Uma história familiar prestes a ser relembrada e resgatada. Em busca de suas origens, Daniel tenta reconstituir a história da mãe, uma guerrilheira desaparecida na ditadura civil-militar no Brasil. As tentativas de reconstruir a sua história pessoal junto à história do seu país e os fios de memória rompidos moldam a narrativa. Ao buscar informações sobre a mãe, surgem outras histórias, ou outras possibilidades de histórias, também desaparecidas, de tantas mulheres. Claudia Lage fez um livro sobre a ausência e também sobre a escrita, essa (im)possibilidade de se reinventar e se refazer por meio das palavras.
O corpo interminável -
Claudia Lage
Edições (1)
Ver maisA notável densidade da ausência
A ficção é uma forma de preenchimento da memória. Em um país como o nosso, sem ela, o passado seria uma espécie de névoa: sempre nebuloso e com pouca visibilidade. A escritora Claudia Lage começou a trabalhar em O corpo interminável em 2011. Esse também foi o ano tardio de criação da polêmica Comissão Nacional da Verdade, órgão governamental temporário que atuou até 2014 e tirou do esquecimento uma parte dramática da nossa história, marcada principalmente pela violência. O pontapé inicial para a existência do livro, como a autora já declarou em muitas entrevistas, foi o choque causado por uma foto vista na internet, da época da ditadura, de uma mulher nua e morta. O estranho sentimento gerado pela imagem resultou muitos questionamentos em Claudia, que resolveu trabalhá-los na ficção. O resultado é este livro singular dentro da produção nacional contemporânea, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2019. A escolha por uma polifonia narrativa, calcada na imprecisão dos fragmentos apresentados, é de uma coragem que merece ser destacada. Com diálogos em texto corrido, sem sinalização através de travessões ou aspas, mergulhamos na necessidade da urgência das palavras. Para ajudar, Claudia divide essa investigação sobre nosso passado recente em pequenos capítulos, facilitando a absorção das informações. Aliás, o livro é bem metalinguístico, refletindo bastante sobre o papel da escrita como forma de consciência e sobre a notável densidade da ausência de uma vida em outras vidas. Em O corpo interminável, o quebra-cabeça da vida de Daniel, nosso narrador principal, está para ser desvendado. E a acertada escolha da autora em montar esse passado com peças distintas - Melina, sua namorada, que carrega consigo um passado tão intransponível quanto o de Daniel; o avô do narrador, espécie de passado físico que compartilha as mesmas perguntas do neto; Dona Jandira, vizinha misteriosa que guarda um segredo de Daniel; Olívia, personagem que enlaça o passado do narrador, filha do importantíssimo José Antônio Guimarães, pai de Daniel - torna este romance uma obra realmente peculiar dentro da literatura contemporânea. É um exercício cerebral da autora, que permite, com maestria, que os leitores unam a poeira dos vestígios da história junto com as personagens. Com uma escrita corrompida pela realidade, Claudia Lage propõe aos leitores uma reflexão sobre a nossa indiferença para com o passado, seus reflexos no presente e suas consequências no futuro. Afinal, talvez o corpo interminável do título seja essa relativa ideia que temos do passado, que nunca deixa de assombrar as sociedades, principalmente a brasileira, sempre à mercê dos aproveitadores de ocasião. O corpo interminável foi uma das gratas surpresas deste ano e tornou-se uma indicação fácil para quem, assim como eu, gosta de uma história com profundidade que não esquece da importância do papel social da literatura, cada vez mais relevante em um mundo indecifrável que despreza a memória e idolatra o instante.
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