Numa época em que a imagem de Che Guevara está em toda parte como símbolo de mera rebeldia, é tão oportuno quanto instigante o resgate empreendido por Luiz Bernardo Pericás de uma faceta essencial, mas pouco conhecida, do líder guerrilheiro: a do administrador e estadista.
Che Guevara e o debate econômico em Cuba -
Luiz Bernardo Pericás
O outro lado da camiseta
Como pretendia o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli ao popularizar a mais conhecida fotografia de Ernesto Guevara de la Serna – primeiro na capa da edição dos "Diários do Che" publicada logo após sua morte na Bolívia, em outubro de 1967, depois nos pôsteres que inundaram o mundo durante o maio de 1968 – exibi-la era então uma manifestação de franca simpatia para com o comunismo e a revolução, ao menos sob a forma idealizada e rejuvenescida que Cuba parecia prometer. Logo se tornou, porém, foi transformado por fabricantes de adereços juvenis em símbolo de inconformismo adolescente, cada vez mais difícil de distinguir de um James Dean ou um Bob Marley. Por fim, virou um clichê pop aparentemente tão vazio e inofensivo quanto Mickey Mouse ou Marilyn Monroe – a ponto de enfeitar biquínis desfilados por Gisele Bündchen e bolsinhas de grife vendidas por US$ 4.500 a unidade. A obra de Walter Salles serviu, no mínimo, para lembrar às novas gerações que, por trás desse ícone, houve um ser muito humano. Mas dizer, como a MTV, que é “o filme por trás da camiseta” é propaganda enganosa, pois se detém muito antes dos dos atos com que esse jovem idealista – um entre muitos outros – tornou-se o símbolo das esperanças de uma época. Para começar, o rosto estampado nas camisetas não é o de um estudante de medicina: a famosa imagem de 5 de março de 1960, registrada pelo fotógrafo Alberto “Korda” Gutiérrez, é tecnicamente a de um banqueiro – a do presidente do banco central de Cuba. No mesmo lugar em que a assinatura de Henrique Meirelles adorna os nossos reais, a rubrica Che garantia então os pesos cubanos. Um ano depois, Guevara passaria a ocupar um cargo equivalente ao de Miguel Jorge no Brasil – o de Ministro das Indústrias. Que tipo de revolução esse homem pretendia? Por qual modelo de economia e sociedade ele não só lutou e morreu romanticamente nas montanhas, mas também trabalhou em escritórios e assumiu responsabilidades? O livro "Che Guevara e o debate econômico em Cuba", do historiador e cientista político Luiz Bernardo Pericás, lembra Guevara não como garoto-propaganda da irreverência juvenil, da luta contra as injustiças ou mesmo do socialismo, mas como estadista que respondeu por drásticas medidas econômicas e sociais. Segundo uma anedota muito contada, inclusive pelo próprio Che, Fidel, após a vitória, distribuía o ministério aos comandantes da guerrilha de acordo com suas qualificações profissionais. -Quem é agrônomo? -Eu! -Pois será o ministro da Agricultura. -Quem é advogado? -Eu! -Será o ministro da Justiça. Aí Fidel perguntou: -Quem aqui é economista? Guevara respondeu: -Eu! Fidel, surpreso, o nomeou presidente do banco central – e o designado ficou ainda mais perplexo. Terminada a reunião, Fidel chamou-o em particular: – Che, todos sempre soubemos que você é médico, mas você nunca nos disse que também é economista. Que negócio é esse? – Economista? Mas, Fidel, eu ouvi você perguntar quem é comunista! Seria interessante saber o que outro conhecido médico - Antonio Palocci - pensou ter ouvido de Lula antes de aceitar o ministério da Fazenda. Certamente, não foi a mesma coisa. Em todo caso, a piada tem um fundo de verdade. Durante os primeiros dez meses da revolução, profissionais moderados dirigiram a equipe econômica. Como Felipe Pazos, que havia presidido o banco central antes de Batista e também trabalhara no FMI e no Banco Mundial, mas renunciou em outubro de 1959 em protesto contra a prisão de Hubert Matos, líder guerrilheiro que se rebelara contra a infiltração comunista. Pazos saiu de cena e foi trabalhar para a Aliança para o Progresso, para o BID e para Carlos Andrés Pérez. Che o substituiu, não por conhecer economia, mas por ser – como braço esquerdo de um Fidel adequadamente canhoto – o mais capaz de por em prática a guinada da revolução para a esquerda. O novo presidente do banco central continuou a receber apenas seu soldo – não tão desprezível, 440 pesos –, enquanto continuava a participar de funções militares e da gestão de algumas indústrias já estatizadas. Instituiu o primeiro “dia de trabalho voluntário”, convocando estudantes, trabalhadores e militantes a trabalhar de graça pelo país