Meia-noite e vinte

Meia-noite e vinte Daniel Galera




Resenhas - Meia noite e vinte


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Felipe.Tavares 19/07/2017

Que sono zZzZz
Criticar é sempre mais fácil que elogiar, então vamos lá.
O autor mistura vários temas considerados "polêmicos" (?!) e espera que assim tudo vai dar certo, não dá. Tem homossexualismo, masturbação, alcoolismo, fim do milênio, passeatas de 2013, apocalipse e por aí vai. No fim das contas ele cria uma teia que não chega a lugar nenhum e pior, deixa uma série de buracos na trama porque gastou as páginas e páginas se mostrando intelectual demais citando autores e seus livros, aromas de whisky e especificidades da cana de açúcar.
Primeiro (e último) livro que vou ler deste autor e nem adianta tentar me convencer do contrário.
Diego Lops 04/01/2018minha estante
Há livros bons e ruins. Mas há também leitores bons e ruins, estes bem mais numerosos.


Felipe.Tavares 22/02/2018minha estante
Ainda bem que vivemos num mundo em que cada um pode ter sua opinião, né? #paz


() 07/07/2020minha estante
É como dizem: criticar é fácil, difícil é fazer melhor.




Daniel 04/10/2016

Depois da meia noite
“A fragilidade do homem era tocante. Milhões de anos de evolução desembocando em seres incrivelmente não adaptados ao ambiente do planeta, como demonstrava nosso sofrimento diante de mínimas alterações de temperatura (...), para não falar na ainda mais humilhante vulnerabilidade da nossa mente a qualquer baboseira, à ansiedade, à esperança.”



O que eu adoro na literatura é isso: que além de uma história, de preferência interessante e bem contada, tenha também reflexões, pensamentos que parecem ter escapado de nossas próprias mentes, tal a identificação que temos com eles. O enredo de três amigos que se reencontram após a morte de um amigo em comum parece simplesmente um pano de fundo para questionamentos que, querendo ou não, se impõe com o passar dos anos: para onde foram nossos planos? O que nos tornamos? A vida que temos hoje, que construímos para nós mesmos, é muito diferente daquela que sonhamos quando éramos jovens? E o mundo em que vivemos, vai acabar com o homem ou o homem é que vai acabar com o mundo?



Acho que Daniel Galera acertou demais nos três narradores maduros – uma mulher (Aurora), um gay (Emiliano), um homem (Antero, talvez o menos consistente ou carismático dos três) – com suas inseguranças, suas dúvidas e suas poucas certezas. Numa época de tanta informação e tanta opinião, é inevitável uma certa nostalgia com tempos analógicos, quando o futuro parecia mais promissor.



Achei que o livro poderia até render mais alguns capítulos... Com mais perguntas que respostas, talvez este livro frustre um pouco os leitores muito jovens e idealistas. Que esperem a maturidade chegar, para relê-lo com outros olhos, mais cansados, mais experientes e, quem sabe, esperançosos.
eduardo 04/10/2016minha estante
... obrigado, dani, por compartilhar seu olhar franco e terno sobre o livro. é meu próximo da fila e, mais que antes, estou ansioso para começá-lo.


Nanci 04/10/2016minha estante
Ótima resenha, Daniel.




Leandrotron 14/11/2016

Fanfic
Infelizmente dessa vez não deu nem pra terminar de ler. O livro e lembra uma grande fanfic.
Diego Lops 04/01/2018minha estante
Que argumentação impecável. :/


David Atenas 02/04/2018minha estante
Ele não é obrigado a fazer laudas e laudas de dissertações pra te agradar, Diego Lops retardado.




Thiago Maia 17/11/2016

Prosa de primeira
Daniel Galera se situa bem acima da média no painel dos autores brasileiros contemporâneos. Sempre atribuí o destaque sobretudo à fluidez pragmática de sua prosa, destituída de experimentalismos que tanto aborrecem e afastam leitores. Em “Meia-noite e vinte”, seu quinto título, o traço da agradável fluidez segue presente, enriquecido por uma recorrência de belas passagens que vem acrescentando cada vez mais densidade à obra do jovem escritor gaúcho.

