Mais do que uma arqueologia de clássicos do pensamento econômico, esta seleção de textos de Saint-Simon, Fourier, Robert Owen, John Gray, Louis Blanc, Proudhon, Sidney Webb, Bernard Shaw, Hobson, Kautski, Veblen e Hilferding sinaliza questões da atualidade. Os utópicos, heréticos e malditos reunidos por Aloisio Teixeira neste livro, provam que as ideías são recorrentes - 'o leitor se espantará ao verificar que muitos temas da moda, da regulação à descentralização, da globalização à economia solidária, estão inteiramente presentes em textos cuja idade varia de cem a duzentos anos'.
Utópicos, heréticos e malditos -
Aloísio Teixeira
A Utopia contra-ataca
Na escolha do novo reitor para a UFRJ em 1998, o ministro da Educação Paulo Renato e o presidente FHC desconsideraram a tradição de consulta à comunidade universitária. Em vez do economista Aloisio Teixeira, vencedor com 43% dos votos da comunidade e 82% do colegiado superior, mas demasiado crítico da política do governo para com o ensino superior, decidiram nomear o terceiro colocado, o vice-reitor Luiz Henrique Vilhena, com 11%. O novo reitor – ou interventor, para seus críticos – teve uma gestão tumultuada, iniciada com 45 dias de ocupação da universidade por sindicalistas e estudantes e coroada, no final de 2001, com uma rebelião contra sua exigência de que o vestibular fosse realizado durante a greve das universidades federais. Quanto a Aloisio Teixeira, que o Instituto de Economia, esperando sua nomeação como reitor, havia dispensado de dar aulas, resolveu aproveitar o tempo oferecendo uma disciplina optativa sobre pensadores opostos à corrente principal da economia. Os alunos foram encarregados de traduzir textos originais, muitos deles inéditos em português, de diversos autores dos quais quase só se tem ouvido falar através de seus críticos e historiadores. Desse trabalho resultou "Utópicos, heréticos e malditos". A primeira parte do livro, que coleta textos de socialistas utópicos da primeira metade do século XIX – Saint-Simon, Fourier, Robert Owen, John Gray, Louis Blanc e Proudhon – representa uma ampla amostra do pensamento desse período e de fato faz jus ao título. Salvo no caso de Proudhon, sempre lembrado como um dos patriarcas do anarquismo e periodicamente reeditado, o leitor brasileiro havia tido, até agora, poucas oportunidades de conhecer em primeira mão o que esses pensadores tiveram a dizer. Mesmo quando as respostas que propunham soam fantasiosas ou ultrapassadas,– como a Igreja de Newton sonhada por Saint-Simon e a ciência da harmonização das paixões pregada por Fourier como uma panacéia – muitos dos problemas sociais que apontavam continuam existindo apesar da recusa da sociedade a enxergá-los e muitas das questões que colocavam ao senso comum e à ortodoxia econômica continuam sem resposta. A segunda metade, dedicada a autores do final do século XIX e início do século XX, representa uma escolha mais restrita e representa apenas uma parte do pensamento crítico desse período. O leitor pode ficar com a impressão de que a socialdemocracia foi a única expressão importante do inconformismo depois de Marx. É lógico não priorizar clássicos bem conhecidos, como os textos de Lênin ou Rosa Luxemburgo, mas há outros “malditos” quase inéditos no Brasil, como Simone Weil, Martin Buber, Ernst Bloch e Kropotkin, que poderiam ter ajudado a mostrar a verdadeira amplitude do pensamento herético na era do imperialismo. Mesmo assim, os textos incluídos na coletânea – de Sidney Webb, Bernard Shaw, Hobson, Kautski, Veblen e Hilferding – merecem atenção e continuam pertinentes ao debate político neste início do século XXI. Sua clareza raramente pode ser encontrada nos herdeiros da tradição socialdemocrata, cada vez mais dispostos a esvaziar suas propostas de qualquer conteúdo teórico para ganhar os votos do público de acordo com as regras impostas pela mídia e pelos mercados – ou então, a afastá-las da curiosidade do vulgo e de qualquer conseqüência prática na tentativa de atingir a perfeição no jogo da conquista do prestígio acadêmico. Aos leitores resta esperar que as próximas crises universitárias, aparentemente inevitáveis, ao menos possam render frutos semelhantes a este.
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