Logaritmosentido -

    Fernando Andrade

    Editora Penalux
    2019
    86 páginas
    2h 52m
    ISBN-13: 9788558335959
    Português Brasileiro

    Sinopse: Pouco ou quase nada está em segurança neste novo livro de Fernando Andrade. Melhor assim. O que o leitor encontrará nas narrativas breves de Logaritmosentido é uma espécie de reinvenção do olhar para a cidade e para as relações entre os cidadãos, passando sempre pela fabulação e pela linguagem. Tais cidadãos podem ser números que esperam alguém chamado zero para construírem um muro, uma criança que enche um balão e o deixa voar no espaço como ato político, suicidas que antes de se jogarem de uma marquise avisam que estudaram filosofia, pedras que sofrem de fadiga ou um homem chamado Kall que sente raiva de quem apenas passa pela praça, sem enxergá-la como um lugar com sua existência própria, digna de ser habitada. É assim que a grande morada desse livro é a linguagem e a imaginação. Leonardo Villa-Forte

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    Krishnamurti Góes dos Anjos01/08/2020Resenhou um livro
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    LOGARITMO SENTIDO - Por Krishnamurti Góes dos Anjos

    Embora nem sempre tragam explicações e/ou justificativas, os títulos dos livros sempre nos causam curiosidade, sobretudo quando incomuns, e mais ainda quando um livro de contos (contos minimalistas diga-se), estampa na capa um termo da matemática. “Logaritmo sentido” é o título do último livro do escritor Fernando Andrade. Ora; bem sabemos que em matemática, o logaritmo de um número é o expoente a que outro valor fixo, a base, deve ser elevado para produzir este número. Exemplo elementar; o logaritmo de 1.000 na base 10 é 3 porque 10 elevado ao cubo, igualzinho a 1.000. Sim, mas e daí? Daí que o bicho homem sempre inquiridor, embora nem sempre se preste a assimilar de fato o que ele mesmo descobre, andou pesquisando outras conexões matemáticas nessas nossas vidinhas efêmeras. Ernst Heinrich Weber (1795–1878) foi um dos primeiros a fazer uma aproximação ao estudo da resposta do ser humano a um estímulo físico de uma maneira quantitativa. Tentou, e demonstrou em parte, que existe uma relação de base logarítmica entre a magnitude física de um estímulo e a intensidade do estímulo que é percebido. E outro doido, um tal de Hick, (olha que nessa batida vamos descambando para a psicologia), percebeu que os logaritmos estão incluídos em diversas leis que descrevem a percepção humana. Ao propor uma relação logarítmica entre o tempo para os indivíduos escolherem uma alternativa e o número de opções que eles possuem para decidir. E, de avanço em avanços, já a Psicofísica, hoje propõe uma relação logarítmica entre estímulo e sensação. Estas reflexões nos ocorrem após a leitura de “Logaritmo Sentido”, e somos forçados a concordar com a prefaciadora do volume, a escritora Clarissa Macedo ao afirmar que o autor “brinca com o conceito matemático e uma possível ordenação – caótica – das coisas”, porque há realmente uma variedade de arranjos textuais no livro que nos inclinam a admitir que Andrade realmente tenta perquirir a condição humana sobre aspectos muito variados, tanto no que diz respeito à construção propriamente dita de suas histórias, como quanto ao emprego da língua que em certos momentos é subvertida em benefício de novas compreensões e possibilidades de interpretação. Ocorre justamente o que Clarissa Macedo observa: Há uma “mescla de narrações, não se sabe bem se contos ou se relatos, com poemas de inclinação narrativa ao final do livro, a/o leitora/or irá se deparar com uma tonalidade de humor, diluída em definições jocosas, nomes oriundos de outros idiomas, presença de referências ao cinema e ao teatro e questionamentos em diálogos mentais e entre as personagens.” Veja-se o exemplo que se colhe logo no início da obra de clara inspiração matemática a dizer-nos tanto de nossa sociedade, de nossos comportamentos e interesses: 1+1 à espera do zero. Um e dois tinham acabado de chegar. Vieram a nado por águas nem tão calmas. Dizem que tudo que é sólido desmancha no ar. Já que eles estavam imersos em substância aquosa, suas corporeidades ainda latiam nas circunstâncias das vizinhanças. Os dois na semântica de 1+1 estavam a fazer um trabalho ali naquele brejo brejeiro. Esperavam o zero que ia ajudar a levantar o muro. Tudo se deve começar do zero, por isso, a necessidade de espera-lo para colocar tijolos-argamassa-tijolos-argamassa num ritmo matemático e aritmético. 1+1. Ali nos confins do nada havia uma zona que era chamada de limite. Tanto que o capataz quando chegou com os tijolos no caminhão falou para um: limite-se a fazer o muro sem furos. Um reclamou para dois que zero tinha a visão do outro lado. Ele saberia tapar o espaço entre a zona esquerda e a zona direita, já que os dois tinham o pensamento da obstrução do espaço, pois dois atingem largura, comprimento, horizonte. 