Canudos - Diario De Uma Expedição

Canudos - Diario De Uma Expedição Euclides da Cunha




Resenhas - Canudos - Diario De Uma Expedição


4 encontrados | exibindo 1 a 4


. 08/08/2016

A obra soma detalhes ao clássico "Os Sertões" em percepções sociológicas e históricas. O texto é resumido e, comparativamente, menos elaborado. Razão que se justifica em serem relatos jornalísticos escritos no desenrolar da história. Notas.
Vemos a valorização do exército, o olhar discriminatório sobre Canudos e detalhes adicionais ao cotidiano. Essa é a caracterização.

Em relação à valorização do exército, Euclides cita nomes, descreve suas dificuldades e sofrimentos, além de referenciar heroísmo em mortes com brados de exaltação à República. O texto é muitas vezes poético, com evocações comparativas aos gregos e bandeirantes pela valentia. Em resumo, são dignos representantes da pátria. Pontos que ressoaram positivamente nos jornais da época. Ressalte-se que o autor era também militar.

Essas colocações tomam vigor favorável também com um retrato parcial e pejorativo dos sertanejos. Euclides fez reduções preconceituosas. Além da referência a inimigos, adversários e fanáticos (presentes em "Os Sertões"), nessa obra são usados termos como "entes dos mais diversos gêneros antropológicos", "aldeia sinistra" e "povoado maldito".
Acredito que o autor retratou o sertanejo apenas na descrição e impressão que teve, com parcialidade, sem verdadeiramente mostrar a sua alma e com uma definição preestabelecida, haja vista as reduções a que o sujeitou.

O ponto alto do livro está no detalhamento de algumas histórias, presentes ou não no clássico.
Histórias como a marcha dos soldados pelo sertão, enaltecida no olhar do autor. Euclides cita a passagem por uma igreja onde presenciou uma missa. A simplicidade do povo e ardor da fé o impressionaram, transformando-se em reflexões comparativas à realidade das metrópoles.
Em outro momento é descrita a chegada do exército aos arredores de Canudos, onde o autor a contempla de um monte e tece considerações. Não era o caso de, a exemplo da experiência na igreja, ocorrer uma reflexão sobre a realidade de sofreguidão? Não lhe instigava uma questão sociológica e humanitária, de luta de sobrevivência? O que se segue é um texto de descrição essencialmente orgânica, materialista, desumanizado nas percepções. Não se trata da simples descrição do local (comparativamente terrível à realidade das metrópoles) mas da descrição e relato frio do inimigo. Em paralelo aos bravos e dignos soldados da República, havia "o povoado maldito" com "entes antropológicos diversos"...
Deve ser considerado, nessa percepção, que o país era uma jovem República se estabelecendo. A história, na concepção mostrada, trouxe valorização dessa pátria, ao colocá-la em luta contra um inimigo. E que inimigo cruel, hein...
A força das palavras trouxe o aval e motivações necessárias ao governo para a aceitação pública de suas mobilizações e intentos.

Outro relato que chama atenção está em uma relação de ajudadores do Antonio Conselheiro, uma percepção ausente no clássico, além de fatos extras à sua biografia. É relatado o descontentamento religioso que havia entre as autoridades eclesiásticas e ele tem descrição que beira uma imagem bestial, ridicularizada e menosprezada. Euclides ressalta a liderança severa, dando exemplo de um caso em que mandou matar um desafeto com toda sua família.

O cerco da cidade é também um texto dramático, com inúmeras tentativas dos sertanejos de chegar até o rio Vaza Barris após estarem cercados e desprovidos de água por três dias.

A obra reconta também o episódio dos doze jovens contra a "matadeira". Uma história audaciosa e cruel em seu findar.

Impressionou-me a descrição da entrada do autor no arraial rendido. Tive sensações diferenciadas. No clássico, Euclides parece entrar em uma cidadela destroçada (o que é verdadeiro) mas com ares desertos. Há relato de mortos e moribundos no geral. Neste livro ele encontra sertanejos rendidos, em condições terríveis, e a impressão é como a de contemplação de um campo de concentração. O autor foi enfático e mítico no derradeiro momento dos soldados, enquanto que seu olhar sobre os sertanejos é essencialmente orgânico, sem contemplação da alma na chocante condição em que os encontrou. Era o inimigo enfim derrotado...

Por essas e outras é um livro instigante. Revelador de uma história ainda muito desconhecida e materializada em percepções diversas. Minha releitura foi assim e, dessa vez, foram as coisa que consegui ver, com seus enganos e acertos.
. 18/08/2016minha estante
O relato da entrada do exército na cidade está relacionado às impressões do autor e relatos coletados, pois havia se retirado cerca de 2 a 4 dias antes desse evento por questões de saúde.




Elisabete Bastos @betebooks 27/07/2018

Diário
Euclides da Cunha pauta em diário (período 7 de agosto a 1º de outubro/1897 e telegramas) da quarta expedição do Exército para combater e aniquilar Canudos, uma aldeia no qual Antônio Conselheiro era o guia espiritual desta e taxado de monarquista.
O autor o denomina como " a figura do líder mistificada e temida, dava ao arraial a qualidade de Meca dos jagunços", " o mais sério inimigo das forças republicanas. Canudos é comparado a Vendeia da Revolução Francesa.
Há o retrato da terra, das plantas, do tempo, da forma do jagunços lutarem de forma combativa e ardente no diário.
Tombaram a aldeia em 6 de outubro de 1987.
O próprio autor fica espantado com a força dos jagunços em lutar em resistir tanto, ficaram sitiados sem água, suprimentos....
É impressionante a leitura.
comentários(0)comente



Damien Willis 18/01/2017

Termino a leitura do diário de Euclides da Cunha que, nesta versão da Martin Claret, inclui nos rodapés telegramas enviados ao O Estado de S. Paulo. Estranhei o findar e após busca na internet descobri e relembrei que Euclides não esteve presente ao final da guerra. Termino a leitura do essencial com admiração ao escritor, mas com ceticismo quanto a veracidade de certas informações, que devem ser reveladas e melhor explanadas em Os Sertões e em obras de outros autores da época.