e pela revolução pelo menos 240 horas por semestre, nos domingos – e, naturalmente, não se recusou a dar o exemplo, trabalhando até mais do que isso na estiva, em fundições, na fabricação de cimento ou no corte de cana. Che ouviu teóricos da Cepal e da revista marxista norte-americana "Monthly Review", chocou os funcionários mais antigos ao encher o gabinete de guerrilheiros e despachar de uniforme militar, com os pés em cima da mesa e visitou países socialistas atrás de investimentos, acordos comerciais e empréstimos. Em maio de 1960, Cuba rompeu com o FMI e repudiou a dívida externa herdada de Batista – cerca de US$ 50 milhões em títulos de 4% a 4,5% anuais – para fazer outra, de US$ 375 milhões, com os novos aliados. Cerca de 14% do PIB, mas na maior parte em condições literalmente camaradas. Uma das fatias mais grossas foi proporcionada por Mao: US$ 60 milhões. Guardadas as proporções, seria como US$ 13 bilhões para o Brasil de hoje – cerca de 40% da atual dívida com o FMI –, sem juros, com 15 anos para pagar. O acordo proposto pelos cubanos descrevia a ajuda como “desinteressada”. Os chineses discordaram: tinham, sim, interesse na vitória da revolução em Cuba, garantiram. Mesmo se seu próprio país estava na época mergulhado em terríveis dificuldades econômicas: o fracasso do “Grande Salto para a Frente” havia causado uma crise agrícola sem precedentes, durante a qual 10 milhões a 15 milhões de camponeses morreram de subnutrição. Eram tempos e expectativas tão diferentes que a rigor é tolice comparar seu desempenho com o de governos mais recentes. O Che admirava o desprendimento dos chineses (a ponto de ser classificado como maoísta pela CIA) e desdenhava a burocratizada URSS que, segundo ele, retornaria ao capitalismo em algumas décadas se não mudasse de rumo. Mas, ao menos no plano das intenções, até os acomodados soviéticos ainda sonhavam alto: o programa do PC soviético de 1961 previa a concretização do comunismo em 1980, com o desaparecimento do Estado, distribuição gratuita de todas as meradorias e 20 a 25 horas semanais de trabalho, no máximo. Estabelecidos a nova inserção internacional de Cuba e a possibilidade de independência econômica, Fidel Castro, em fevereiro de 1961, transferiu Guevara para o Ministério das Indústrias – dois meses da fracassada tentativa de intervenção norte-americana na Baía dos Porcos e da proclamação do caráter marxista-leninista da revolução cubana. Guevara defendeu e realizou a estatização total da economia cubana, mas enquanto Moscou sugeria uma relação de interdependência e divisão do trabalho com o bloco soviético, sem ênfase na industrialização, Guevara insistiu em uma indústria razoavelmente auto-suficiente e a construiu na medida do possível. Na URSS, o reformismo de Khruschev e sucessores afastava-se do planejamento central estrito para a estimular a busca do lucro pelas estatais, inclusive com incentivos materiais para trabalhadores e dirigentes. Guevara insistia em um sistema orçamentário de planejamento estatal, em incentivos puramente morais como os caminhos para um socialismo autêntico e na contínua radicalização da revolução e da criação do “homem novo” – o que levou alguns ortodoxos a rotularem-no, paradoxalmente, de trotskista. As dificuldades foram imensas. Grande parte dos técnicos e engenheiros já estava em Miami e a contribuição dos que se dispunham a ficar era desprezada por dogmáticos militantes de base. Muitas das máquinas herdadas dos tempos pré-revolucionários eram incompatíveis com as peças e equipamentos soviéticos e muitos destes eram de má qualidade. Criava-se capacidade de produção de bens finais para os quais não havia matérias-primas. Faltava coordenação, comunicação e iniciativa para resolver as inúmeras dificuldades da produção. O próprio Che considerava tais problemas muito mais graves que o próprio bloqueio norte-americano, mas o relativo sucesso de sua empreitada econômica é atestado pela sobrevivência de Cuba ao colapso da URSS, muito depois que sua empreitada guerrilheira fracassou no Congo e na Bolívia. O custo, porém, foi elevado. Incluiu o atrelamento dos sindicatos ao Estado e o caráter praticamente obrigatório que o “trabalho voluntário” por vezes tomou, diluindo as fronteiras entre a nobreza da proposta original e uma mera escravidão. Mais importante do que vestir sua camiseta ou admirar o personagem é refletir sobre sua experiência e avaliar o que nela é hoje anacrônico (ou sempre foi um equívoco) daquilo que merece ser retomado e revivido.
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