O Mal de Lázaro -

    Krishna Monteiro

    Tordesilhas
    2018
    176 páginas
    5h 52m
    ISBN-13: 9788584190621
    Português Brasileiro

    Numa trilha de terra, cruzando montanhas que conduzirão ao mar, a narradora vê a figura de um homem, a quem batiza de Lázaro. Doente e ferido, ele avança a passos lentos e é perseguido por uma multidão. A partir daí, o livro revela o drama de um homem que procurou se fechar ao mundo, mas que se viu forçado a confrontar vozes íntimas e dramas humanos. A história é contada pelos olhos de uma narradora cuja identidade é envolta em sombras que se clareiam em breves pistas ao longo da história. Inspirado pelo poema “A máquina do mundo”, de Drummond, O mal de Lázaro é uma fábula sobre dor, sofrimento e redenção que conta, na prosa elegante e poética de Krishna Monteiro, a história de um homem que se abre para o mundo apenas para vê-lo desmoronar.

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    Alexandre Kovacs01/05/2018Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Krishna Monteiro - O Mal de Lázaro

    Editora Tordesilhas - 176 Páginas - Lançamento: 26/01/2018. Krishna Monteiro escolheu para epígrafe do seu romance de estreia um trecho do poema "A Máquina do Mundo" de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), incluído em "Claro Enigma" de 1951 e eleito em 2000 o melhor poema brasileiro do século XX por um grupo de críticos e especialistas consultados pelo jornal Folha de São Paulo. A citação é bem mais do que uma mera referência estética porque, assim como no famoso poema de Drummond, o protagonista de "O Mal de Lázaro" se isolou do mundo ao longo da vida e tem uma possibilidade de retorno, revelação ou redenção, por meio da arte, em uma das possíveis interpretações do poema e do romance. No início, encontramos o protagonista caminhando por uma trilha "pedregosa" e com "passo seco" no "fecho da tarde", alegorias que remetem ao poema inspirador e resumem os percalços da sua vida. Ele é perseguido por uma multidão e, neste momento, é avistado por uma misteriosa mulher que será a narradora e o fio condutor de toda a trajetória em retrospectiva, não necessariamente em ordem linear, desde a infância até aquele momento. Não há pistas sobre o enquadramento dos personagens no tempo e no espaço, um primeiro sinal de que Krishna Monteiro está mais interessado em lidar unicamente com o comportamento humano, desprezando qualquer influência geográfica ou de época. Os personagens também não têm nome, exceto por Lázaro que é "batizado" desta forma pela narradora. Todas essas características, assim como as referências bíblicas, reforçam o tom de parábola que me fez lembrar em alguns momentos dos livros de José Saramago. O autor conseguiu obter um raro efeito com a alternância entre as vozes na primeira, segunda e terceira pessoas, apesar de utilizar uma única narradora (e um protagonista que não fala). Explico melhor: a narradora misteriosa faz valer o discurso narrativo direto e ativo na sua própria visão dos acontecimentos (primeira pessoa), enquanto uma inusitada condução dos fatos pelos "pretensos" diálogos que ela realiza com o protagonista Lázaro (segunda pessoa) é desenvolvida e, finalmente, uma descrição onisciente e passiva (terceira pessoa) devido ao conhecimento geral que ela parece dominar de toda a trama, por motivos que serão sugeridos ao leitor gradativamente, não quero adiantar aqui a minha própria interpretação. "Então é aqui que vives. Em frente a uma janela que se descortina sobre paisagens várias, distintas a depender do ângulo pelo qual se olha: uma praça e um beco, telhados encadeados, a solidez de um prédio logo à frente se elevando como divisa de alvenaria. Folhas da janela que se debatem sendo contidas, refreadas por tuas mãos, que as fecham e trancam, fazendo com que escureça o mundo e eu tateie cega atrás de ti. Por pouco tempo; pois as mesmas mãos nos reaproximam ao acender, recriar a luz. Então é aqui que habitas." (Pág. 21) Lázaro se fechou completamente ao mundo e a sua sensibilidade original foi esmagada por ter sido forçado a trabalhar em um matadouro desde