1+1. Era como se a ausência do zero botasse tudo a perder com a implantação daquele muro. Tanto que um xingou zero “Seu – à esquerda”. Foi exatamente neste momento que o zero adentrou o espaço pela direita trazendo dois belos tapa-olhos. Zero disse aos dois: “Trapaça de olho é trabalho”. Visão (de) forma muro. Toda escuridão é proficiente. Um e dois iam e viam, ou melhor, vinham pegar os tijolos e iam montando o muro tão fácil como fazer de olhos zerados, enquanto zero lia caderninhos de pornografia.” Tenhamos em mente que o autor é jornalista, poeta, e crítico literário (tendo inclusive publicado quatro livros de poesia). E em suas narrativas a veia poética pulsa com vigor e incide justamente naquele aspecto apontado pelo editor Tonho França nas orelhas da obra: “uma linguagem volátil, indeterminada, que perde a segurança e se questiona sobre a estabilidade do mundo. E de fato, ao virar as páginas, adentramos a construção de um universo próprio, bem humorado, quase surreal, onde o verbo pode ser um objeto pontudo, fino e agudo, e também uma massa de modelar.” Com efeito, os textos de Andrade são peças bastante específicas, e procuram ir direto ao ponto. É um gênero que vem ao encontro de nossa vida louca: de nosso culto à velocidade, de nossa cultura do impacto. Com poucas palavras (como acontece na maioria dos textos) um contexto e uma ação são apresentados em torno do pouco que é revelado, e em assim sendo, mais importante que mostrar é sugerir, deixando ao leitor a tarefa de "preencher" as elipses narrativas e entender a história por trás da história escrita. Concisão, narratividade (muitos dos ditos minicontos são, na verdade, tiradas líricas), subtextos e ausência de descrição. Retratos de "pedaços da vida" se poderia afirmar. Também se escreveu sobre esses textos do Logaritmo Sentido que há a busca de um caos que “desorganiza nossos fluxos mais imediatos de expectativa e nos precipita, lançando-nos, num outro arranjo lógico.” Veja-se esse belo texto que é “O despertar do galo” “Talvez, ao sinal do despertar, do abrir os olhos”. O galo cantando logo ao alvorecer, cisca o terreiro. “Indo ao galinheiro para fazer o quê”? Mas logo quando se ia se ajeitando com a claridade do quarto, a cena era deslocada para Dona Isabela, com as mãos firmes no pescoço de uma galinha e na outra mão uma faca. Via o lento movimento do gesto, a mão segurando o corte: o embate da lâmina no pescoço da ave. “Porque galos não morrem degolados numa certa hora da manhã”? A tina, cheia de sangue e no ar dançando feito uma bailarina morta, a galinha sem vida. “O galo cisma o galo cisca, onde está o galo numa hora desta” “A hora da manhã na qual o terço é visto, onde mãe e pai iniciam uma breve novena”. Saio da cama com manchas de sangue nos olhos. Talvez tenha socado o olho durante a noite num movimento involuntário. A prece do dia é antes fazer a higiene pessoal, lavar as mãos, escovar os dentes, e cortar os pelos do nariz. Ir à cozinha e ver Dona Isabela amparada com a barriga no enorme tacho sobre o fogo aventureiro. A que pequenas distâncias se cometem crimes logo no desjejum. Eu sendo abençoado pela mãe, que pergunta: “Dormiste bem, filho”? O pai no breviário do pouco à mesa, já em contato com as obrigações do pátrio. Caras de serviçais procurando ordens já na porta do alpendre. “Hoje tem galinha à cabidela”. “Não gosto muito” “Você sempre comeu” “Acho que enjoei”. Dona Isabela me olhando de rabo de olho e dizendo o Galo botou despertador atrasado. A palavra que me vem é a do padre Estevão, que diz que manhã começa na ritualização da rotina. Imagens me vem. Batina, Sacristia, Hóstia, Tia, Pia batismal. Vou para o quarto e abro a janela para a paisagem de uma cerejeira em flor. Desço da janela. Ali naquele lugar, entre o jardim e um córrego costuma ficar em posição de buda um lagarto todo escamado, um ser entre a terra batida do jardim e a água corredeira do córrego. Ele está lá, imóvel. Numa nota de escárnio, põe a todo momento a língua para fora. Costumo contar até cem na sua frente. Textos dessa natureza, com essa “pegada” de possíveis interpretações, servem em boa medida de ampliação dos horizontes de expectativas porque estimulam o senso crítico do leitor e servem como espaço de reflexão, por representar a experiência humana dentro da perspectiva dos dificílimos dias que atravessamos. Livro: “Logaritmo sentido”, Contos de Fernando Sousa Andrade – Editora Penalux – Guaratinguetá – São Paulo – SP, 2019, 84 p. - ISBN: 978-85-5833-595-9 Link para compra e pronta entrega: https://www.editorapenalux.com.br/loja/logaritmosentido

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