AUTOR: Mia Couto
TÍTULO: O Bebedor de Horizontes
SÉRIE: As Areias do Imperador
VOLUME: 3/3
LOCAL DA PUBLICAÇÃO: Alfragide
EDITORA: Editorial Caminho
ANO DA PUBLICAÇÃO: 2017
PÁGINAS: 255
FORMATO DO LIVRO: eBook (ePub)
NOTA: Recomenda-se ler a resenha do primeiro e segundo volume da trilogia, "Mulheres de Cinzas" (clique aqui ) e “Sombras da Água” (clique aqui ), para melhor entendimento da obra.
SINOPSE:
Neste último volume da trilogia, os prisioneiros embarcam no cais de Zimakaze e a lancha parte em direção ao posto de Languene. Ali farão uma breve paragem para depois rumarem para o estuário do Limpopo e ali darem início à viagem marítima que conduzirá os africanos para um distante e eterno exílio.
____________
«Confesso, Imani, que sinto pena de Ngungunyane. O desgraçado já foi punido. Foi castigado da única maneira possível: ele é o seu próprio carrasco. Agora nem precisa beber: o horizonte enche-lhe os olhos, a solidão inunda-lhe a alma.» (p. 204)
Terceiro e último volume da trilogia histórica “As Areias do Imperador”, de Mia Couto.
Dando continuidade aos eventos do segundo volume, “O Bebedor de Horizontes” começa com uma fluidez impressionante. Ngungunyane, seu tio Mulungo, seu filho Godido, seu cozinheiro Ngó e sete esposas suas (de mais de 200 esposas) e o chefe mfumo Nwamatibjane Zixaxa e suas três esposas, feitos prisoneiros pelo capitão português Mouzinho de Alburquerque, rumam à Lourenço Marques, para depois seguir a viagem rumo à Lisboa. Nestas paragens, o Leão de Gaza será exibido como troféu de guerra, uma propaganda política engendrada por Portugal para provar a outros países europeus, principalmente a Inglaterra, a força da sua presença nas suas colónias em África. Faz presente nesta viagem, Imani, que serve como tradutora. E nesta longa viagem, personagens peculiares deixarão a sua marca.
Começando pelo próprio Mouzinho de Alburquerque que ganha grande destaque no início da trama. Vemos mais o seu desprezo pelos africanos e pelos brancos “cobardes”. Mouzinho não mede esforços para alcançar seus objectivos. É um homem de seus próprios princípios, o que lhe coloca em conflito com zeloso Álvaro de Andrea.
«Antes morrer livres que em paz sujeitos.» (p. 202)
Mas quem sobressai-se mais mesmo é a rainha Dabondi, uma das setes esposas do Ngungunyane. Uma mulher de personalidade forte e convicção inabalável. Ela é a luz no fim do túnel para Imani. Mas o destino será cruel com essas mulheres. Imani está grávida e a sua situação nesta epopeia não é uma das mais agradáveis, ostracizada pelos da sua própria raça por causa da sua alienação ao regime do dia e desprezada pelos portugueses por ser mais uma simples negra.
«O grande rei não é o que conduz o seu povo na guerra mas o que afasta a guerra para longe do seu povo.» (p. 195)
Como o segundo volume, Ngungunyane ganha mais espaço aqui. A trama toda gira em torno deste. O imperador é mostrado como sendo o seu próprio algoz. Um homem que perdera tudo e afoga as mágoas no vinho do Porto. Ngungunyane será, juntamente com os prisoneiros homens e com excepção das mulheres, deportado para as Ilhas de Açores onde na ociosidade caçará coelhos e contemplará o horizonte que o embriagará, daí o título “O Bebedor de Horizontes”.
«Nas cartas de amor a grande felicidade é receber a resposta antes mesmo de as escrever.» (p. 36 - 37)
A narrativa continua sendo alternada entre as vozes de Imani e Germano nas suas missivas, porém Imani é quem tem mais presença. Germano mal está presente aqui, o que de certa maneira me entristeceu mas é tudo justificável. Outras personagens, em um certo momento, ganham a voz para dar mais credibilidade à seus sentimentos, como o Zixaxa.
«Sucede sempre assim: os humilhados acabam por ficar iguais aos opressores.» (p. 108)
Devo dizer que eu estava errado quanto ao final deste último volume desta trilogia, Mia Couto mostrou que precipitei-me nas minhas previsões. A única coisa que me incomodou foi o salto temporal no final da narrativa, achei um final simplório demais para uma trilogia desta magnitude.
Enfim, como se diz, tudo que é bom tende a ter um fim. E é o fim desta impressionante trilogia moçambicana.
«Ser mãe é um verbo que não tem passado.» (p. 43)
OUTRAS CITAÇÕES:
«Não se amaldiçoa o lugar onde se acaba de chegar.» (p. 17)
«[...] deixamos de ver as coisas que se tornam demasiado nossas.» (p. 25)
«O que se passa, minha querida, é que a vida é caprichosa e não nos bastam os factos. As pessoas adoram uma boa narrativa. Na guerra não se defrontam apenas exércitos. Confrontam-se histórias.» (p. 27)
«Os idiomas são mulheres: namoram, engravidam e geram filhos.» (p. 48)
«As pessoas mentem, diz ele, a maior parte das vezes sem sequer o saber. Quando escrevem, elas mentem ainda mais. (...) No meu caso, a mentira é quase sempre apenas um erro de tradução.» (p. 54)
«É por isso que eu digo: as batalhas ganham-se com armas. Mas as guerras ganham-se com mentiras.» (p. 58)
«Não se pode virar costas a quem nos conhece as feridas.» (p. 60)
«A bravura, minha querida, não nasce de ser pensada. A coragem não mora no cérebro. Emerge das entranhas.» (p. 89)
«Não é dos que gritam que deves ter medo: era o conselho da minha mãe. Os verdadeiros malvados, dizia ela, nunca elevam a voz.» (p. 128)
«Às vezes, o único ato de coragem consiste em não fazer nada.» (p. 133)
«A única diferença entre ilusão e realidade é apenas uma questão de convicção.» (p. 177)
«Quem sofre mais? Aquele que espera para sempre ou quem nunca esperou por ninguém?» (p. 214)
AVALIAÇÃO: 9.9/10
______________
Review by: Manuel Gimo