Talvez se a gente comparar aos russos as pessoas comecem a prestar mais atenção ao chinês Lu Xun. Ele tem, como o Gógol, um conto chamado “Diário de um louco”, que, no seu caso, é uma sutil, mas poderosa, alegoria sobre a política do seu país. A novela “A verdadeira história de A Q”, um dos seus melhores trabalhos, é amplamente gogoliana, pois versa sobre um personagem cômico e patético em estranhas aventuras do seu cotidiano. Como Turgueniev, Lu Xun também está interessando nos pobres campônios do seu país e, como ele, também os retrata de maneira a evidenciar posicionamentos críticos sobre o sistema vigente. “Saudades do passado” (também traduzido como “Pesar pelo passado”), outro dos seus melhores momentos, é uma novela cheia de sentimento que parece evocar o Dostoievski de “Noites brancas”. Alguns dramas domésticos saem à Tchékhov. E em tudo há a mesma ternura pelos mais desafortunados que se observa nos contos de Górki, de quem Lu Xun também compartilhava a ideologia política. Evidentemente, isso é apenas uma das aproximações possíveis. Seria possível falar da antiga literatura húngara, a evocar o mesmo desconsolo que alguns dos mais bonitos textos de Lu Xun, e mesmo da literatura nórdica, com a natureza desempenhando papel importante em tramas que não tem muito movimento senão o do interior dos seus personagens. Mas isso tudo é apenas para tentar chamar a atenção do leitor para Lu Xun, que é, e nunca deixou de ser, um chinês. São chineses os vilarejos, são chineses os camponeses e são chineses os ritos e costumes, destacando-se o culto aos antepassados. Embora considerado “pai da literatura moderna chinesa”, por vezes Lu Xun também se dedica a explorar antigas lendas do seu país, não hesitando até mesmo em incluir nas suas histórias o mesmo sobrenatural que tão bem caracterizou a literatura antiga chinesa. São dignos de notas os conflitos nascidos entre os modos de vida do campo e da cidade, como em “Minha terra natal” (também traduzido como “A aldeia dos meus ancestrais”), cujas diferenças são acentuadas pela própria passagem do tempo. Lu Xun sabia que os campônios chineses viviam uma situação penosa, sujeitos a uma medicina pouco eficaz, além de certos costumes cruéis, e através da sua escrita registrou muitos dramas comoventes dessas pessoas (como em “O remédio”, “Manhã”, “O sacrifício do Ano Novo” e “Divórcio”, no qual se percebe o apelo de uma mulher pelos seus direitos em uma sociedade na qual quase não tinha nenhum). Por vezes (e esses são alguns dos seus melhores momentos) há uma nota existencialista mais acentuada, casos de “Numa taberna” e da novela “O misantropo”. É possível que, se fosse russo, Lu Xun fosse bem mais celebrado.
Novelas Escolhidas -
Lu Sin
IMAGO EDITORA
1988
291 páginas
9h 42m
ISBN-10: 89513L926n
Português Brasileiro
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