Subjetividade Silenciosa

    Rogéria Guimarães Alves Bernardes

    Juruá
    2017
    174 páginas
    5h 48m
    ISBN-13: 9788536273600
    Português Brasileiro
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    João Marcos Rodrigues Rainho20/12/2019Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O sagrado silêncio dos sons

    A autora, Rogéria Guimarães Alves Bernardes, e graduada em odontologia e psicologia e doutorando em Psicologia na Universidade Federal Fluminense. O livro, baseado em sua tese de mestrado, traz a história da Ordem dos Beneditinos e sua relação com o canto gregoriano e sua rotina sagrada. Trechos: Documentário "Die Grosse Stille - O grande silêncio", do cineasta alemão Philip Gröning, filmou a rotina dos monges da Grande Cartucha nos Alpes Franceses. Sem luz artificial, sem música, nm comentários. Ele esperou 17 anos para ter autorização para filmar. Em 2012 a revista Veja publicou a reportagem "A volta dos noviços", mostrando a grande procura no Mosteiro de São Bento da Bahia, o mais antigo do Brasil. Jornada diária baseada no princípio ora et labora (Ora e trabalha). SÃO BENTO São Bento de Nursia é o fundador da ordem e pai do Monaquismo Ocidental. As duas principais fontes sobre ele: os Diálogos, de São Gregório Magno - beneditino que foi Papa de 590 a 604, fala do documento que passa para a história como "Regra de São Bento". Gregório I é responsável também pela compilação e divulgação do tipo de música que hoje é conhecida como canto gregoriano. Papa na época da Peste Negra, ele alega que as calamidades são sinais do fim do mundo e prega para que os cristãos façam penitências e se preparem para o outro mundo que se aproxima com o Juízo Final. A história não nos diz muito claramente quem era Bento, mas sim o que ele fez. Ele teria nascido em 490. Bento, realizador de milagres, possui poucos elementos biográficos. e alguns autores chegam a questionar se ele existiu de verdade. Teria nascido em Núrsia (atual Nórcia), região central da itálica, filho de uma família nobre, que estudou Letras em Roam. Ele abandona o curso e retira-se para o deserto distante, como os solitários do Egito ou Síria. Permanece na gruta durante 3 anos em meditação, penitência, oração e contemplação. Bento processa uma vida de resistências às tentações e uma luta para a conquista de si mesmo e de suas paixões humana. Fundou o mosteiro de Monte Cassino em 529 Um dos muitos aspectos da Ordem que chamou a atenção da autora - que se hospedou em diversos mosteiros - é a presença marcante do silêncio e do canto gregoriano. "Perguntaram um dia a um monge: O que é que vocês fazem no mosteiro? Ele respondeu: Nós caímos e nos levantamos, caímos e tornamos a nos levantar". Esther de Wall. Thomas Merton, que foi um monge escritor (1915-1968) - (2011) em "A vida silenciosa", refere-se ao monge como aquele que se isola, retira-se do mundo, deixando para trás a ficção e as ilusões de uma espiritualidade meramente humana para mergulhar em sua fé com Deus. Os monges surgem com a inspiração dos Padres do Deserto, que viveram entre os séculos III e IV. Thomas Merton reflete: "Coo posso achar Aquele que está em toda parte? Se está em todo o lugar, está, em realidade, perto de mim e comigo e em mim; talvez acabe Ele sendo, de qualquer modo misterioso, eu próprio. Mas, então, ainda uma vez, se Ele e eu somos um, haverá um 'eu' que se poderá regozijar por tê-lo achado?". O autor nos alerta que a busca pelo "deserto" ou a fuga mundi empreendida pelo monge favorece o encontro desse silêncio e dessa solidão, essenciais a toda vida contemplativa, indissociável da experiência monástica. Fuga do mundo aqui compreendida não como uma evasão da responsabilidade de viver, mas sim, como a opção verdadeira daquele que vê no mundo a sociedade dos que vivem exclusivamente para si. Tal fuga significa, nesse contexto, em primeiro lugar, deixar-se a si mesmo e começar a viver para os outros. Isso equivale, em prática, a ser alguém capaz de renunciar ao exercício de sua própria vontade, à faculdade de dispor de seu tempo como bem lhe aprouver, ao direito à propriedade, à constituição de uma família, a uma vida afetiva e amorosa e sexual. No seculo IV, um grupo religioso pertencente à Igreja, dela se diferia quanto aos seu objetivos. Surge uma nova manifestação de expressão da fé cristã pela busca de uma experiência mais íntima com Deus, através da solidão, do silêncio e das práticas ascéticas. Uma reação a