O Senhor do Caos foi o maior livro que já li, mas não se assustem com as suas 1.072 páginas. Muita coisa acontece neste livro, então a leitura acaba fluindo muito bem. Quando você termina se custa a acreditar que ele tinha todo esse tamanho.
Logo que iniciei o livro, estava preocupada se conseguiria controlar as expectativas a ponto de não prejudicar a leitura, por isso até cogitei intercalá-la com outras histórias. Mas afinal não tive esse tipo de problema, porque enquanto estava lendo não consegui por nada olhar para outro livro. Há um prazer especial quando se está lendo a sua série favorita, então logo a princípio esqueci das expectativas e facilmente me deixei escorregar para dentro desse mundo que tanto gosto.
Se você não leu As Chamas do Paraíso, pule os dois próximos parágrafos, porque conterão spoilers dos livros anteriores :)
A Torre Branca está dividida. De um lado temos Elaida com a estola da Amyrlin comandando a Torre remanescente. Do outro, em Salidar, as Aes Sedai que se rebelaram contra a atitude da vermelha permanecem sob a ocasional liderança de Sheriam, mas sem uma Amyrlin para fortalecê-las e guiá-las. Missões diplomáticas das duas partes seguem a procura de Rand, com intenções duvidosas e incertas. Enquanto isso, com a ajuda de Mat, que lidera o Bando da Mão Vermelha, Rand divide suas atenções entre Caemlyn e Caerhien, esperando Elayne retornar para lhe entregar o Trono do Leão, ao mesmo tempo em que junta forças para enfrentar Sammael em Illian.
Nynaeve e Elayne permanecem em Salidar, surpreendendo a todos com os seus feitos e descobertas, mas ninguém desconfia que tudo isso provém do conhecimento de Moghedien, a abandonada que foi capturada e aprisionada por Nynaeve, com um a’dam criado por Elayne. Já em Dois Rios, após um tempo longe dos holofotes, finalmente Perrin sente a influência e os puxões fortes de ta’veren do Dragão Renascido. Ele sabe que precisa ir ao seu encontro.
Conforme a história se expande, ela ganha inúmeras vozes, por isso teremos muitos POVs presente neste livro. Cada um foi muito bem distribuído e contribuiu para equilibrar os vários enredos de uma história que se torna cada vez mais complexa.
De forma geral, pouquíssimos personagens me tiraram do sério neste episódio (já que Faile preencheu toda a cota do papel insuportável), o que acho isso incrível, porque criticar alguns deles como Mat, Egwene e Elayne já havia se tornado característico da minha parte. Não só eles, mas a maioria demonstra um bom ponto de vista e uma boa evolução. Em determinados momentos, a trama me emocionou e me fez ficar muito orgulhosa dos meus cinco bebês de Dois Rios. Eles estão crescendo, amadurecendo e assumindo posicionamentos que os destacarão perante os conflitos que se aproximam, até o temido e ao mesmo tempo esperado Tarmon Gai’don.
Ouso dizer que de todas as jornadas do herói que já tive o prazer de acompanhar, Rand representa tudo aquilo que eu espero de um personagem central. Ele assume a sua posição e consequentemente as responsabilidades que vem com ela. Não espera que os outros digam o que ele precisa fazer, não se esquiva e age de acordo com o que acha certo, usando tudo e todos para alcançar o seu objetivo, inclusive a si mesmo. Não que ele seja um personagem pronto, e nós temos aqui alguns exemplos de decisões equivocadas que ele toma; mas é um personagem que está em frequente evolução, e esta é muito interessante de acompanhar.
"Depois de erguer a montanha nos ombros, a única opção era sustentá-la com firmeza: não havia como deitá-la outra vez no chão. E também não havia mais ninguém que pudesse carregá-la em seu lugar".
Egwene e Nynaeve também protagonizaram ótimos momentos e realizaram grandes ações. Egwene, desde As Chamas do Paraíso vem amadurecendo bastante, e sua jornada em especial neste livro foi uma das coisas que mais me impressionou. Já Nynaeve começa a brilhar com seus dons de curandeira, e cada vez mais me sinto animada para acompanhar a sua evolução como personagem, que está demorando sim, mas compreendo pelo seu temperamento forte. Afinal, Nynaeve e temperamento forte é quase um eufemismo.
Um ponto interessante é que neste volume nos aproximamos um pouco mais dos Abandonados e até mesmo de Shayoul Ghul. Foram capítulos interessantes, e eu me peguei gostando até mesmo dos antagonistas, de tão bem construídos que eles são. Apesar de ambiciosos, loucos e cruéis, eles são indiscutivelmente divertidos. I’m sorry.
Não posso deixar de destacar o quanto gosto da narrativa eficiente e descritiva de Robert Jordan. Entendo enquanto alguns criticam por ele “enrolar” um pouco, mas eu adoro toda a construção que ele faz em torno de uma cena antes de aprofundá-la. Você é capaz de se localizar através dessas descrições, sem que o autor precise dizer exatamente onde a história está. Fora que fica muito fácil visualizar a riqueza do seu mundo através dessa narrativa, e eu adoro muito isso.
As intrigas políticas continuam fortemente presentes, tomando grande parte da trama. Por consequência disso, para alguns, pode ser que a narrativa se mostre lenta em determinados momentos. Mas não se desespere, porque mesmo que você não perceba, as tramas estão sendo constituídas fio a fio, até que tudo começa a se amarrar e fazer sentido.
E para complementar ainda mais. Que hino de final foi esse? Jordan nunca decepciona com o clímax e os seus finais, geralmente carregados de batalhas e acontecimentos épicos. Mas desta vez, ele apresenta um dos melhores finais até aqui, que se equipara facilmente com o grande desfecho de A Grande Caçada. Fiquei apreensiva, nervosa e ao mesmo tempo muito surpresa com tudo o que aconteceu. Terminei a última página arrepiada e em estado febril. Asha’man, matem! Sim, sou cruel e vou largar isto aqui rs.
Mesmo tentando apontar um pouco de tudo o que achei interessante neste sexto volume, ainda finalizo esta resenha com o sentimento de que falta muita coisa para demonstrar o quanto ele foi incrível. Como disse a princípio, muita coisa acontece, a história se expande, toma rumos inesperados e começa nos dar alguns vislumbres de tudo o que está por vir, o quanto ela promete se tornar ainda mais épica.
O Senhor do Caos está entre os melhores livros da série entre os seis lançados aqui, e com toda certeza, é o melhor livro que li em 2018. Simplesmente não sei mais o que fazer para recomendar essa série incrível. Leitor de fantasia, apenas leia.
"A torre imaculada se divide e se ajoelha perante o símbolo esquecido.
Os mares seguem em tormenta e nuvens de tempestade se armam incógnitas.
Além do horizonte, chamas escondidas se avolumam e serpentes se aninham em seu seio.
O que foi exaltado é rechaçado, o que foi rechaçado é elevado.
A ordem queima para abrir caminho para ele".