A tal densidade, neste último livro, para mim, está mais ligada ao apuro na elaboração de frases e sentenças – leves e vistosas ao mesmo tempo – do que à temática em si: me parece superdimensionada a importância da revista literária online em torno da qual se ergue a trama, uma diabrura adolescente do fim dos anos 1990 cuja repercussão se estende até os dias atuais. Antero, um dos criadores, é reconhecido no meio da rua quase duas décadas depois; Duque, o principal nome da revista, é morto em uma tentativa de assalto e provoca algo perto de uma comoção nacional – fãs à porta do cemitério, agitação na imprensa e outros desmembramentos mais condizentes com a morte violenta de um ator de novelas, não de um escritor brasileiro marginal.

Mesmo a riqueza discursiva, ponto alto da obra, transparece certa inconsistência ao se dissolver na figura de três narradores: são todos muito bem articulados, precisos na transmissão de sensações e repletos de referências, mas faltam marcas que os caracterize individualmente e os diferencie um do outro de forma inequívoca e contundente, como se espera de vozes expressas em primeira pessoa.

Quando os protagonistas, na faixa dos 40 anos, se afastam um pouco de seus delírios de importância juvenil e se voltam às questões mundanas do presente, somos brindados com as melhores partes do livro. A descrição do trabalho de Aurora como pesquisadora da USP em genética da cana-de-açúcar é especialmente interessante e bem fundamentada.

Destaque também para a maneira com que certas intimidades são expostas, naturais, sem subterfúgios, em particular aquelas praticadas sob o anonimato da internet – além da sensibilidade de Galera de ter encarnado uma voz gay e um ponto de vista feminino sem decair num tom artificial e inverossímil.

site: www.thiagomaialivros.blogspot.com.br
Silvia 24/11/2016minha estante
To doida pra ler!


Thiago Maia 25/11/2016minha estante
Vale a pena!




Felipe Holloway 22/01/2017

Mais um para o "bonde do zeitgeist": Galera e a consolidação do romance de deformação
Em termos de estrutura, nesse "Meia-noite e vinte", Daniel Galera coloca em prática uma honestidade rara entre os escritores, contemporâneos ou não, apesar de eu ter lá minhas dúvidas sobre se reconhecer uma deficiência estilística seja o suficiente para que sua existência se torne menos injustificável, numa obra literária. Desde "Até o dia em que o cão morreu", o autor, embora tenha se ocupado de personagens de um distanciamento meio mersaultiano, apresenta em sua escrita uma inegável matriz realista, manifestada por meio da profusão de descrições (geográficas, anatômicas, “figurinísticas”) e por certa linearidade temporal que, mesmo quando rompida, não apresenta grandes complexidades ao leitor – pense-se, a título de comparação, na fragmentariedade de “Se um de nós dois morrer”, do Paulo Roberto Pires. Causa espanto, dessa forma, que as três vozes narrativas que se intercalam em "Meia-noite..." soem tão homogêneas, tão quase indistintas. E se, como mencionei no início, é possível perceber como o próprio Galera tem consciência de sua dificuldade de diferenciar os narradores (pois o personagem responsável pela narrativa de cada capítulo nunca leva mais que um parágrafo para citar o narrador do capítulo anterior, evitando, assim, que nos percamos quanto à autoria do relato da vez, já que nossa tendência natural, pela homogeneidade das vozes, é imaginar que prosseguimos com o ponto de vista do mesmo personagem) – se, enfim, Galera nos situa tão cortesmente, é impossível não se perguntar, finda a leitura, qual a utilidade de pôr em prática determinado artifício, quando temos noção de que não o dominamos muito bem. Pois se a forma de contar não constituía, para o autor, e contrariando a estética literária contemporânea, elemento tão importante quanto aquilo que estava sendo contado, um narrador onisciente que nos conduzisse pelas ações e meandros psicológicos dos personagens teria sido uma escolha mais honesta. Do jeito como está estruturado, “Meia-noite...” parece um exercício de estilo malsucedido e um tanto constrangedor, como quando um bom jogador tropeça na bola ao tentar reproduzir o drible do elástico. Neste sentido, não ajudou que eu tenha lido a obra logo depois de haver passado pela segunda parte de “Os detetives selvagens”, do Roberto Bolaño, composta por uma infinidade de pequenos relatos em que o chileno exercita com maestria seu domínio das múltiplas vozes narrativas.

