Te amo Allende ❤️
Estava lendo o livro do Eduardo Galeano (também te amo) quando, em pequenos fragmentos, me deparei com passagens sobre a colonização e a “conquista” do Chile — e dois nomes se entrelaçavam: Inés e Valdívia! Eu conhecia o nome e a importância da expedição de Valdívia no Chile, mas não conhecia Inés. Logo me lembrei de que tinha guardado um livro de ficção histórica da Isabel Allende sobre ela, e aqui estou, após concluir a obra! Ainda que "La Casa de los Espíritus" seja a obra mais conhecida da autora, confesso que não me envolveu tanto quanto "Inés del Alma Mía". Tive muito receio de começar o livro - mesmo conhecendo a visão social da Allende - justamente por tratar de um tema tão delicado quanto a colonização. E que bobagem esse medo! Allende não trabalha com maniqueísmos; ela constrói personagens cinzentos… reais e profundamente humanos. Isso é primoroso. O modo como ela constrói Valdívia é incrível: nos apaixonamos por ele (e confesso que fiquei com raiva de ter me simpatizado com ele), depois começamos a sentir repulsa, até que finalmente entendemos que ele era apenas um ser humano vivendo em determinado contexto. E que, se não fosse ele, teria sido outro. E, pensando bem… talvez tenha sido até menos pior que fosse Valdívia - Cortés era bem pior! Inés, como sua amante e companheira, reúne uma energia rara para uma mulher daquela época. Vemos como ela participa ativamente da construção da sociedade chilena, mais até do que Valdívia, que se mostrava muito mais preocupado com guerras e, depois, com riquezas. E sim, a Inés real foi extremamente importante: uma quase amazona, algo raríssimo na época! Ela organiza todo um aparato social para aquela sociedade em formação. E, mesmo inserida na lógica da “missão civilizatória” típica das conquistas, ainda preserva um olhar mais humano. Outro ponto interessantíssimo é como Allende traz o Peru para o centro da narrativa: os Incas, a arrogância do vice-reinado que se forma ali, o país construído a partir de ouro, conchavos e muito sangue… E como o Chile precisava prestar contas ao Peru - toda a tensão política peruana recaía sobre a missão chilena. Mas o ponto alto, para mim, foi a maneira como Allende conduz a luta dos Mapuches! Que povo grandioso! Às margens do "Río Bío-Bío", derrotaram os Incas (que também eram um império e sabiam fazer vítimas), e depois enfrentaram os espanhóis. Só vieram a cair diante das ferrovias anglo-chilenas do século XIX - e ainda hoje ecoam em resistência. Mapuches, Charrúas e Guaicurus são povos incríveis e mereciam ser muito mais estudados! Aliás, entendi perfeitamente por que, após o lançamento do livro, as pesquisas sobre os Mapuches aumentaram tanto, segundo notícias da época. E que pesquisa fantástica fez Allende! Apesar de algumas liberdades narrativas para encaixar fatos sem documentação e outras licenças comuns nesse tipo de romance (como o caso da princesa inca: na realidade, ela se casa com Pizarro no Peru e tem a primeira mestiça peruana oficial, chamada Francisca - e não com um combatente no Chile como aparece na obra), o livro consegue se manter fiel à crueza e à luta daquela época, sem perder a delicadeza e a profundidade características da escrita de Allende. Gostei demais!! Terminei o livro há 5 dias e ele permanece em mim... favoritei ❤️
