Hamlet, de William Shakespeare, é uma obra clássica permanentemente atual pela força com que trata de problemas fundamentais da condição humana. A obsessão de uma vingança onde a dúvida e o desespero concentrados nos monólogos do príncipe Hamlet adquirem uma impressionante dimensão trágica. Nesta versão, Millôr Fernandes, crítico contumaz dos "eruditos" e das "eruditices" que – nas traduções – acabam por comprometer o sentido dramático e poético de Shakespeare, demonstra como o "Bardo" pode ser lido em português com a poderosa dramaticidade do texto original. Aqui, Millôr resgata o prazer de ler Shakespeare, o maior dramaturgo da literatura universal, em uma das suas obras mais famosas.
Hamlet | Romeu e Julieta (Os Grandes Clássicos) -
William Shakespeare
Hamlet - William Shakespeare
Uau, que leitura incrível! Eu gostei mais de Hamlet em comparação com a peça de Romeu e Julieta. Essa obra é simplesmente maravilhosa, um tanto melancólica e cheia de drama e reflexões profundas sobre a brevidade da vida, mostrando-nos que no final de tudo, o que nos espera é apenas o esquecimento. "A vida é uma guerra e uma viagem ao estrangeiro, e depois da fama está o esquecimento." "Porque todas as coisas logo passam e se tornam um mero conto, e o esquecimento completo logo as enterra. E digo isto daqueles que brilharam de uma maneira maravilhosa. Pois o resto, assim que eles sopram seu último fôlego, eles se vão, e nenhum homem fala deles." "Tudo é efêmero, tanto quem se lembra como o que é lembrado." – Marco Aurélio Quotes ✍🏻📚❤️ Polônio: Pode deixar, senhor, serão tratados como merecem. Hamlet: Que é isso? Trate-os melhor. Se tratarmos as pessoas como merecem, nenhuma escapa ao chicote. Trata-os da forma que consideras tua própria medida. Quanto menos merecerem, mais meritória será tua generosidade. [...] Hamlet: Ser ou não ser – eis a questão. Será mais nobre sofrer na alma Pedradas e flechadas do destino feroz Ou pegar em armas contra o mar de angústias – E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir; Só isso. E com o sono – dizem – extinguir Dores do coração e as mil mazelas naturais A que a carne é sujeita; eis uma consumação Ardentemente desejável. Morrer – dormir – Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo! Os sonhos que hão de vir no sono da morte Quando tivermos escapado ao tumulto vital Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão Que dá à desventura uma vida tão longa. Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, A prepotência do mando, e o achincalhe Que o mérito paciente recebe dos inúteis, Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso Com um simples punhal? Quem aguentaria fardos, Gemendo e suando numa vida servil, Senão porque o terror de alguma coisa após a morte – O país não descoberto, de cujos confins Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade, Nos faz preferir e suportar os males que já temos, A fugirmos pra outros que desconhecemos? E assim a reflexão faz todos nós covardes. [...] Hamlet: Vai prum convento. Ou preferes ser geratriz de pecadores? Eu também sou razoavelmente virtuoso. Ainda assim, posso acusar a mim mesmo de tais coisas que talvez fosse melhor minha mãe não me ter dado à luz. Sou arrogante, vingativo, ambicioso; com mais crimes na consciência do que pensamentos para concebê-los, imaginação para desenvolvê-los, tempo para executá-los. Que fazem indivíduos como eu rastejando entre o céu e a terra? Somos todos rematados canalhas, todos! Não acredite em nenhum de nós. Vai, segue pro convento. [...] Hamlet: Não creia que eu o lisonjeio; Que vantagens posso tirar de ti Que não tens pra te vestir e comer Outra renda que não a de teus dotes de espírito? Por que lisonjear o pobre? Não; a língua açucarada deve lamber somente a pompa extrema, E os gonzos ambiciosos dos joelhos dobrar apenas Onde haja lucro na bajulação. (...) Desde quando minha alma preciosa se tornou senhora de vontade própria, E aprendeu a distinguir entre os homens, Ela te elegeu pra ela. Porque você foi sempre uno, Sofrendo tudo e não sofrendo nada; Um homem que agradece igual Bofetadas e carícias da fortuna... Felizes esses Nos quais paixão e razão vivem em tal harmonia Que não se transformam em flauta onde o dedo da sorte Toca a nota que escolhe. Me mostra o homem que não é escravo da paixão E eu o conservarei no mais fundo do peito, É, no coração do coração – o que faço contigo. [...] O que a nós na paixão foi por nós prometido Terminada a paixão perde todo o sentido. O mundo não é eterno e tudo tem um prazo