofos com a de um homem que julga poder se salvar de um afogamento livrando-se da ideia de gravidade, denunciando que as condições reais do homem só podem ser mudadas a partir delas mesmas. Para fazer isso, era preciso partir de uma perspectiva mais ampla do que a alemã. Marx coloca-se de fora da perspectiva ideológica alemã para daí poder criticá-la. Seu ponto de vista seria o da realidade francesa e mais concretamente da inglesa.

O sistema filosófico que teria dominado a consciência alemã seria um fruto do sistema hegeliano. Os jovens hegelianos teriam criticado Hegel sem deixar de depender de Hegel, ou seja, sem criticar o conjunto do sistema hegeliano por completo. Eles teriam criticado apenas aspectos isolados. Suas críticas teriam se limitado à crítica das representações religiosas, como se o cerne da mudança consistisse em livrar-se da religião, vista como raiz de todo mal justamente por ser a fonte das representações que determinavam as relações reais dos homens. Tudo que foi compreendido pelos velhos hegelianos foi pelo mesmo motivo criticado pelos jovens hegelianos, que aceitaram assim a autonomia dessas representações ideais, e ao mesmo tempo consideraram-se libertadores da humanidade por combatê-las. Tratava-se de uma mudança de consciência: a consciência religiosa deveria ser substituída pela consciência humana, a consciência crítica ou a consciência individual.

Ao dizer que o homem estava sob o domínio de uma ideologia, os jovens hegelianos não fizeram nada senão combaterem unicamente no reino ideológico ao invés de combater no mundo real. Para Marx, nenhum deles se perguntou sobre a relação entre a sua crítica e o seu meio material. Marx define suas bases como sendo as condições materiais de existência, e não os dogmas. Essas bases são engendradas pela própria ação dos indivíduos reais, e por isso são verificáveis empiricamente. O homem se distingue dos animais exatamente por produzir seus próprios meios de existência. O que os homens são coincide com a sua produção, tanto com o que é produzido quanto com o modo de produção. Nosso atual modo vida só se tornou possível porque em primeiro lugar houve uma condição material: o aumento da população. Esta provocou o surgimento de novas necessidades: a intensificação das trocas comerciais, a divisão do trabalho e a separação entre cidade e campo.

As formas de propriedade são determinadas pelas técnicas de produção em cada estágio do desenvolvimento da civilização. Assim, quando passamos da caça e coleta para o pastoreio e a agricultura, por exemplo, outra estrutura social se forma a partir dessas novas relações de produção. É o aumento da população e das necessidades que desenvolve o terreno para a escravidão, para o comércio e para a guerra. A forma de propriedade deixa de ser tribal e passa a ser comunal, devido à reunião de várias tribos em uma única cidade. Neste ponto, Marx questiona se a força motriz da história foi o contrato social ou a conquista violenta. Mas o mais importante é que a estrutura social e o Estado surgem de um processo material, e não de representações. As condições e limites dessas coisas são determinados pela materialidade e não pela vontade. Podemos entender o conceito de “real” em Marx como aquilo que independe de nossa vontade, e por isso se distingue do que é ideal.

Para Marx, as ideias seriam as expressões da atividade material dos homens. “O ser dos homens é o seu processo de vida real”, e se a ideologia inverteu isso, dizendo que o processo de vida real foi regido pela “essência”, essa inversão da realidade é também resultado de um processo histórico. É só na atividade real que se examina a ideologia. Logo, a moral, a religião e a metafísica não possuem autonomia e nem sequer história. Elas não se desenvolvem por si mesmas, mas são apenas produtos do desenvolvimento material do homem. Para Marx, este modo de considerar as coisas parte de premissas reais, que são os homens em sua atividade empiricamente visível. “É aí que termina a especulação, é na vida real que começa portanto a ciência real, positiva, a análise da atividade prática. Do processo, do desenvolvimento prático dos homens”. Percebe-se aí que o conceito fundamental para a crítica de Marx é o de “realidade”. Ele julga ter acesso a essa realidade ao analisá-la na sua dinamicidade, no seu movimento, na ação empírica e histórica dos homens, o que está indicado nos termos “atividade prática”, “processo” e “desenvolvimento prático”. Está implícita aí a concepção de progresso cumulativo de eventos históricos, ainda que dialético. Para questionar Marx, é preciso reavaliar suas premissas centrais: o acesso imediato à realidade concreta.

