Como um cego veria o mundo se lhe fosse, subitamente, devolvida a visão? Esta é uma possível descrição do efeito das imagens de Turner em seus observadores. John Ruskin, o maior defensor da obra de William Turner (1775-1851) falava da “inocência do olho”, que perceberia as cores e formas do mundo antes de conceber significado. Para desenvolver tal estilo, contudo, Turner precisou superar toda herança dos ensinamentos do rococó tardio. Era simultaneamente um romântico e um realista, e, contudo, não era nem um, nem outro. Suas paisagens, muito a frente de seu tempo, foram chamadas de pré-impressionistas, mas também possuem traços do que viria a ser o expressionismo, e algumas de suas composições poderiam ser consideradas surrealistas. Na verdade, a obra de Turner não pode ser descrita nestes termos. Sua essência continua um enigma para a história da arte até hoje. Seus quadros trazem um olhar único para a natureza que retratam: em seus esboços luminosos, Turner abriu caminho século XIX adentro, com um tipo de pintura no qual a natureza libertaria o pintor para o uso aberto da cor. Trabalhando com elementos naturais, especialmente a luz atmosférica, Turner se confrontou com a natureza até encontrar o ponto em que ela, por si só, fosse uma imagem. Este livro traz o entendimento necessário para abrir os olhos para a pintura de Turner, demonstrando que ele não estava simplesmente ilustrando a natureza, mas que seus quadros falam diretamente ao olho da mesma maneira que a natureza o faz: por um mundo de luz e cores.
Turner -
Michael Bockemühl
Turner
“Turner” faz parte de uma coleção de livros sobre artes plásticas lançada no Brasil pela distribuidora Paisagem, e que visa explicar a obra do artista-tema de cada livro. Em se tratando de conteúdo, não tenho do que reclamar: o livro de Michael Bockemühl explica de maneira clara e fluída a obra do pintor, nos mostrando suas diversas fases, desde a época de exímio ilustrador na juventude até a da busca pela expressão através da cor, na idade adulta e na velhice. Várias das obras de Turner são “destrinchadas” pelo autor, para que compreendamos com maior clareza o processo de criação do artista em cada uma de suas fases. Os capítulos são um tanto longos, mas nada que chegue a comprometer a leitura. Mas o que podia ser uma ótima obra acabou por se tornar um livro de leitura maçante, e tudo graças a uma diagramação extremamente mal feita. Já tive acesso a outros dois livros desta coleção que, como “Turner”, tinham exatamente 96 páginas. Nestes dois livros o texto e as imagens casavam perfeitamente, e apesar de a fonte ser um tanto pequena para o meu gosto, ainda era suportável,mesmo cansando a vista. Já em “Turner” percebe-se claramente que, apesar de mantidas as 96 páginas, o volume de texto é muito maior. Resultado: A fonte foi diminuída para um tamanho minúsculo, e até mesmo muitas das ilustrações perderam espaço. A impressão que tive é que os editores resolveram manter as tais 96 páginas a qualquer custo, sem se preocupar com possíveis danos na qualidade da obra. E não apenas a fonte ficou pequena, mas também várias das ilustrações foram muito mal posicionadas no livro. Há ilustrações que são comentadas no início do livro impressas em páginas do final e vice-versa. Pior: muitas das ilustrações comentadas foram relegadas a ilustrações de canto de página, fazendo com que os detalhes comentados pelo autor do livro ficassem inacessíveis ao leitor – o que, em se tratando de Turner, é uma falta gravíssima, já que muitas de suas pinturas/ilustrações são extremamente detalhadas. Tudo isso resultou em um livro que, apesar de conter um tema interessante, faz com que o leitor passe por verdadeiros sacrifícios para conseguir lê-lo: espremer os olhos para conseguir enxergar a fonte, ficar indo e voltando toda hora para encontrar as ilustrações comentadas, sem falar da frustração de não conseguir enxergar os detalhes em algumas das pinturas analisadas... Resumindo: o texto é interessante? Muito. Mas se você não gosta de sofrer e tem a possibilidade de ler outro livro bem escrito sobre o tema, não tenha dúvidas: escolha o outro livro. A não ser, é claro, que ele consiga ser ainda mais mal diagramado que este aqui. O que eu acho difícil. MUITO difícil.
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