Feitas essas considerações formais, Galera se firma, aqui, como o patrono brasileiro contemporâneo de uma modalidade literária que um integrante de uma antiga comunidade do Orkut definiu genialmente como “bonde do zeitgeist”. São obras que costumam retratar certo niilismo geracional, marcadas pela presença de personagens que manifestam uma aversão meio desfocada ao status quo – inquietação que aos poucos vai degenerando para o conformismo, ou para a consolidação de um status quo em essência idêntico àquele contra o qual se bradava. Há uma espécie de mito primevo em torno do qual a narrativa se estrutura – aqui, ramificado na vida de Duke e na virada do milênio, bem como em seus prenúncios simbolicamente apocalípticos --, que é ao mesmo tempo motor propulsor e ponto ao qual se deseja chegar, ainda que tal intento só se concretize na memória, como um “rosebud” sussurrado à beira da morte. Os romances que integram o “bonde do zeitgeist” parecem pintar o panorama que inevitavelmente sucede ao que figurava nos bildungsroman, os famosos romances de formação, mais ou menos como certas releituras modernas dos contos de fadas apresentam hipóteses aridamente realistas a respeito do que aguardava os príncipes e princesas após o “felizes para sempre” de suas histórias originais. Emerge, dessa forma, e com o perdão do trocadilho infame, um gênero narrativo que também poderíamos chamar de romance de deformação.

Os narradores de "Meia-noite..." são três personagens profundamente insatisfeitos não apenas com a degenerescência de seus antigos ideais éticos, profissionais e estéticos -- insatisfação, aliás, ampliada pelo pioneirismo de que foram protagonistas, desbravando a quase inóspita world wide web em seus primeiros anos de existência --, como ávidos por retornar ao cenário idílico que antecedeu “o fim do mundo” pelo qual passaram sem perceber. A morte de Duke surge como um monumento imenso, de desolação infinita, à falência definitiva daquele otimismo, do antigo pendor à transgressão. Duke, o único que se mantivera relativamente fiel ao passado, à anarquia estética, ao caos “de raiz” que se opunha à gradativa institucionalização de tudo, inclusive do caos – Duke sucumbindo não a uma morte simbólica, que fosse fruto de seu projeto literário (como certo personagem em dado momento pateticamente supõe), mas a um fim de existência banal, imbecil, desprovido de grandeza artística ou de romantismo martirológico. Duke condenando todos à nostalgia, ao passadismo, seja pela aceitação falsamente relutante de se escrever sua biografia, seja ao inocular o desejo de se retornar ao lugar em que o apocalipse começou.

O final do romance, com Aurora deparando com uma cena de violência gradual e, em seguida, com uma criatura mítica, extraída dos porões de sua infância, é, tenho que admitir, por sua força simbólica, uma das mais comoventes e belas da literatura de nosso tempo.
Bruno 23/01/2017minha estante
Muito boa a resenha. Também achei o final espetacular. Ela não se chama Aurora por acaso. No meio de toda aquela onda de pessimismo do livro, ela precisa se isolar pra perceber que o violência e a morte são inerentes à natureza e que é possível encontrar sentidos pra vida onde menos se espera. Na minha opinião, uma desculpa para a ausência de marcações definitivas entre um narrador e outro é que todos são meio que uma coisa só. Pra mim eles são alteregos distintos do autor, que se consubstanciam no Andrei, quase uma anagrama de Daniel (que se completa com o L formado pelo mapa do aplicativo de corrida de Andrei).


Eloisa Moysa 05/02/2017minha estante
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marcioenrique 24/01/2017

um dos piores livros dele...
fraco.
Diego Lops 04/01/2018minha estante
Pra que se dar ao trabalho de resenhar, se for pra escrever isso?


David Atenas 02/04/2018minha estante
Diego Lops, deixe os outros escreverem o que quiser.
Você não é o autor da porcaria do livro, e mesmo se fosse não teria direito de censurar ninguém, seu LIXO!




vinigiorge 12/10/2016

Daniel Galera em novo livro raso e sem clímax
Em Meia Noite e Vinte, podemos ver, sem dúvidas, um Daniel Galera ainda mais maduro como escritor e, firmando-se como um verdadeiro literato brasileiro contemporâneo. Apesar disso, acompanhando desde o início sua trajetória, esperava muito mais de Meia Noite e Vinte.
Há alguns aspectos muito positivos, como a construção da identidade das personagens, e há outros bons destaques sobre a própria narrativa. No entanto, depois de ler Barba Ensopada de Sangue, esperava um livro muito mais completo e fascinante -- o que fez deste novo um pouco decepcionante.
Talvez eu tenha criado muita expectativa e por isso ter me frustrado, mas o que senti ao ler é que há um gancho excelente para o livro, mas que foi explorado de forma muito superficial. É um livro que não sai do morno, não tem nenhum grande clímax. Se não fosse escrito por Galera, teria abandonado antes de concluir.
David Atenas 09/01/2017minha estante
Creio que não se deva criar quaisquer expectativas em torno da literatura do Galera.




