"Para todos, têm os livros a mesma linguagem, não a todos, porém, instruem do mesmo modo; [...]"
Esta frase que usei como título da resenha foi retirada do próprio livro. Esse livro tem um formato meio diferente, uma espécie de diário íntimo e ao mesmo tempo destinado a leitores. Foi escrito como um guia moral para monges em clausura e é um texto com alto teor religioso, cheio de exortações ao retiro e à obediência dentro do mosteiro. Senti curiosidade de ler (mesmo não sendo uma pessoa religiosa) porque sou uma grande admiradora de alguns ensinamentos práticos da moral cristã e achei a escrita das primeiras páginas esteticamente bela (bastante poética). É possível tirar ótimos ensinamentos desse livro quanto a valores como humildade, altruísmo e paciência no trato com outros seres humanos. Contudo, o texto também contém passagens que a mim, pessoalmente, foram extremamente incômodas por expressarem: 1 - Um desprezo extremado pelo mundo material e as relações afetivas que são construídas nele (dizendo que nossas relações de amizade e parentesco não têm valor, apenas as relações entre o indivíduo e seu Deus, tendo em vista que tudo o mais é passageiro e descartável). 2- Incentivo a uma postura de resignação muito intensa (se referindo a obedecer autoridades seculares, focar apenas na própria salvação espiritual e desviar os olhos dos erros sociais), o que pode culminar em aceitar a estagnação na ordem social injusta à qual se nasceu e parco desejo de agir sobre o mundo real (já que só se tem os olhos voltados para o mundo espiritual). O texto acaba indiretamente incentivando a passividade diante das injustiças do mundo material. Sem contar as passagens onde o autor diz claramente que as pessoas devem se afastar de questionamentos e aceitar cegamente tudo como desígnios de Deus (inclusive a presença dos males no mundo). Isso me incomodou demais, acho que por isso que o cristianismo ativo contra injustiças políticas (o que acaba englobando certas vezes desobediência civil) me puxa muito mais pelo pulso, o cristianismo que é mostrado por exemplo no romance O Cristo recrucificado de Nikos Kazantzakis. Como eu disse dá pra retirar alguns ótimos ensinamentos desse livro, apesar de alguns leitores (como eu) não concordarem com algumas ideias que foram expostas. Se esse livro fosse uma letra de música seria uma mistura de "Jesus" da banda The velvet underground com "Bestrafe Mich" da banda Rammstein. Tenho quase certeza que ninguém vai ler essa resenha, mas tudo bem. kkkk