Igreja que enriqueceu e abandonara os assuntos puramente espirituais e religiosos e se transformara ela mesmo em uma ramificação do poder instituído. As práticas ascéticas de então refletiam uma forte influência de religiões orientais e de círculos filosóficos, em especial dos gregos, com a mística da vião de Deus (renuncia do mundo para a visão de Deus). É certa a influência pitagórica. Começa a surgir uma forma originária do diálogo terapêutico do modo como tem sido desenvolvido pela psicologia moderna. Os padres monásticos passam a ser considerados "homens santos" , com grande conhecimento da natureza humana e iniciados nos mistérios de Deus. Estabelece-se até eles uma rota de peregrinação para pedir conselhos. É uma espécie de igreja paralela, a comunidade dos monges. Existem várias correntes beneditinas, independentes. Uma delas, os Camaldulenses, que usam hábitos brancos, os monges brancos. UNIVERSO SONORO "Todos os sons remetem ao inaudível e o inaudível remete a Deus". Anselm Grün. Escrever é sentir até o fim aquilo mesmo que já sentimos (Amatuzzi). Bioquímicos, astrofísicos e antigos yogues concordam que, no nível da realidade celular, nossos corpos são sistemas de partículas atômicas vibratórias e que o nosso corpo vibra totalmente à razão aproximada fundamental, de 7 a 8 ciclos por segundo (inaudível), quando lhe é permitido entrar no estado mais natural de repouso. Interessante é notar que as ondas cerebrais produzidas nesse estado de profundo relaxamento estão também dentro de 8 ciclos por segundo. Esse fato não é acidental, pois os físicos provaram que a vibração de toda a Terra é nessa mesma frequência básica de 8 ciclos por segundo. Para São Bento este é o comportamento do monge: calar e ouvir. Evitar o pecado da fala desnecessária. Viver o silêncio é viver a submissão completa, humilde e profunda, com a qual o monge deve se identificar. Aprender a silenciar-se é, paradoxalmente, aprender a dar valor aos sons. E aprender a escutar e distinguir, dentre os ruídos externos, aquilo que é significativo, o que implica, também, em abrir espaço para a escuta de si mesmo, de seus próprios pensamentos. Sem silêncio, o homem moderno mergulhado na agitação que o cerca e, sobretudo, na poluição sonora, não consegue ambiente para, em contato consigo, aprofundar esse tipo de escuta. Povos antigos, como chineses e hidus, acreditavam que desta Vibração Fundamental Cósmica (base de toda a matéria e energia existentes no universo), o inaudível Som Cósmico, partiam as diferentes vibrações superfísicas específicas criadoras do universo. Os mitos de diferentes culturas afirmam que "a fonte de onde emana o mundo é sempre uma fonte acústica" (Wisik). A voz criadora surge do Nada, do espaço Vazio: o abismo primordial, a garganta aberta, a caverna cantante, a fenda na rocha, são algumas das imagens utilizadas, por diferentes culturas para simbolizar esse espaço do não-ser, de onde se eleva apenas a emanação do criador, produto de um pensamento que faz vibrar o Nada e, ao se propagar, cria o espaço. Um monólogo em que o corpo sonoro constitui a primeira manifestação perceptível do Invisível. É ainda o mesmo pensamento de sonoridade criadora que encontramos no hinduísmo, religião intrinsecamente musical, onde todas as ocorrências míticas e eventos divinos são declaradamente recitações cantadas com caráter sacrificial, mântrico e, onde se atribui à proferição da sílaba sagrada OUM ou AUM, o poder de ressoar a gênese do mundo. Ou como observamos, na citação de Tame (1993), a seguir, os sons e, em especial a música religiosa, seriam, em muitas culturas, o veículo através do qual o sagrado se manifestaria no plano terrestre. Nas preces, nas invocações, nas músicas, na repetição de palavras rituais, na leitura dos textos sagrados, o homem participa da obra divina de criação e recriação incessante do universo. Sem os efeitos terapêuticos do Canto Gregoriano, os monges não conseguiam dar continuidade à sua rigorosa rotina de trabalhos e preces. O Concilio do Vaticano chegou a suspender a prática o Canto Gregoriano pelos monges, por achar que o tempo despendido não tinha nenhum propósito prático. Também condenaram a dieta vegetariana. Uma nova dieta rica em carnes foi introduzida e a situação piorou. Wisnik (2009) ressalta que tal forma de cantar, mais do que somente uma sonoridade musical, oferece-se, simbolicamente, uma imitação da ordem escalar do cosmo, isto é, modo imutável, despido de todo