"Anjo de Dor" poderia ser classificado como um "policial paranormal", assim como "A Corrida do Rinoceronte", obra de 2006 do mesmo autor.
Nos dois casos, a estrutura é semelhante: uma aparição sobrenatural induz o protagonista a lutar contra uma trama criminosa. O interesse do anterior estava na análise cuidadosa do cenário, que explorou com realismo e verossimilhança o cenário californiano e as relações entre racismo, tráfico de drogas, crime digital e histórias pessoais e familiares. Mas a entidade sobrenatural – um rinoceronte fantasma – foi uma ousadia que a narrativa não conseguiu tornar instigante ou convincente e sua intervenção fez do protagonista, um imigrante brasileiro, uma marionete cujas atitudes se tornaram pouco convincentes, prejudicando a empatia com o leitor e a plausibilidade da trama.
O novo romance se esforça menos por ser original ou por fazer análises sociais bem embasadas, mas investe em uma trama mais satisfatória. A entidade sobrenatural ainda surge de maneira um tanto arbitrária, mas é de natureza a se encaixar melhor nos medos, desejos, crenças e fantasias da raça humana em geral e da cultura brasileira em especial. Além de soar mais plausível, ou pelo menos mais emocionante, sua relação com o protagonista faz mais sentido e se integra melhor na história. O herói não é simplesmente teleguiado pela aparição, sente medo e desejo, tem iniciativa e vontade, age e reage de maneira cabível.
A partir do momento que surge o elemento sobrenatural e a história mostra a que realmente veio, o livro se torna (ao menos para este leitor), o que se costuma chamar de pageturner, um livro difícil de largar. O suspense funciona bem e o final não decepciona. Diga-se de passagem que o conselho da esposa do autor sobre o final, que ele cita nos agradecimentos, foi acertado: seria muito difícil criar outra resolução que não soasse como um anticlímax.
A maior ressalva é que a história demora um pouco a engrenar. Os primeiros 30% do livro soam um tanto arrastados. Descrevem o cenário – Sumaré, uma cidade do interior de São Paulo –, sem chegar a criar o clima para a ação propriamente dita: parece pelo contrário ressaltar o que tem de trivial e semelhante a qualquer outra cidade do interior. Além disso, o início do romance apresenta e descreve o “herói” e a “mocinha”, que também não cativam à primeira vista.
Esta é um tanto estereotipada, com uma história não muito bem talhada (quais as chances de uma loira natural, de olhos claros, ter nascido numa favela carioca dos anos 50?). Aquele é excêntrico de uma forma original, mas sua solidão soa exagerada ou mal explicada – e o fato de ele, a certa altura (e sem ser artista profissional) pintar um quadro colorido de corpo inteiro que "parece foto" em poucas horas é mais difícil de acreditar que os eventos sobrenaturais.
De maneira mais geral, perdeu-se a oportunidade, nesse início de história, de tornar o cenário mais interessante e de aprofundar com mais originalidade e franqueza as idiossincrasias dos personagens, tornando-os menos esquemáticos e mais consistentes. O que o protagonista, vegetariano, realmente sente em relação a comer carne? Quais suas verdadeiras razões de não ter amigos íntimos? Do que tem medo? O que a heroína fantasia em relação aos homens? Como se sente em relação às suas peculiaridades sexuais? Para captar o leitor desde o início, faltou um mergulho mais profundo e ousado nas mentes dos personagens e na vida secreta de uma cidade do interior. Apesar do narrador ter acesso ao íntimo dos personagens, faz quase uma apresentação formal, de recepção em festa da firma...
Mas não se deve exagerar a importância desses problemas: o desenrolar da trama propriamente dita, da ação e do suspense, capta a atenção por si mesma, independentemente do que se deixa a desejar na construção dos personagens.
Deve-se ressalvar que um pormenor que permanece um pouco incômodo até o final é a grafia dos diálogos. Procurou-se reproduzir o sotaque interiorano paulista da maioria dos personagens e o carioca de alguns outros, mas de maneira um tanto inábil. O texto ficou sobrecarregado de apóstrofos sem conseguir transmitir pecularidades fonéticas e gramaticais com fidelidade e naturalidade. Ouvido e senso comum não bastaram: teria sido preciso um pouco mais de linguística para conseguir o efeito desejado.