Embora a biodiversidade seja um dos temas mais marcantes deste final de século, o significado desta palavra ainda é desconhecido por muitos. Ela é o conjunto das espécies de plantas, animais, microorganismos e ecossistemas em que esses seres vivem e dos processos ecológicos dos quais fazem parte. Portanto, biodiversidade como a entendemos existe no planeta Terra muito antes de o homem aparecer e sem a mesma não é possível nossa sobrevivência nem a do planeta, pelo menos do jeito que o conhecemos. Porque então somente neste final de milênio, a biodiversidade assume papel tão destacado na mídia internacional e se torna, inclusive, tema de um tratado internacional assinado no Rio de Janeiro por mais de 150 países, no dia 5 de julho de 1992, durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento? Creio que o despertar da consciência global para o tema é provocado pelo grito de alerta de cientistas de todo o mundo de que nosso futuro depende dos recursos biológicos, de que estes têm limites e que os estamos excedendo. Biodiversidade está presente em nossas vidas de maneira marcante. Toda a comida que usamos é de origem vegetal ou animal e dela faz parte. A maior parte dos medicamentos, borracha, papel, madeira e muitos outros produtos da natureza que garantem o padrão de vida das sociedades modernas vêm da biodiversidade. Mesmo produtos vitais como a água são purificados por vegetais e por microorganismos, e o petróleo é o resultado da fossilização de seres vivos que viveram há milhões de anos. Se biodiversidade é tão importante, é preciso universalizar o seu conhecimento e difundir a necessidade de sua conservação e o uso correto, e ninguém melhor que o prof. E. O. Wilson, da Universidade de Harvard, ganhador do prêmio Pulitzer da literatura, pode fazê-lo. Neste primeiro livro de uma série que escreveu ou organizou sobre o tema, Wilson reuniu algumas das mais importantes autoridades no assunto para redigir um clássico da biodiversidade. Em Biodiversidade o leitor terá chances de ler o que pensam as maiores autoridades mundiais sobre o tema. O livro resulta do Fórum Nacional sobre BioDiversidade que aconteceu em Washington, D.C. em 1986. Wilson conseguiu reunir no fórum e no livro 60 dos maiores especialistas mundiais em vasta gama de tópicos relacionados ao tema. O livro começa com os desafios que temos de vencer para manter a biodiversidade, pelo menos nos níveis atuais. Passa por abordagens econômicas, éticas e biológicas da biodiversidade e sua conservação. Aborda maneiras de salvá-la ou recuperá-la, bem como alternativas à sua destruição. As duas últimas partes do livros são voltadas para mudanças mais amplas que envolvem novas políticas, tendências e paradigmas de convivência com a biodiversidade. O capítulo final é um resumo da conferência e de sua repercussão no mundo todo. Finalmente, gostaria de salientar a importância de esse livro chegar às mãos dos leitores brasileiros. O Brasil é o país mais rico em biodiversidade no mundo e embora biodiversidade seja aceita como uma herança comum a toda a humanidade, os países devem ter direitos e obrigações em relação à mesma. Não podemos entender, respeitar ou saber usar aquilo que desconhecemos. Biodiversidade, sendo um clássico da literatura sobre o tema, é leitura indispensável a todos os brasileiros que se preocupam com o amanhã de nosso país e de nosso planeta.
Biodiversidade -
E.O. Wilson, Frances M. Peter
"O valor da biodiversidade é o valor de tudo que existe"
Em 1986 foi realizado o Fórum sobre Biodiversidade, reunindo mais de 60 cientistas e convidados, para discutir questões da conservação da diversidade da vida. Cada um dos autores atacou um ângulo da questão de acordo com sua experiência de vida e trabalho. No final, o resultado foi esse livro. A obra conta com diversos autores conhecidos no meio e além, como Edward Wilson e Peter Raven, e por outros que deveriam ser assim conhecidos, como Michel Soulé, David Raup e Tom Cade. Talvez o mais reconhecido de cara seja James Lovelock, autor da Teoria de Gaia, que fala em breves páginas sobre isso. Pontos fortes? A imensa variedade de tópicos abordada, indo desde restauração de ambientes (e diferentes modos de fazê-lo), reintrodução de espécies no meio selvagem, conservação in-situ e ex-situ, e farmacologia. Alguns são bem incisivos: Tom Cade fala que “os conservacionistas gastam tempo demasiado conversando uns com os outros. Não precisamos convencer-nos uns aos outros da importância do que estamos tentando fazer. Precisamos convencer a grande maioria das outras pessoas! Precisamos falar menos e agir mais.”. Robert Goodland afirma que o governo, meio acadêmico, ONGs e agências de financiamento devem cooperar, mesmo que não seja fácil, pois a “alternativa consiste de extinções cada vez mais aceleradas.”. Não poderia concordar mais com Tom Cade. E mais: deveria ser passado que cada espécie possui um valor intrínseco, e merecer ser preservada e conservada apenas por existir. Há economistas que discutem qual o valor que deveria ser dado a uma espécie. Por isso, gosto da conclusão de Bryan Norton: “O valor da biodiversidade é o valor de tudo que existe.”. E esse é um problema do livro. Enquanto alguns autores abordam essa questão, outros procuram defender a conservação sob uma perspectiva de uso antropocêntrico. “Devemos conservar a Amazônia porque a cura do câncer pode estar lá.”. Acho a proposta incompleta. Arriscaria que a grande maioria das formas viventes não tem a menor utilidade humana, mas isso não diminui o seu valor. Mas, também, imagino que seja um mal necessário… Afinal, boa parte não se move se não for em busca de um ganho próprio. Se fosse diferente, talvez nem teríamos problemas de conservação da biodiversidade em primeiro lugar.
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