Hugo 20/10/2016

Um dos livros mais fracos do Galera
De todos do Daniel Galera, foi o livro que menos gostei. A narrativa é boa, os personagens vão crescendo no decorrer do livro, mas só. As constantes referências ao mundo moderno/tecnológico (iphone, blogs, whatsapp, apps etc) são um pouco forçadas e às vezes chegam a cansar. Enfim, uma leitura rápida e despretensiosa.
David Atenas 04/01/2017minha estante
De longe, é o pior dele.




vortexcultural 28/09/2016

Por Thiago Augusto Corrêa
Em Barba Ensopada de Sangue, lançado em 2012, elogiado e denso romance vencedor do Prêmio São Paulo em 2013, Daniel Galera fundamentava mais uma boa obra em sua carreira, demonstrando um talento impar dentro da literatura contemporânea brasileira. Novamente em parceria com a editora Companhia das Letras, o autor lança novo romance, dessa vez concentrado na análise sobre tensões presentes no cenário atual.

Meia-Noite e Vinte se alinha com o espaço contemporâneo, situado em uma Porto Alegre quente e movimentada, devido aos protestos públicos contra aumento de tarifas. Neste cenário, um grupo de amigos se reúne relembrando os feitos da universidade para velar um dos amigos, morto em um assassinato fatídico. Se o contemporâneo sempre é um objeto difícil para a análise de qualquer meio, desenvolver uma história neste espaço também requer delicadeza e alto grau de observação, fator que a prosa do autor garante em qualidade e estilo.

A trama é focada neste grupo de amigos que estão na fase dos trinta anos de idade, vindos de feitos bem-sucedidos de um passado mistificado pela própria memória. A intenção de radiografar a geração atual apresenta personagens que cresceram na passagem do mundo analógico para o digital, extremamente conectado. Neste processo de transição, encontram-se três personagens, Aurora, Emiliano e Antero sobrevivendo numa realidade diferente daquela imaginada nos tempos áureos da juventude.

(Leia a análise completa no Vortex Cultural)

site: http://www.vortexcultural.com.br/literatura/resenha-meia-noite-e-vinte-daniel-galera/
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mr_reedies 21/10/2016

Meia-Noite e Vinte
Mais cedo nesse ano, eu li um livro chamado Sinuca Embaixo d'Água, de autora nacional, cuja história, se eu bem entendi, envolvia a morte de uma garota e como as vidas de pessoas que a conheciam seguiram. Meia Noite e Vinte também parte dessa premissa (e, bem, eles não são os primeiros a fazer isso, e consigo pensar em vários exemplos de livros que começam assim), mas devo mencionar aqui, já de antemão, que Meia Noite e Vinte faz um trabalho muito melhor com o tema.

Mas talvez sua qualidade nem esteja apenas associada ao seu tema. Posso mencionar também a narrativa, que, aqui, é de uma qualidade muito superior, com uma ambientação e construção de personagens e cenários feita com excelência. É um livro de parágrafos enormes pelos quais os olhos correm sem se dar conta do que estão fazendo. Fiz isso por tanto tempo que cheguei ao final do livro sem perceber. Ele simplesmente estava lá!

Talvez essa sensação tenha sido causada por conta da casualidade que a história possui. Bem, após ler alguns dos livros do Daniel Galera, pude perceber que ele não é muito fã de histórias com começo, meio e fim - o fim fica pra você imaginar. Ele já disse como tudo começou e como os personagens lidaram com as coisas. Ele até joga algumas outras informações curiosas que, em outros romances, talvez rendessem um ótimo mistério, um enigma a ser desvendado, mas nada é muito explorado, o que não chega a ser um problema, porque, ao que parece, o propósito do livro é contar as histórias de Aurora, Emiliano e Antero após a morte de Andrei, e não desvendar um mistério.

