A poética do século XVI, ao contrário da poesia moderna, ainda detém o poder de nomear as coisas, reconhecendo-as na sua inteireza. Isto torna a interpretação ao mesmo tempo mais simples e mais complexa: mais simples porque a linguagem poética é contituída, sem maiores rupturas, pelo repertório vivo da experiência humana; mais complexa porque a palavra ainda é parábola, o que a torna antes totalidade do que fragmento. É a partir destes pressupostos que Celso Lafer examina em Gil Vicente e Camões (Dois Estudos sobre a Cultura Portuguesa do Século XVI), a função exercida pela realidade social, historicamente localizada na constituição da épica camoniana e de um aspecto do teatro de Gil Vicente. Daí os rumos de sua análise, graças à qual se verifica que, ao elaborar a figura do judeu como personagem de seu teatro, Gil Vicente confirma um modelo de relacionamento entre os judeus e a sociedade neste período da História Européia. Este modelo - O da tolerância e o da exclusão - transcende sua obra e se insere na trajetória do particularismo da participação judaica na História da Civilização. Os pressupostos da relação entre Literatura e Sociedade, acima apontados, também conduzem a interpretação de Celso Lafer de Os Lusíadas, que é analisada como uma totalidade englobar tanto a especificidade de Portugal quanto a universidade da problemática do homem renascentista.

