'As Histórias da Preta' falam de um povo que veio para o Brasil à força. Homens, mulheres e crianças que foram arrancados de suas terras e tiveram de trabalhar como escravos. Perderam toda a liberdade, sofreram muito. No entanto, sobreviveram à escravidão e acabaram fazendo do Brasil sua segunda casa. Como é ser negro neste país? Faz diferença ou tanto faz? Reunindo informação histórica, reflexão intelectual, estímulos ao exercício da cidadania e historinhas propriamente ditas (tiradas da mitologia africana, por exemplo), a autora fala sobre a população negra no Brasil, com a experiência de quem já foi alvo de racismo.
Histórias da preta -
Heloisa Pires Lima
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Li “Histórias da Preta” há algumas semanas atrás. Não costumo ler livros infantis, apenas poucos contos de pequenas histórias para os meus sobrinhos e a lembrança dos livrinhos da minha infância. Mas falando sobre a minha infância, nada da literatura dela era sequer parecida com essa. Foi então que a obra de Heloísa Pira Lima caiu na minha mão por uma serendipidade, um conceito que eu aprendi com uma outra Preta, que vai viver para sempre na minha história. É claro que, até pela natureza e pelo público alvo, a leitura se deu em poucos minutos. Foram poucos minutos que me deixaram pensando um mês. A obra aborda, pela narrativa de uma menina negra e seus questionamentos sobre a vida endereçados a sua avó, as questões histórias de formação da África e da diáspora criminosa de seu povo para América e, notadamente o Brasil. A África que não conhecemos, a África que contrapõe a todos os conceitos e significados fabricados no imaginário brasileiro, daquele que remete à sexualização, ao batuque e à preguiça de um povo parece não ter direito a história, literatura, cultura ou filosofia. Heloísa nos faz perceber quanta complexidade foi criminosamente apagada em um projeto racional de genocídio não apenas biológico, mas cultural, histórico, religioso, humanitário e principalmente moral. Isso ficou claro para mim, no momento em que mesmo lendo um livro infantil, eu comecei a ficar confusa com alguns conceitos. Tudo se embaralhou na minha cabeça e por alguns parágrafos tive que voltar e reler, simplesmente porque são conceitos em que eu nunca fui apresentada. O nosso desconhecimento sobre a África é uma lacuna profunda em nossa educação pedagógica e ainda mais grave, social. A obra é uma esperança, em um contexto onde finalmente outras ações nesse sentido começam a ganhar vida, para a formação de nossas crianças, sejam elas de cinco ou dez anos, ou de trinta e cinco como eu. O conteúdo desmistifica estereótipos, esclarece conceitos, apresenta etnias e relaciona realidades que, enquanto brasileiros, fomos forçados a ignorar. Um destaque honroso aos capítulos que tratam das diversidades étnicas e dos tesouros africanos roubados e desviados em todo mundo. Não sei o quanto o conteúdo é simples e palatável em diferentes idades, uma vez que eu própria tive dúvida em algumas partes. De qualquer forma, não tenho formação ou conhecimento para opinar sobre a qualidade pedagógica da obra, uma vez que, definitivamente esse não é o meu lugar de fala. Meu lugar de fala para as “Histórias de Preta” reside na poesia, na alegria de pensar que todo esse desconhecido começa a ganhar a chance de viver e tomar seu lugar de natureza, na vida de milhões de crianças brasileiras, ainda que tudo o que se vive em discurso e prática nacional queira nos fazer acreditar no contrário. Ubuntu!!! “Depois de mil e uma noites e dias de histórias sobre a África, entendi que por muito tempo os livros diminuíram alguns povos chamando-os de tribos, por exemplo: tribos africanas, tribos indígenas, tribos orientais etc. Os autores desses livros costumavam dizer que certos grupos (as “tribos”) eram desorganizados, atrasados – e concluíam que o deles mesmos é o que era o melhor”
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