pequeno, contudo, como simbolizado no poema de Drummond, existe uma possibilidade de redenção pela arte. Ele reproduz todas as noites, em desenhos e pinturas realistas, as expressões dos animais abatidos durante o dia, como se pudesse trazê-los de volta à vida: "Desenhas como quem guia o rebanho em sentido oposto ao dos que o arrastaram até o curral" (Pág. 88). O cuidado de Krishna com a construção do texto, seja nas passagens brutais que descrevem o trabalho no matadouro ou na descrição do vitral que representa a ressurreição de Lázaro de Betânia, inspirado em um quadro de Van Gogh, é pura poesia. "Antes de correr em feixes e pousar no extremo oposto da igreja, a luz se deixou coar pelo vitral. É uma peça única, isolada que destoa da austeridade de madeira e pedra de onde estamos. Seus fragmentos e cristalizações de vidro compõem a cena de um homem deitado numa gruta, enfaixado em trapos. Feridas secas lhe recobrem o corpo, e sua sepultura acabou de ser aberta. Ele acorda, cego pelo disco de sol pintado ao longe; olhar confuso para um mundo que pensava ter deixado para trás e tenta reconhecer duas mulheres aos seus pés ajoelhadas: uma delas, de vestido verde, estica para o alto os braços, dá graças pelo irmão ressuscitado; outra contempla a pele deste homem, que cicatriza sem deixar vestígios. (...) A luz cruza o vitral, fixado sobre a porta de entrada. Corre sobrepairando a extensão de um espaço que seria vazio não fosse minha presença, e a tua, e a do padre aqui. O sacerdote limpa os olhos, arruma vestes e paramentos. Contempla o outro extremo e percebe que, atrás da esfera de sol que domina a cena pintada em vidro, outro sol se ergue; e vê assim dois sóis se alinharem, um elevado por pincéis e mãos, outro de matéria incandescente e viva." (Pág. 53) À medida que a sensibilidade artística de Lázaro parece retornar, avança, ao mesmo tempo, a doença provocada pelo toque da narradora em suas mãos: "o mal de Hansen, o mal do estigma, a lepra, o mal de Lázaro" (Pág. 82). Ele começa a ouvir vozes e sons que simbolizam a sua abertura ao mundo, um processo doloroso que ele descobre poder interromper ao reproduzir em seus desenhos a origem desses sons. Na cidade, corre a novidade do suposto milagre provocado por Lázaro ao trazer de volta à vida um mendigo no mercado. As pessoas buscam a sua ajuda para amenizar os próprios problemas representados por "ruídos vindos de longe" e ele consegue algum tipo de alívio temporário para todos com seus desenhos, novamente aqui o simbolismo da cura pela arte. "Dizem os versados na ordem natural das coisas que os sons são ondas. Propagam-se pelo ar segundo as mesmas leis de anéis concêntricos da pedra que perfura a água. O homem que fala é pedra. Ao falar, fura o ar como se fosse água; ao arremessar no mundo o peso de sua voz ela se irradia e alastra, ouvida primeiro por aqueles que junto dele vivem, depois em casas e ruas adiante, e talvez além, nas praças e bairros próximos, captada por homens com audição mais fina; depois decrescerá de amplitude, suas vibrações deixando-se fundir ao ar. Não cessará a voz de existir porém: aos cães, aos pássaros, a todos os seres de sentido aguçados ela ainda se permite. E o homem que gritou já há alguns minutos e que calado esqueceu em meio a outros afazeres a razão da própria raiva não pode imaginar que ele, que seu grito, que ale ainda percorre a terra, atravessando o espaço, captado não mais na cidade, pois a abandonou faz tempo, mas sim por roedores e seres das campinas, que fogem julgando haver um inimigo ali; mas pouco a pouco até mesmo àqueles não mais será dado ouvir." (Pág. 67) O autor repete neste livro a prosa bem construída já presente na sua antologia de contos "O que não existe mais", finalista do Prêmio Jabuti na categoria Contos em 2016. "O Mal de Lázaro" é um romance repleto de simbolismos e múltiplas interpretações, definitivamente uma leitura nada simples e que exige atenção redobrada do leitor, porém muito recompensadora porque incomoda e faz pensar, tudo o que esperamos de um bom trabalho de literatura.

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