Nossas vontades mudam nas viradas do acaso. A vida faz o amor, ou este faz a vida? O ser de cujo bem-estar dependem – e no qual repousam – Tantas vidas. Quando se extingue um soberano Ele não morre só. Como o vórtice de um redemoinho Atrai pro abismo tudo que o rodeia. É uma roda maciça, Fixada no pico da montanha mais alta, Em cujos raios enormes dez mil coisas menores Vivem incrustadas ou grudadas; e aí, quando ela cai, Cada pequeno anexo, diminuta dependência, Acompanha a queda tonitruante. Quando um rei suspira, o reino inteiro geme. Pra que serve a piedade, senão para apagar a face do delito? É possível ser perdoado retendo os bens do crime? Nas correntes corruptas deste mundo As mãos douradas do delito podem afastar a justiça – Como tanto se vê – o próprio lucro do malfeito Comprando a lei. Mas não é assim lá em cima; Ali não há trapaças. Lá a ação se mostra tal qual foi, E nós, nós mesmos, somos compelidos a prestar testemunho, Olhando nossas culpas no dente e no olho. [...] Rainha: Oh, Hamlet, você partiu meu coração em dois. Hamlet: Pois joga fora a pior parte dele, E vive mais pura com a outra metade. [...] Simula uma virtude, já que não a possui. Nós engordamos todos os outros seres pra que nos engordem; e engordamos pra engordar as larvas. O rei obeso e o mendigo esquálido são apenas variações de um menu – dois pratos, mas na mesma mesa; isso é tudo. Um homem pode pescar com o verme que comeu o rei e comer o peixe que comeu o verme. O que é um homem cujo principal uso e melhor aproveitamento Do seu tempo é comer e dormir? Apenas um animal. É evidente que esse que nos criou com tanto entendimento, Capazes de olhar o passado e conceber o futuro, não nos deu Essa capacidade e essa razão divina Para mofar em nós, sem uso. (...) nós sabemos o que somos, mas não o que seremos. A natureza é sutil no amor e, nessa sutileza, Sacrifica um pedaço precioso de si própria Àquele a quem ama. A mãe de Hamlet Vive praticamente por seus olhos. E quanto a mim – Virtude ou maldição, seja o que for – Ela está em tal conjunção com minha alma e minha vida, Que, como uma estrela presa à sua órbita, Eu só sei me mover em torno dela. (...) o amor se constrói com o tempo. [...] Primeiro Coveiro: Quem é que constrói mais forte do que o pedreiro, o engenheiro e o carpinteiro? Não maltrata mais teu cérebro, pois um burro burro não fica esperto com pancada. Quando te fizerem essa pergunta uma outra vez, responde logo: “O coveiro”. As casas que ele constrói duram até o Juízo Final. [...] Na mocidade eu amava e amava; Como era doce passar assim o dia Encurtando (ô!) o tempo (ah!) que voava E eu não via a vida que fugia. E a velhice chega bem furtiva Na lentidão que tarda, mas não erra E nos atira aqui dentro da cova Como se o homem também não fosse terra. (Descobre um crânio.) Hamlet: Esse crânio já teve língua um dia, e podia cantar. E o crápula o atira aí pelo chão, como se fosse a queixada de Caim, o que cometeu o primeiro assassinato. Pode ser a cachola de um politiqueiro, isso que esse cretino chuta agora; ou até o crânio de alguém que acreditou ser mais que Deus. (Desenterra outro crânio.) Hamlet: Mais um! Talvez o crânio de um advogado! Onde foram parar os seus sofismas, suas cavilações, seus mandatos e chicanas? Por que permite agora que um patife estúpido lhe arrebente a caveira com essa pá imunda e não o denuncia por lesões corporais? Hum! No seu tempo esse sujeito talvez tenha sido um grande comprador de terras, com suas escrituras, fianças, termos, hipotecas, retomadas de posse. Será isso a retomada final de nossas posses? Vê só: Alexandre morreu; Alexandre foi enterrado; Alexandre voltou ao pó; o pó é terra; da terra nós fazemos massa. Por que essa massa em que ele se converteu não pode calafetar uma barrica? Cesar Augusto é morto, virou terra; Pôr o vento pra fora é sua guerra – O mundo tremeu tanto ante esse pó Que serve agora pra tapar buraco – só. Fui impulsivo, Mas louvada seja a impulsividade, Pois a imprudência às vezes nos ajuda Onde fracassam as nossas tramas muito planejadas. Isso nos deveria ensinar que há uma divindade Dando a forma final aos nossos mais toscos projetos... A vida de um homem é só o tempo de se contar “um”. Existe uma previdência especial até na queda de um pássaro. Se é agora, não vai ser depois; se não for depois, será agora; se não for agora, será a qualquer hora. Estar preparado é tudo. Se ninguém é dono de nada do que deixa, que importa a hora de deixá-lo? Seja lá o que for!
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