Para Marx, não é possível conceber que as mudanças nas concepções filosóficas de uma época possam determinar por conta própria uma mudança nas condições “reais” da sociedade, justamente porque a realidade é aquilo que independe da filosofia. A história real é a única realmente autônoma, já que segue seu curso independente do que se pense sobre ela. O primeiro fato histórico é a produção dos meios de subsistência, pois a base da vida humana é o que se come e bebe. Nesse ponto, Marx ainda concorda com Feuerbach. A diferença é que Marx toma isso como um fato histórico, enquanto acusa Feuerbach de não ter uma base material para a história. A história dos ideólogos é abstrata, e suas bases não se encontram na história, mas em conceitos tais como o de “pré-história”, sobre o qual se pode especular sem limites.

O homem produz sua própria vida pelo trabalho e a dos outros pela procriação. Até mesmo a primeira relação social nasce também de uma condição material: a família. A produção de uma teoria que entra em contradição com as relações sociais existentes só se torna possível porque essas relações entraram em contradição com a força produtiva existente, na divisão entre o trabalho material e o trabalho intelectual. A divisão do trabalho implica em todas as contradições, separando a sociedade em famílias desiguais. A mulher e os filhos são as primeiras formas de propriedade do homem, numa espécie de escravidão familiar. A divisão de trabalho implica também na divisão entre o interesse individual e coletivo. É a divisão de interesses que torna a ação do homem em força estranha a ele mesmo, à qual ele se opõe. A classe que alcança o poder político apresenta seu próprio interesse como interesse geral. Essa universalidade é apenas uma forma ilusória da coletividade. Este seria um indicativo da “alienação”, termo que Marx trabalhou melhor em obras posteriores.

Foram condições práticas, e não ideias, que colocaram os homens na história universal. Os homens se encontram por isso em circunstâncias que podem ser mudadas pela própria prática. O fim da propriedade privada, por exemplo, determinaria o fim do estranhamento do homem em relação ao seu próprio produto. O modo de produção comunista não seria um ideal pelo qual a realidade deveria se guiar, mas um movimento real que supera o estado atual das coisas. A sociedade civil foi o verdadeiro palco da história. Ela “compreende o conjunto das relações materiais dos indivíduos dentro de um estágio determinado de desenvolvimento das forças produtivas”. Por isso, é somente a partir de si mesma que uma dada condição social pode ser superada. Para Marx, não há saída da civilização, nós podemos no máximo revolucionar seu atual estágio.

O que se chamava de Espírito universal se revela no mercado mundial. Na perspectiva comunista, a libertação individual se realizará na transformação da história em história universal da produção da consciência. A cooperação dos indivíduos em escala histórico-mundial será consciente e não imposta ou estranha. Será dominada pela ação recíproca dos homens entre si. Pois os indivíduos criam uns aos outros, no sentido físico e moral, mas não no sentido do “self made man”. Os idealismos se derrubam com o fim das relações sociais concretas que os sustentam. O homem é produto e produtor do meio. A revolução não será apenas contra condições particulares da sociedade existente, mas também contra o conjunto da atividade que constitui sua própria base.

Os ideólogos recusavam a história dos outros povos e afirmavam a hegemonia da Alemanha proclamando a hegemonia da teoria. Quando falam do homem, falam na verdade do alemão. Marx fala dos homens históricos reais, e nesse sentido fala de todos. O mundo sensível é um produto histórico cumulativo em função das mudanças nas necessidades. Neste sentido, não há separação entre homem e natureza. O homem sempre fez parte da natureza e a história sempre foi natural. Mesmo as ciências da natureza nada seriam sem o comércio e a indústria. Não há natureza fora da história do homem. O homem não é um mero objeto sensível, é uma atividade sensível. O mundo sensível é a soma da atividade sensível dos indivíduos. Para Feuerbach a história e o materialismo estavam separados. Marx introduz a noção de materialismo histórico: a história é a sucessão de gerações que exploram os materiais, os capitais e as forças produtivas transmitidas pelas gerações anteriores, o que lembra a teoria darwinista. Há uma continuidade ainda que as circunstâncias se modifiquem. A ideologia, porém, dá à história passada a finalidade de gerar a história presente.

“Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes”. Eis aí um esboço da ideia de que a superestrutura (poder espiritual dominante) é determinada pela infra-estrutura (poder materialmente dominante). Dentro da classe dominante pode haver divisão entre trabalho intelectual e trabalho material, que pode até gerar conflito quanto à teoria, mas não quanto à prática. A existência de ideias revolucionárias pressupõe a existência de uma classe revolucionária. Em cada época, se acreditou no que essa mesma época disse de si mesma. Agora, diria Marx, trata-se de revolucionar as condições existentes, e não as ideias. Enfim, não são as ideias revolucionárias que mudam as condições sociais, mas as práticas das quais essas ideias são apenas as expressões.

A epistemologia marxista é materialista, histórica e dialética. Sua ciência parte do concreto e não visa uma produção teórica de conceitos, mas um conhecimento prático. Ele encerra a história das ciências naturais e humanas dentro da ciência da história. O método histórico-dialético seria o mais correto porque a realidade seria dialética.

As questões que poderíamos fazer são: O abstrato, em última instância, é produto do concreto? Devemos tomar o que é chamado de “concreto” como base do conhecimento? A distinção entre abstrato e concreto, seja ela dicotômica ou dialética, não é, em si, conceitual? A realidade é dialética, ou seria a dialética somente um modo de organizar nossa percepção da história em termos de movimento processual? Enfim, temos um acesso direto à realidade concreta? Se não temos, como podemos afirmar que o método histórico-dialético é o mais correto? Essas seriam as questões básicas a serem respondidas antes de se aceitar ou rejeitar a perspectiva marxista.

site: http://www.janosbiro.com.br/post/111479626448/a-ideologia-alem%C3%A3
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Inlectus 29/05/2009

É um lado.
Escrito como foi, com uma convicção política, de fato torna-se uma leitura muito esclarecedora, sobre duas mentes que acreditavam naquilo que defendiam.
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Alexandre.Santos 04/08/2018

Tradução Ruim
Trata-se apenas da primeira crítica que compõe a totalidade da Ideologia Alemã, mais especificamente, a crítica à Fouerbach. Apresenta sérios problemas de tradução. Não recomendo.
Eudes Baima 15/09/2018minha estante
Você está enganado. A edição da Civilização é completa. E a tradução de Marcelo Backs, profissional experimentado na obra de Marx e Engels, é boa.




Denis 23/10/2018

A ideologia marxista
Interessante obra para se conhecer o início do historicismo de Marx, assim como do socialismo científico, ou seja, o marxismo. Marx demonstra como até então (cerca de 1870), a história só era estudada a partir da ideologia da classe dominante, mas não a partir da realidade das pessoas em seu dia-a-dia; ou seja, para Marx, a História acontece e é feita a partir do chão de fábrica, dos afazeres das pessoas, da práxis. Assim, o mote do livro é contrapor a ideologia/filosofia e o materialismo que, conforme Marx, é a ciência que estuda a história a partir das ações (práxis) das pessoas reais, de carne e osso, ou seja, de baixo para cima. A ideologia é a filosofia no campo das ideias, impostas de cima para baixo e, destarte, desvinculada da verdade do dia-a-dia do homem:

"É onde termina a especulação, isto é, na vida real, que começa a ciência real, positiva, a expressão da atividade prática, do processo do desenvolvimento prático dos homens. As frases vazias sobre a consciência se encerram, e um saber real passa a ocupar seu lugar. A filosofia autônoma perde seu meio de existência, quando se expõe a realidade. Em seu lugar pode aparecer, eventualmente, um resumo dos resultados mais gerais que se deixam abstrair da consideração do desenvolvimento histórico dos homens."

No prefácio, os autores criticam Hegel: "Hegel tornou pleno o idealismo positivo. Para ele, não apenas o mundo material tinha-se transformado em um mundo das ideias e toda a história, em uma história das ideias. Ele não se limita a registrar as coisas do pensamento, mas procura também expor o ato de produção. ... Todos os críticos filosóficos alemães dizem que os homens reais têm sido dominados e determinados até agora por ideias, representações e conceitos, e que o mundo real é um produto do mundo ideal." Interessante lembrar Mises, que cunhou que "Ideias, e somente ideias, podem iluminar a escuridão.

Ora, em 1870 os autores contrapõem o materialismo e o idealismo, mas 150 anos depois vemos que, o materialismo foi a ideia que fomentou o comunismo, este derrotado pela própria História. Gramsci percebeu o poder das ideias e, através do marxismo cultural, fez que as ideias socialistas moldassem as gerações através, justamente, do plantio de ideias na educação dos jovens e na produção de cultura. Gramsci prova que Marx & Engels estavam errados.

