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    Olho-de-corvo - e outras obras de Yi Sán

    Yi Sang

    Perspectiva
    1999
    264 páginas
    8h 48m
    ISBN-11: 8527301962_
    Português Brasileiro
    4.1
    19 avaliações
    Leram31Lendo3Querem42Relendo0Abandonos0Resenhas3
    Favoritos2Desejados42Avaliaram19

    Segundo Haroldo de Campos, é graças à sensibilidade poética bilíngüe de Yun Jung Im e à sua atualizada concepção da tradução como prática intersemiótica que a coleção Signos, dentro de seu projeto goetheanamente universal, tem a oportunidade de apresentar aos leitores brasileiros este poeta-prosador, ao extremo singular, que é Yi Sáng. Na trama dos textos em prosa do autor, não só o Beckett da espera sem esperança, mas também o Kafka do cotidiano levado ao absurdo podem ser pontos de contacto para a inteligibilidade do leitor ocidental. Há, porém, por trás do anonimato 'coisal' de seu cognome, Senhor 'Caixa', algo de irredutível, de profundamente estranho, de singularíssimo: tanto seus poemas como seus textos-estórias são perpassados por uma pulsão de morte; a mulher, angelizada e/ou demonizada, é o centro enigmático desses obsessivos rodeios concêntricos de dor (sufocada), amor (irresolvido) e humor (negro-cínico, autor-irônico, farpado). Yi Sáng, em sua obra, tira hábil partido das possibilidades lúdicas de seu idioma, no nível fônico e de plurissignificação, resultante da mescla de caracteres chineses e signos alfabéticos coreanos, no nível grafemático-visual da escrita.

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    Champi picture
    Champi03/09/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Depressão Experimental em formato de palavras

    Quando eu comecei esse livro eu tive a impressão que iria ser uma leitura bem difícil, mas quando você se embriaga dele flui muito muito bem. O experimentalismo poético de Yi-Sáng é bem bem bem similar ao do cineasta Hong-Sang-soo, é quase como se um fosse o espelho (como ferramenta e também como brinquedo) do outro. No caso de Yi-Sáng é uma literatura que te puxa pra dentro da mente desse escritor tão introspectivo fazendo até o leitor se afogar demais em poesia e lirismo. Eu particularmente gostei muito dos contos, dois em específico, Asas e Cabelos curtos. Asas é a representação semi-perfeita de uma pessoa adoecida mentalmente. Tudo o que um dia já se foi ou o que poderia ter sido não importa, só importa as cobertas, o quarto aconchegante (mas nem tanto), o espelho (como brinquedo para você não lembrar de sua mediocridade) e dormir (muito, tipo muito mesmo). Esses hábitos que em conjunto com a esposa amorosa que dopava o escritor para ele não a perturbar e ficar em seu cativeiro, contrastam completamente com a personalidade desse. YI-Sáng não é patético, introvertido, frágil e doente. Ele é uma pessoa curiosa, pesquisadora (até quando doente mentalmente procurava entender o porque das coisas, mesmo que com um bloqueio mental) que quer conhecer o mundo e explorar cada detalhe de cada singela sensação. Talvez por isso eu tenha me sentido tão drenado lendo, é como se um potencial de uma vida plena e com completude de uma pessoa brilhante fosse jogado fora, como se tivesse tido suas asas quebradas e esquecesse que um dia ele já voou. Agora o cabelos curtos é o típico exemplo de uma relação histérica, são duas esfinges lançando charadas uma pra outra terminando sempre com decifra-me ou te devoro. Eu tenho um apreço por amores feios e disformes, e esse é o caso desse conto, no fim a conclusão dele é bem esperançosa e fofa com os dois finalmente se entendendo em algum grau e podendo ser levemente mais transparente. Não é tão bom quanto o Asas mas ainda tem seu charme pra mim.

    3 curtidas

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    Avaliações

    4.1 / 19
    • 5 estrelas37%
    • 4 estrelas37%
    • 3 estrelas16%
    • 2 estrelas11%
    • 1 estrelas0%
    Kim Hae-Gyeong  profile picture

    Kim Hae-Gyeong

    Yi Sang (ou Yi Sán), pseudônimo de Kim Hae-Gyeong (1910, seul — 1937, tóquio) foi certamente o coreano mais radical & rebelde, ao longo dos anos 20/30, nas suas experimentações. trata-se de uma escrita do mínimo, com repetições, construções aparentemente simples que, ao nosso olhar ocidental, lembram a poética dadaísta ou mesmo a obra de um schwitters. na prosa, há algo de kafkiano, uma claustrofobia narrativa que tende a implodir o desenvolvimento do texto, que se fecha sobre si, porém muitas vezes na figura de uma personagem dominada por uma indolência extraordinária, como no caso do conto “Asas”. o próprio nome poético do autor, nascido kim hé-kyón (que significa algo como “vastidão do mar”), adotado aos 23 anos, é uma recusa à tradição lírica coreana, já que quer dizer algo como “caixa da silva”. é em 1933 também que o poeta se demite do trabalho como projetista & passa a viver numa miséria crescente (com crises de hemoptise) aliada a uma produção escrita também intensa; ao longos dos próximos anos, viria a fazer algumas viagens improvisadas, abrir alguns cafés, todos falidos, & sofrer alguma desilusões amorosas. em dezembro de 1936, o poeta abandona a esposa & viaja para tóquio para conhecer o poeta kim kirim; mas morreu poucos meses depois, em abril, numa crise agravada pelo inverno & pela violência da polícia (que o prendeu & espancou sob a acusação de “ideologia subversiva”). [G. Gontijo Flores]

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