ruído e rimo pulsante, som em estado de máxima sublimação. Como elemento semimaterial, elo de ligação entre o humano e o divino, tal canto não deixa de ser o território de uma luta entre a elevação ascética e a sedução pelo ouvido. O canto gregoriano é uma forma de oração. Um único som afinado, cantado em uníssono por um grupo humano, tem o poder mágico de evocar uma fundação cósmica: insemina-se coletivamente, no meio dos ruídos do mundo, um princípio ordenador. O salmo cantado no primeiro tom abre espaço para a SAUDADE. O segundo e o oitavo tons permitem-nos meditar sobre TUDO O QUE DEUS FEZ PELA HUMANIDADE. Ao cantar no terceiro, vivencia-se A CONFIANÇA EM DEUS E NA SUA MISERICÓRDIA para com os aflitos; o quarto arrebata-nos para um sentimento de TRANSCEDÊNCIA, de transformação de tudo o que é terrestre. No quinto, somos tomados por uma grande SENSAÇÃO DE ALEGRIA e otimismo, seguida pela profunda CONFIANÇA NA BONDADE DIVINA, despertada pelo terceiro som. O canto gregoriano ´bom e cura (Norris, 1998). Ao executá-lo, é a voz eterna de es que ressoa no diálogo divino, despertando variados estados emocionais, abrindo espaço para a transcendência e conferindo à observância monástica em ritmo próprio. A prátia das Horas, as vigílias dos monges, vivida por volta das 3h da manhã, tinha o significado de vigiar, permanecer acordado. Os filósofos gregos também tinham essa pra´tica, para libertar a alma do sona da existência terrestre, reconduzindo-a a sua essência original, mais pura. Tal como os gregos, os romanos, em suas celebrações noturnas, buscavam a iniciação em mistérios mais profundos, na vigília notura, nos monges recitavam os salmos e meditavam para que, em sua oração, pudessem penetrar no mistério da vida diante de Deus. No decorrer do dia, a Sexta Hora, que introduz a pausa do meio-dia é, para Grun (2012) fundamental. Os antigos falavam do "demônio do meio dia", que espreita por volta desse horário. Quando o ser humano se cansa, ele se torna suscetível às tentações de tal demônio. Segundo os monges antigos, trata-se do demônio da akedia (desânimo, moleza). Akedia significa não ser capaz de estar presente no momento. No meio da tarde, o tempo é glorificado om o louvor de "Noa", - Nona Hora - na qual, afirma-se, deu-se a crucificação de Jesus. Segundo os cânticos antigos, ao morrer, Cristo transformou o ponte em nascente. Na pausa da tarde, os monges renovam esperanças na promessa de transformação dos problemas que surgem ao longo do dia, recompondo energias para o prosseguimento de suas tarefas. Ao fim do dia, vem vésper, estrela da tarde, o planeta Vênus, que anuncia descanso e paz aos cansados. Nessa hora, louva-se, agradecendo a Deus pelo trabalho do dia e, neste momento, os monges volta novamente o olhara para Ele, como centro da existência. Em todos os povos existe o louvor a Deus de manhã e no final do dia. A experiência do mistério, como disse Einstein, é a experiência mais bela que podemos ter. "... as respostas não vêm sempre que são precisas, e meso sucede muitas vezes que ter de ficar simplesmente à espera delas é a única respostas possível". José Saramago. Assim como os monges, fomos também convidados a exercitar o desapego e a nos despojar de muitas bagagens intelectuais e culturais, que passaram a pesar, dificultando a nossa jornada. Tivemos que realizar uma fuga mundi, isolando-nos daquilo que nos tirava o foco e afastava-nos de nossos objetivos finais. A mercantilização da existência é uma das transformações mais significativas promovidas pelo capitalismo nas relações sociais. Transforma o ser humano em produtor e consumidor de mercadorias. O mundo coisificado. A força do poder do dinheiro é a força do meu poder. Tudo se pode comprar e vender, segundo Marx. Ao dessacralizar o mundo e abrir espaço para o surgimento e expansão do capitalismo, o homem moderno constrói, ao seu modo, outas formas de dominação, mais sutis, tornando-se prisioneiro dos processos de subjetivação coletivas, por ele mesmo, engendrados. Numa cultura basicamente religiosa como na índia ou no Japão, o monge é, por assim dizer, coisa normal. Numa cultura materialista, o monge se torna incompreensível porque ele "não produz nada". O monge é alguém que procura tão intensamente a Deus que está pronto a morrer para poder vê-lo. O canto gregoriano não pode ser reduzido à beleza de um espetáculo. Os monges não oferece espetáculos, eles rezam.

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