Sobre alguns conceitos tratados no livro, vemos a origem de certas ações do comunismo; vejamos sobre a divisão do trabalho:

"Por isso, desde o momento em que o trabalho começa a ser dividido, cada um dispõe de uma esfera de atividade exclusiva e determinada, que lhe é imposta e da qual não pode sair; o homem é caçador, pescador, pastor ou crítico crítico, e aí permanecerá caso não queira perder seus meios de sobrevivência - já na sociedade comunista, onde o indivíduo não tem uma única atividade, mas pode aprimorar-se no ramo que o satisfaça, a produção geral é regulada pela que me dá a possibilidade de hoje fazer determinada coisa, amanhã outra, caçar pela manhã, pescar à tarde, criar animais ao anoitecer, criticar depois do jantar, segundo meu desejo, sem jamais me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico."

Ou seja, a raiz da ineficiência e a prova que o comunismo leva ao regresso, e não ao progresso podem ser identificados nessas palavras. Ora, se todo mundo fizer só o que quiser, uma hora a vadiagem e a falta de víveres se espalhará. A criticada divisão do trabalho, a especialização das pessoas em trabalhar em somente uma coisa, o taylorismo, o fordismo, o recente toyotismo, enfim, toda essa coisa de divisão do trabalho que trouxe o progresso, eliminou a pobreza e aumentou o acesso das pessoas a vários produtos.

Também há bastante crítica à burguesia:

"Por isso, cada nova classe que ocupa o lugar da que dominava anteriormente vê-se obrigada, para atingir seus fins, a apresentar seus interesses como sendo o interesse comum de todos os membros da sociedade; ou seja, para expressar isso em termos ideais; é obrigada a dar às suas ideias a forma de universalidade, a apresentá-la como as únicas racionais e universalmente legítimas."

Veja bem, ao criticar a ascensão da burguesia contra a nobreza rural feudal, a burguesia que combateu o poder desmedido do clero e da nobreza, podemos inferir uma das coisas que o comunismo combate: a ascensão das pessoas. Ao demonizar o progresso material de uma sociedade, ao combater sistematicamente a meritocracia, ao promover os privilégios, o comunismo traz o ostracismo. Por exemplo, a vitória do Dória para a prefeitura de São Paulo, em 2016, derrotando o marxista Haddad, prova o que o povo quer: trabalhar para melhorar de vida, para progredir, para poder comprar um veículo, para sair do aluguel ou da favela, para melhor poder estudar os filhos, etc. O povo está cansado da promessa de que a revolução trará liberdade, pois o que liberta mesmo, é a verdade. E a verdade é que as pessoas querem melhorar de vida, e isso acaba trazendo a tão demonizada desigualdade. O pobre quer melhorar de vida e, se possível, se tornar um "burguês"; se não conseguir, pelo menos os seus filhos conseguirão; veja só, cada geração é mais rica que a anterior, os filhos normalmente ganham mais do que os seus pais ganhavam.

Enfim, a História, depois de 170 anos, provou que o comunismo estava errado, e que, na verdade, não passava também, de uma ideologia.

P.S.: não sou filósofo nem historiador formado na área, então, por favor, se quem leu a minha resenha tem um comentário, fique à vontade!
Denis 29/10/2018minha estante
Acréscimo 1: este livrinho da Martin Claret não é o texto integral (descobri agora...), comparando com a edição da Editora Boitempo (2007) que possui mais de 600 páginas!!!




Lyndon Johnson 01/01/2019

LEVANTA-TE E MODIFICA O MEIO EM QUE VIVES
A Alemanha do Século XIX era um caldeirão efervescente de jovens filósofos seguidores das doutrinas de Georg Hegel, que por criticá-lo e tentar adaptar suas dialéticas a sociedade prussiana da época, eram conhecidos como “Hegelianistas de Esquerda”. Em um dado momento, Karl Marx, que estava sendo influenciado por esses jovens hegelianos, percebe que as transformações sociais por eles propostas ficavam restritas aos pensamentos, as teorias e as reflexões e que por meio disso jamais iriam se concretizar em fatos. Para modificar essa realidade era preciso trocar a consciência humana pela atividade humana (ação). Enquanto os filósofos se limitavam a interpretar o mundo por meio de quimeras idealistas de diferentes maneiras, o que interessava na realidade era transformá-lo. Por meio da perspectiva do trabalho, a História pode ser mudada por nossas ações. Portanto, pegando o gancho desse livro, procure fazer alguma atitude para alterar e melhorar o ambiente em que você habita.
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