"A Corrida do Rinoceronte" apresenta-se como fantasia contemporânea, mas está mais para realismo fantástico, com ênfase no primeiro termo da expressão. Questões raciais e de abuso de poder são o núcleo da história, à qual o fantástico é imposto de maneira um tanto arbitrária.
O romance explora, ao mesmo tempo, a emigração, o racismo, o tráfico de drogas, o crime digital, o poder, a formação dos personagens por suas histórias sociais e familiares e – com profusão de detalhes – o automobilismo: vários personagens, inclusive o protagonista, são fãs de street machines.
Um programador brasileiro é contratado para trabalhar em uma empresa de alta tecnologia no interior da Califórnia, onde se descobre vítima do preconceito racial ao qual sua pele relativamente clara lhe permitia escapar no Brasil. Ao mesmo tempo, enquanto se apaixona por uma policial branca local, é chamado a lutar por um ambiente que não é o seu, pela vida e felicidade de estranhos e contra mazelas éticas, políticas e sociais que a princípio não lhe dizem respeito.
Por quem? Esse é o elemento fantástico: um rinoceronte fantasma, que parece representar a "natureza", o instiga a todo momento a investigar problemas locais e fazer algo a respeito. Uma ideia sem dúvida original, mas o livro não consegue torná-la interessante: permanece como um "ex machina" mais incômodo do que provocante. Ainda menos verossímil é a maneira como o protagonista se deixa usar pela aparição, abdicando de seu amor, seus projetos e seu juízo por causas que a princípio não o motivam pessoalmente e, por fim, sacrificando-se por uma pessoa que, para ele, não tem qualquer significado especial.
O fantástico entra nesse livro de maneira disfuncional, como uma maneira inverossímil de forçar o protagonista à ação. Seria um romance muito melhor se tivesse abdicado completamente da fantasia e tivesse sido escrito como thriller policial realista, substituindo-se o rinoceronte por motivações plausíveis.