São personagens críveis, o que é um prato cheio para aqueles que gostam de personagens com atitudes e pensamentos reais, longe da fantasia dos personagens de livros de terror, por exemplo. Conhecemos os personagens citados em seu íntimo, com seus costumes mais sórdidos, daqueles que, se os temos, não mencionamos em conversas para evitar espanto ou julgamentos. Conhecemos mais da vida de cada um dos personagens isoladamente do que eles são capazes de se conhecer entre si.

A sinopse, na primeira vez que a li, me fez esperar um livro ambientado nos anos 90, com a revolução da internet na vida dos jovens, entre outras coisas, mas eu estava enganado. Constantemente, os personagens voltam até lá em suas reflexões, mas continuam aqui, com o pé no presente, um ano após as manifestações de Junho de 2013, que são mencionadas em grande parte do livro, inclusive. É o primeiro que vejo falar do assunto.

Não o achei parecido com nenhum dos livros do Galera, especialmente os mais recentes, como o Barba Ensopada de Sangue. Ele se renova em cada um dos seus romances, o que deixa a sua escrita "fresca". Vemos aqui uma narrativa mais amigável àqueles que estão acostumados com prosa em primeira pessoa, daquelas que não exigem 100% do seu entendimento sobre tudo ou que esperam testar a sua esperteza. É um livro fácil de ler, marcante, e, sinto muito, era basicamente o que eu esperava de Sinuca Embaixo d'Água antes de lê-lo.
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Cheiro de Livro 24/10/2016

Meia Noite e Vinte
Daniel Galera é desses escritores que me conquistou de cara, foi amor à primeira leitura. Quando vi que ele tinha escrito um novo livro, “Meia Noite e Vinte”, fui logo comprar. A sinopse já me seduzia, grupo de amigos que tinha um e-zine no final do século passado se reencontra e relembra esse período da virada do milênio.

Tenho que dizer, antes de tudo, que faço parte dessa geração que estava nos seus 20 anos no inicio do milênio. A ultima geração que cresceu sem internet, sem TV a cabo, sem celular e que foi descobrindo as maravilhas do mundo conectado ao mesmo tempo que se tornava gente. Mesmo não tendo vivido Porto Alegre na virada do milênio, universo explorado por Galera no livro, vivi todo esse clima. Minha experiência com o tempo relatado faz toda a diferença na minha empatia com os personagens.

Aurora, Emiliano e Antero, todos entre seus trinta e quarenta e poucos anos, se reencontram em Porto Alegre no enterro de Duque, amigo morto em um assalto com quem eles produziam um e-zine Orangotango de 1998 até os primeiros anos do novo século. O livro é uma mistura de lembranças com a realidade de cada um deles. Deve ser muito mais legal para quem é de Porto Alegre, as referências são muitas a cidade de hoje e do passado, mas não ser de lá não é um problema.

Não é uma grande história, os outros livros de Galera são mais interessantes, mas tenho uma ligação afetiva com o universo que ele explora. Ajudou muito ter lido tudo pouco antes de um almoço com meus amigos de colégio. Não nos parecemos nada com o grupo mostrado por Galera e mesmo assim é impossível na fazer o paralelo. Aurora, Antero e Emiliano tem níveis de sucesso, frustração e fracassos em suas vidas, estão bem longe do que sonhavam quando escreviam no Orangotango. O livro é um misto de esperança e desilusão, de frustações e nostalgia. É interessante e ao mesmo tempo anda em círculos e não chega muito a lugar algum.

Tive a impressão que Galera queria revisitar aquele período de inicio de faculdade, de novas descobertas, do inicio da internet no Brasil e criou uns personagens para ilustrar o seu exercício de nostalgia. É um livro que fala para uma geração mesmo não sendo um grande livro. Toca apenas superficialmente em temas que mereciam ser melhor explorados. Comecei com uma expectativa muito alta, talvez. É um Daniel Galera, vale a leitura.

site: http://cheirodelivro.com/meia-noite-e-vinte/
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Renata (@renatac.arruda) 30/11/2016

Daniel Galera busca inspiração nos tempos em que sua carreira estava no início, quando escrevia para o Cardosonline ao lado de Clara Averbuck, Daniel Pelizzari e outros, para mostrar o contraste entre uma geração que prometia muito e sonhava alto e o que de fato ela se tornou.

