Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2019 na categoria Contos. O doce e o amargo aborda temas tabus, tratados com delicadeza. A qualidade dos contos é vista em todas as frases, construídas de forma natural, mas criando poderosos efeitos. Os diálogos são ágeis e precisos. Há constantes reflexões percorrendo o texto, que nos atraem para o interior da narrativa e dos personagens, mantendo um tom ao mesmo tempo violento e suave. O tema é universal: a morte e seus correlatos, em contraposição a um tênue amor. Há excelentes metáforas, e o texto evita bravamente qualquer lugar-comum. As conexões criam uma linha narrativa que não se rompe; a coerência interior é tal que torna o livro, em cada conto e como um todo, uma trama indissolúvel, mesmo que atravessada por extremos: o pesado e o leve, o onírico e o real, o doce e o amargo.
O doce e o amargo -
João Gabriel Paulsen
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Em 16 anos, o Prêmio SESC de Literatura tornou-se um dos principais concursos literários do país, em especial, graças a uma peculiaridade ? é dedicado a autores estreantes ? e entre seus vencedores destacam-se Luísa Geisler, Juliana Leite e José Almeida Júnior. No ano de 2019, o livro de contos premiado foi ?O Doce e o Amargo?, de João Gabriel Paulsen, um mineiro de apenas 19 anos que é estudante de Filosofia na Universidade Federal de Juiz de Fora. Totalizando nove, esses contos são o resultado das vivências do escritor que afirma ter ficado surpreso de como eles conseguem expor seu lado mais íntimo. Particularmente, ao trazerem à luz situações-limite, suas histórias me parecem mais amargas do que doces. Ou melhor, são homeopaticamente açucaradas e inclementes com o leitor, já que ao fugirem do lugar-comum, não fazem concessão a finais felizes e revelam uma boa dose de violência física e psicológica. Cercados de referências literárias, eles também revelam um escritor que não teme colocar o dedo na ferida, tocando em assuntos penosos, alguns considerados tabus. Por sinal, alguns temas se repetem tanto ao longo do livro como também numa mesma narrativa e entre eles estão a morte, o vazio existencial, a tensão entre gerações e os conflitos resultantes dos ritos de passagem. Apresentando ora narradores oniscientes, ora narradores em primeira pessoa ? a maioria jovens do sexo masculino ?, os contos formam um interessante conjunto, nenhum destoa nem se sobressai, portanto fica a critério pessoal escolher os preferidos. O meu é o primeiro da lista, As Palavras, que faz uma interessante abordagem: Pode ser o pesadelo mais real do que a vigília? Ou é a realidade um pesadelo? Também gostaria de destacar: * Bicicleta ou Viver Para Sempre: Uma fatalidade coloca à prova ideia de eternidade. * A cruenta maneira de limpar a sujeira de O Ódio ou Pais e Filhos. * A Dor: Discorre sobre a depressão e a necessidade de tratamento. * Des(Encontro): Versa sobre uma aguardada visita que mais dia menos dia baterá à porta. Os demais são: A Mentira, A Paixão ou Os Dois, Des(Amordesespero) ou Sonhos de Uma Noite de Verão, e Uma Cinzenta Manhã Na Vida Sem Graça de Um Jovem Comum. Finalmente, numa entrevista para O Globo em 13/06/3019, Paulsen traça uma interessante análise sobre seu processo de criação que cai sob medida para encerrar meu comentário: ?É igual à história dos "Seis personagens à procura de um autor" do (Luigi) Pirandello: o personagem vem, te cutuca e não dá sossego até você escrever ? diz o autor arrematando em tom místico: ? Sou um médium entre histórias que não existem e um papel?. Nota: Adquiri o e-book e recomendo.
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