Bordados Imperfeitos (Ed. Jaguatirica, Rio de Janeiro, 2019) está mais para uma colcha de retalhos, mas não daquelas feias e tronchas, mas das coloridas, alegres, bonitas, nascidas do carinho e das agulhas das avós.
A obra que estreias de Mayra S. Mayor estende o tapete vermelho anunciando coisas boas que virão, sendo a obra de estreia uma cereja antes do bolo, tratando de temas complexos como amadurecimento, descobertas e redescobertas, saúde mental, machismo, empoderamento e liberdade – tudo isso em duzentas e vinte e duas páginas.
Aqui vemos as histórias de Lulu, Nana, Mate e Sofia, em caminhos tão irregulares que se afastam e se aproximam em curtos períodos de tempo, vivendo existências não raramente entrecruzadas, mas pontuadas de aventuras particulares, segredos, descobertas e redescobertas.
Os conflitos pessoas de cada co-protagonista efervesce e explode (ou implode, no caso de Sofia) surge sem avisar, envolvendo o leito em caso de amor de ódio com cada uma delas, torcendo, comemorando ou experimentando profunda angustia ao ver que sua personagem preferida se meteu nesta ou naquela enrascada, entrou em um beco sem saída ou deu voltas e mais voltas sem sair do mesmo lugar. Tudo é tão humano, verossímil e tácito que chega a assustar.
Das protagonistas, sem desmerecer as demais, a minha é a Nana. Difícil não exercer empatia para esta personagem a realidade que está inserida – não falo mais para não prejudicar a leitura de um desavisado que leia esta pequena resenha e não conheça o romance.
O que falar da autora e seu estilo literário? Mayra escreve bem, as palavras desfilam ordenadas e a prosa flui solta. Os acontecimentos mais leves cedem lugar aos pontos de tensão sem quebrar a narrativa, e podemos identificar com facilidade a particularidade das confidencias das protagonistas, e aqui o ponto alto são as confissões de Sofia ao seu interlocutor, onde podemos enxergar a complexidade de sua vida. Ela tem tudo, materialmente falando, mas é triste ver como lhe falta tanto.
Mayra consegue viajar por estas diferentes personalidades e ver o mundo com olhos diferentes em momentos distintos. Quando li a sinopse imaginei que seria uma tremenda loucura trabalhar com quatro protagonistas. E realmente seria, se a autora não soubesse o que estava fazendo.
Mayra sabia o que estava fazendo.
E deve estar orgulhosa do que fez.
Eu estou, para ser sincero.
Recomendo sem ressalvas.