O livro mostra o ponto de vista dos personagens Emiliano, Aurora e Antero, basicamente refletindo sobre o passado e encarando o presente, que voltam a se encontrar quando o mentor do antigo grupo de juventude e escritor de sucesso, Andrei, é assassinado nas ruas de Porto Alegre.

Repleto de referências à segunda metade dos anos 90, alguns dos temas abordados refletem o nosso tempo e são quase 'Radioheadianos': alienação, tecnologia, solidão, relações líquidas, dinâmicas de poder e uma humanidade que segue rumo ao apocalipse. Apesar disso, há otimismo. 'Meia-noite e vinte' é mais dinâmico e direto do que 'Barba Ensopada de Sangue', mas mantém a sensibilidade e o olhar perceptivo do autor.

A Companhia das Letras fez uma playlist no Spotify para acompanhar a leitura, mas eu acho que é pra ler ouvindo o álbum Kid A, de Radiohead.

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David Atenas 09/01/2017

Daniel Galera é um dos mais superestimados escritores "indies" do Brasil. Escreveu cinco obras nas quais são semelhantes tanto nos universos quanto em qualidade. Não obstante escrever bem na maioria das vezes, seus assuntos não são instigantes, muito menos suas reviravoltas, como é o caso deste "Meia-Noite e vinte", considerado por mim o pior livro dele. Aqui, a palavra é Desperdício de Oportunidades, desde o pessimamente aproveitado plot dos amigos se reencontrando nos que seria o primórdio das Grandes Manifestações Nacionais (em 2013) à negligência no papel de um dos protagonistas da trama. Trabalha muito bem dois personagens, em personalidades bem distintas, mas ignora outro. E o andamento da história também pecou pela falta de interesse; por mais que os protagonistas sejam "normais", não quer dizer que a história tem de ser um picolé de chuchu que vez ou outra saía dos trilhos, é claro, com as fantasias repulsivamente homossexuais do jornalista Emiliano.

Depois do superestimadíssimo "Cordilheira" (onde Galera tentou fazer uma protagonista que remetia à sua amiga Clara Averbuck), achei que não fizesse novamente um outro livro tão ruim. Daniel Galera é bem qualquer nota, em toda a extensão de sua carreira como romancista.
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Achados e Lidos 22/01/2017

Dramas contemporâneos
Daniel Galera se tornou uma espécie de “fenômeno literário” brasileiro com Barba Ensopada de Sangue, lançado em 2012. Seu novo romance era aguardado, portanto, com uma expectativa enorme. Meia-Noite e Vinte confirma o autor como o expoente maior de uma safra de ótimos escritores como há muito não se via na cena literária brasileira.

O ponto de partida de Meia-Noite e Vinte é justamente a morte de uma espécie de alter ego de Galera, Andrei Dukelsky, descrito como “um dos maiores novos talentos da literatura brasileira contemporânea”. Mais conhecido pelo apelido, Duque foi morto de forma brutal, ao ter seu celular levado durante uma corrida pelas ruas de Porto Alegre.

A tragédia, que chega a Aurora por meio do Twitter, força a aproximação dela com os outros dois narradores do livro, Antero e Emiliano. Juntos, os quatro haviam escrito, na virada do milênio, um cultuado fanzine digital, chamado Orangotango.


O enredo é simples. Trata-se, essencialmente, do reencontro dos três amigos após a morte de Duque, o que os força a voltar a habitar o passado e, sobretudo, entender como chegaram ao presente e qual o futuro possível nas circunstâncias em que se encontram. O domínio de Galera sobre a narrativa, porém, faz com que esse seja um romance de portas abertas.

Cada personagem parece estar afundado em situações-limite. Aurora, uma pesquisadora da área de botânica razoavelmente bem sucedida, é ameaçada de não ser aprovada em sua qualificação de doutorado na Universidade de São Paulo por um professor abusivo. Seu choque com a morte de Duque a encontra em uma Porta Alegre caótica, com ares dignos de Saramago, o que exacerba seu pessimismo com a humanidade.

