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    O fio das missangas -

    Mia Couto

    Companhia das Letras
    2009
    152 páginas
    5h 4m
    ISBN-13: 9788535913811
    Português
    4
    1722 avaliações
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    A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas as missangas. É assim que o donjuanesco personagem do conto O fio e as missangas define a sua existência. Fazendo jus a essa delicada metáfora, cada uma das 29 histórias aqui agrupadas alia sua carga poética singular à forma abrangente do livro como um todo vale dizer, ao colar em questão. Com um texto de intensidade ficcional e condensação formal raras na literatura contemporânea, Mia Couto demora-se em lirismos que a sua maestria de ourives da língua consegue extrair de uma escrita simples, calcada em grande parte na fala do homem da sua terra, Moçambique, um pouco à maneira de Guimarães Rosa, ídolo confesso do autor. A brevidade das pequenas tramas e sua aparente desimportância épica estão focadas na contemplação de situações, de personagens, ou de simples estados de espírito plenos de significados implícitos, procedimento típico da poesia. Os neologismos do autor, a que os leitores já se habituaram, para além de mera experimentação formalista revelam-se chaves fundamentais de interpretação da leitura. Não por acaso, a maioria dos contos de O fio das missangas adentram com fina sensibilidade o universo feminino, dando voz e tessitura a almas condenadas à não-existência, ao esquecimento. Como objetos descartados, uma vez esgotado seu valor de uso, as mulheres são aqui equiparadas ora a uma saia velha, ora a um cesto de comida, ora, justamente, a um fio de missangas. Agora, estou sentada olhando a saia rodada, a saia amarfanhosa, almarrotada. E parece que me sento sobre a minha própria vida, diz a narradora de uma dessas belíssimas missangas literárias.

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    Anica Bitten07/02/2011Resenhou um livro
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    O fio das missangas (Mia Couto)

    O lado negativo de gostar muito de uma forma de narrativa é que o leitor faz dela sempre sua primeira opção de leitura. E aí, anos e anos depois, começa a encontrar dificuldade em se surpreender. O prazer da boa leitura ainda está lá, alguns textos são de fato excelentes. Mas falta aquele “algo a mais” que te faz pensar “Como é que não conheci esse escritor antes?”. Foi justamente o que aconteceu comigo ao ler O fio das missangas, de Mia Couto. Gosto muito de contos, mas a verdade é que há tempos não sentia essa sensação de descoberta, da inclusão de mais um nome da lista de favoritos de todos os tempos. A prosa de Couto é quase poesia. Nem tanto pelo ritmo, mais pelas imagens que evoca – o fantástico no cotidiano apresentado de maneira leve, suave. Muito cabe à interpretação do leitor, somada a verdadeiros quadros-ideias. Trata-se de algo que normalmente escritores só conseguem em um poema, como dá para ver na abertura do conto Inundação: "Há um rio que atravessa a casa. Esse rio, dizem, é o tempo. E as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente. Acredito, sim, por educação. Mas não creio. Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança." O estilo de escrita de Couto flui e é belo. Essa beleza ao ser lida equivale a contemplar um amanhecer ou um pôr-do-sol: é o cotidiano, mas cheio de mistérios. É simples mas lidando com sentimentos complexos. Cheio de silêncios que dizem muito. Há um equilíbrio entre o preso e a leveza, conduzido por personagens que poderiam ser qualquer um. A viúva de O cesto, Filipão Timóteo em A carta de Ronaldinho1, ou a matriarca de Enterro televisivo. Interessante também é que Mia Couto consiga ir além de uma representação de sua terra natal (Moçambique), fazendo histórias sem lugar, universais. Embora ele situe o espaço em um conto e outro, como em O novo padre, a verdade é que poderiam ocorrer em qualquer país, qualquer cidade. Mais do que isso, há uma certa familiaridade, como se algumas personagens já tivessem povoado histórias da nossa cultura, como acontece com o mulherengo do conto que dá nome ao livro, O fio das missangas. É esse conto que apresenta uma das passagens mais bonitas escritas por Couto: A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas, as missangas… A frase poderia também se encaixar ao ofício do escritor, sendo suas histórias as missangas. No caso de Couto e sua coletânea, são tantas, e tão lindas as missangas. Realmente apaixonante e imperdível. É sempre um prazer descobrir escritores que conseguem ir além da contação de histórias, mas usar as palavras como um pintor usaria sua tinta, fazendo do texto arte, pura e simplesmente.

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    António Emílio Leite Couto  profile picture

    António Emílio Leite Couto

    Além de ser considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique, ele é o escritor moçambicano mais traduzido. Em muitas das suas obras, Mia Couto tenta recriar a língua portuguesa com uma influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana. Terra Sonâmbula, o seu primeiro romance, publicado em 1992, ganhou o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995 e foi considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX por um júri criado pela Feira do Livro do Zimbabué. Em 2007, foi entrevistado pela revista Isto É. Presentemente é empregado como biólogo no Parque Transfronteiriço do Limpopo.

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    António Emílio Leite Couto