Livre Para Ser Preso

Livre Para Ser Preso Afobório



Resenhas - Livre Para Ser Preso


1 encontrados | exibindo 1 a 1


Jana Lauxen 11/01/2010

LIVRE PARA SER PRESO - Resenha por Gabriel Nepomuceno Vieira
Ele usa uma balaclava enfiada na cabeça, tem um blogue feito de carniça, acredita que estamos mais perto do inferno do que do céu e escreve sobre o lado escuro da vida.
Estou falando, é claro, do escritor gaúcho Afobório, pseudônimo de Alexandre Durigon, 31 anos, que acaba de lançar seu livro de estréia, Livre Para Ser Preso (2009, R$25), pela editora carioca Multifoco.
Acostumado a escrever contos, Livre Para Ser Preso é sua primeira narrativa longa, e já chega surpreendendo e mostrando que veio para ficar - por mais que isso incomode os politicamente corretos e românticos de plantão.
Afobório criou uma novela com os elementos práticos e sucintos da produção do contista que sempre foi: nada sobra e nada falta na engenhosa história de Alencar e Jorge, seus perturbados protagonistas.
O primeiro, um fazendeiro mais pedante que esperto, sofre pelos chifres que sua falecida mulher colocou em sua testa. O outro, fugitivo da polícia, é completamente apaixonado por uma boneca e acredita piamente ser uma onça pintada.
O enredo lhe pareceu absurdo? E é.
Isso até que se comece a ler a extraordinária história de dois homens que desafiam sua própria humanidade, e lançam mão de uma guerra particular onde só cabem dois soldados, buscando na selvageria qualquer coisa que os aproximem dos homens que nunca foram.
Diferentemente de muitos autores de suspense e literatura fantástica - que acabam apenas refazendo o que já foi feito - Afobório não busca em escritores consagrados nem em filmes do gênero inspiração para suas histórias.
Sua matéria-prima é a vida que ele enxerga pela janela de sua sala:
- Escrevo coisas que vejo e encontro nas pessoas. Acredito que as estórias que desenvolvo têm um bom fundo de verdade. Se você prestar atenção à sua volta, verá que o que não falta são bizarrices. O mundo é feio, mas a maioria das pessoas reluta contra isso e o pintam de bonito para disfarçar o que incomoda e envergonha a sociedade. Eu vejo as coisas por outro lado. É por isso que exploro o lado negativo do ser humano, e da vida.
E é isso que encontramos em suas histórias, abundantemente: realismo e verdade.
E é também exatamente isso que mais perturba na literatura de Afobório.
Tudo que está escrito é passível de se tornar real.
Esta proximidade sinistra e sensacional que o autor possui com a realidade dura, crua e assombrosamente nua, torna seu blogue um espelho que reflete o lado negro e os becos e vielas de uma vida que não gostamos de ver nem de assumir que existe. Lá estão publicados mais de 100 contos, escritos entre 2007 e 2009, e cada um possui em suas linhas uma infinidade de personalidades e situações que nos deixam com a incômoda sensação de pertencermos àquilo tudo.
Segundo a escritora Jana Lauxen, responsável pelo prefácio desta delirante edição, enquanto lia os originais da obra, mais de uma vez se pegou embrulhada, enjoada, desconfortável:
- Diversas vezes precisei parar para retomar meu fôlego, e me certificar de que o mundo lá fora não havia se transformado em uma perseguição convulsiva e furiosa, onde homens se confundem com bestas feras e sentimentos se viram ao avesso para comprovar o que todos nós sabemos, mesmo sem gostar: existe um bicho faminto e intolerante dentro de cada um de nós. Um animal irracional e violento, bruto, impetuoso, preocupado exclusivamente com sua sobrevivência, desprovido de tudo aquilo que acreditamos nos tornar humanos. A história de Alencar e Jorge é, também, a história de todos os homens que deixaram para trás sua civilidade e sua compaixão, e mesmo assim continuam infiltrados no coração de uma sociedade aparentemente organizada, instituída e solidária – a sociedade onde eu e você vivemos, e onde nos sentimos muito, muito seguros.
Apesar das sensações e sentimentos pouco ortodoxos que Afobório desperta em seus leitores, tratamos aqui de literatura de primeira linha. Raros são os autores atuais que se dispuseram a retratar aquilo que poucos de nós gostam de assumir.
E Afobório não somente faz isso, como faz muito bem feito.
Livre Para Ser Preso, tais como os contos que frequentemente disponibiliza em seu blogue, possui o refino ideal para retratar histórias de horror e violência sem apelar para efeitos literários especiais ou ganchos ordinários: ele não choca o leitor com brutalidades óbvias e apelações previsíveis.
Afobório é o sujeito certo, na hora certa, escrevendo exatamente o que deve e sabe escrever.
E para os amantes de literatura policial, de suspense e de horror, só resta levantar as mãos para o céu e agradecer a Deus pela existência de um autor tão bom naquilo que nos faz tão mal.
Agradecer a Deus, ou ao Diabo, é claro.
comentários(0)comente



1 encontrados | exibindo 1 a 1


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com a Política de Privacidade. ACEITAR