A fragilidade do homem era tocante. Milhões de anos de evolução desembocando em seres incrivelmente não adaptados ao ambiente do planeta, como demonstrava nosso sofrimento diante de mínimas alterações de temperatura ou falta de substâncias, uma vulnerabilidade humilhante a todo tipo de condição atmosférica, exposição a materiais e outros organismos, para não falar na ainda mais humilhante vulnerabilidade da nossa mente a qualquer baboseira, à ansiedade, à esperança. Éramos inadequados àquela natureza. Não espantava que desejássemos destruí-la.
Em um estado semi-depressivo, vivenciando apenas relações online, Aurora começa a questionar também os limites da ciência – e, automaticamente, de seu papel no mundo. Sua pesquisa sobre a percepção da passagem de tempo pelas plantas, que ao fim poderia até acelerar a produção de alimentos, começa a lhe parecer um problema em si. A terra, na sua avaliação, chegou a um ponto em que mais capacidade de vida significa fim mais próximo:

O ser humano não seria o primeiro organismo a ensejar o próprio genocídio por excesso de vantagem evolutiva, nem nisso éramos especiais.
Antero, um autocentrado diretor de uma agência de publicidade famosa, parece ainda preso em seus experimentos na adolescência, quando escrevia de forma transgressora para o Orangotango. Seu discurso vazio em um TEDx sobre a mídia e a produção de conteúdo capaz de conquistar massas de consumidores é, de certa forma, um reflexo irônico da tentativa de intelectualizar esse meio, disfarçando seu objetivo principal: vender.

Encarregado de escrever a biografia de Duque, Emiliano é um jornalista solicitado, mas que vive uma vida de certa forma decadente, desregrada, sem quaisquer amarras sentimentais.

Por todo o romance, está latente uma sensação de mal estar com a modernidade, uma percepção muito forte de que algo saiu fora do eixo no mundo. Ao dialogar com as manifestações de junho de 2013, um movimento ainda em digestão pela sociedade brasileira, Meia-Noite e Vinte escancara o mau humor que parece ter dominado as relações sociais desde então, uma espécie de azedume que advém de sonhos dilacerados.

Antero relembra a passagem de 1999 para 2000, quando havia a expectativa de um bug nos computadores que causaria panes globais, e que não deu em nada.

Quinze anos depois, o que começava a espalhar seus tentáculos pela sensibilidade de gente adulta e esclarecida como Aurora era outra coisa, uma angústia diferente da tensão pré-milênio. A nova angústia era essa expectativa difusa de um sufocamento vagaroso e irreversível, após o qual não restaria nada.
O estado de espírito dos personagens é algo como uma ressaca moral da década anterior, que se iniciou com as possibilidades abertas pela internet e por um pais que também parecia ter saído do limbo social e econômico. De repente, essa geração parece ter caído na real de que ainda estamos presos a um país capaz de retroceder décadas em um par de anos. Em um mundo que pouco faz para amenizar esse sentimento de fim iminente.

Há também uma forte tensão sexual entre os personagens, uma espécie de desejo latente que pode rapidamente caminhar para o mundo das possibilidades materiais. Uma espécie de espelho para o passado, que pode lhes permitir ser mais honestos com eles mesmos do que hoje, quando já se tornaram maduros o suficiente para construir defesas contra os instintos.

É esse sentimento que faz com que Emiliano não consiga recusar a proposta de escrever a biografia do amigo morto. Duque era avesso a redes sociais, mas depois de sua morte, descobre-se que tinha uma vasta presença online. Sua vida online lhe sobreviveria, e deixaria inclusive algumas respostas sobre o ar misterioso que envolve sua morte.

O leitor, porém, encontrará poucos respostas para seus questionamentos. Meia-Noite e Vinte é um livro conciso, mas que ao mesmo tempo pincela uma gama vasta de assuntos. Com esse livro, Galera também se aproxima de um autor que é sua referência assumida, David Foster Wallace, e seu realismo misturado com fluxo de consciência. Como não poderia deixar de ser, já estamos esperando o próximo livro de Daniel Galera. .

site: http://www.achadoselidos.com.br/2016/11/03/resenha-meia-noite-e-vinte/
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joaoaranha 26/01/2017

Experiência visceral.
Ler "Meia noite e vinte", de Daniel Galera, foi uma experiência descritiva visceral, coisa difícil de se presenciar nos escritores brasileiros.
Você é conduzido a uma experiência urbana sem pudor ou limites. Não é um livro para se apegar à história em si, mas na passagem do tempo, agressivo, duro e, ao mesmo tempo, anestesiante e saudoso. Mesmo não morando em Porto Alegre, era como se eu conhecesse todos os lugares descritos.

Uma obra magnífica em primeira e terceira pessoas, da Companhia das Letras, altamente recomendada.
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