É admirável a forma como Euclides descreve a geografia e vegetação do sertão. É o que lemos na apresentação e que resumo aqui: Euclides é científico, mas poeta acima de tudo. Eu poderia ainda elogiar a descrição das cidades e do povo, mas aqui cabe uma ressalva: em momentos a gente se deixa levar pela beleza de suas palavras, enquanto que em outros ficamos estarrecidos com um certo preconceito - características essa que podemos "passar um pano" e dizer algo como "comum à época".

Por ser um diário a leitura é um tanto enfadonha e evidencia a repetitividade, sobretudo porque insisti em ler todos os telegramas presentes nos rodapés, mas é uma aula de escrita, de sensibilidade poética, espírito científico e de respeito ao Brasil que todo brasileiro deveria ter contato um dia. Apesar disto, em certos momentos, rebaixa tanto os jagunços à um nível de sub-humanos que "guerreiam apenas por serem fanáticos religiosos" e engrandece os militares e a República como entidades inquestionáveis que me causaram um certo desconforto, como se fosse apenas uma luta entre o bem contra o mal, sem se aprofundar no contexto que originou tudo isso - ainda que a metodologia de Antonio Conselheiro e seus seguidores fossem consideradas incompatíveis com um mundo civilizado.

Ainda sobre o aspecto poético e científico, o que deveria ser enfadonho passa a ser atrativo: as descrições geológicas, geográficas, climáticas, zoológicas e botânicas sobre o sertão - e ainda inclui-se as descrições étnicas, mas neste caso é bom termos cautela. Um documento para se conhecer o sertão e seu povo de 1896.
comentários(0)comente



Vânio 06/12/2009

Livro ''Canudos — Diário de Uma Expedição"

Livro-reportagem do imortal Euclides da Cunha (nascido a 20 de janeiro de 1866 e assassinado tragicamente a 15 de agosto de 1909), Canudos — Diário de Uma Expedição fora publicado postumamente em 1939 como o vol. 16 da Coleção Documentos Brasileiros da Livraria José Olympio.

Essa obra nos permite confrontar o diário de guerra do escritor e a obra definitiva d' Os Sertões, lançada em 1902. Após a publicação de dois textos sobre a Campanha de Canudos em O Estado de São Paulo, Euclides recebe convite para acompanhar o Estado-Maior do Marechal Bittencourt, então Ministro da Guerra, como correspondente do jornal; e segue em 1897 para o recinto da luta, no sertão baiano, onde faz a cobertura dos acontecimentos finais daquele conflito, juntando assim rico material jornalístico/literário, que seriam a base, a matéria-prima para a publicação do maior clássico da literatura brasileira: Os Sertões.

Os artigos publicados n' O Estado de São Paulo , bem como telegramas e cartas escritas pelo escritor diretamente da Bahia dando notícias do andamento do conflito, e ainda notas de sua caderneta de campo, fazem parte de Canudos — Diário de Uma Expedição.

Graças às anotações e à coragem do jornalista Euclides da Cunha, tomamos conhecimento do massacre violento e covarde do poder sobre o homem do sertão; relato que se tornou um vivo retrato da violência contra o sertanejo, a força que se impunha em nome da recém instituída República. Euclides consegue como ninguém fazer de sua literatura um instrumento da verdade.

Canudos — Diário de Uma Expedição é portanto de leitura obrigatória para todos aqueles que aceitam o emocionante desafio de conhecer a obra euclidiana. Recomendo ao jovem leitor menos experiente que comece lendo primeiro Canudos — Diário de Uma Expedição e, depois, Os Sertões, pois um complementa o outro. E como já dizia Paulo Dantas, escritor premiado, autor de várias obras, dentre elas Antologia Euclidiana: "Precisamos, porém, derrubar os mitos, todos os mitos, pois em cultura não se admitem mitos, mas símbolos. E um dos mitos que precisamos derrubar é que para se entender ou ler bem Euclides torna-se necessário ter ao lado um dicionário". Engana-se quem assim pensa! "Temos, porém" — diz ainda Paulo Dantas, "de levar em conta que a obra euclidiana é um produto típico de um estilo concebido numa época onde o escrever difícil era moda. Não fora isto teríamos Euclides hoje mais entendido e amado por todos, principalmente pelos jovens leitores das nossas escolas ou universidades". E um bom começo para conhecer a obra euclidiana (principalmente Os Sertões ) é a leitura de Canudos — Diário de Uma Expedição. Eu o recomendo.

E concluo esclarecendo que o grande Euclides da Cunha também escreveu outras obras: À Margem da História, Contrastes e Confrontos, Peru versus Bolívia, e ainda alguns poemas, hoje reunidos num pequeno volume intitulado Ondas.

Boa leitura!


Resumo publicado nos sites:

http://pt.shvoong.com/books/historical-novel/136611-livro-canudos-di%C3%A1rio-uma-expedi%C3%A7%C3%A3o/

e

http://ponderacoes.spaceblog.com.br/203927/Canudos-Diario-de-Uma-Expedicao-de-Euclides-da-Cunha/
comentários(0)comente



4 encontrados | exibindo 1 a 4