Todos os adjetivos mais exagerados seriam insuficientes para definir a qualidade e a genialidade por trás deste livro. À primeira vista, o leitor pode julgar que se trata de mais um dos inúmeros livros que se destinam a história da língua portuguesa sob uma perspectiva estritamente acadêmica.
Entretanto, o autor se apropria de uma verve literária para deixar a história ainda mais interessante (e por que não mais verdadeira?), bastando lembrar que, durante a construção cronológica do idioma, nada daquilo que se promovia era visto como parte de uma «construção da pura e castiça língua portuguesa».
É assim que Marco Neves chama o leitor para o universo da língua e da própria história dos países lusófonos, incluindo também a Galiza. Cada capítulo reproduz um conto com personagens reais, como D. Afonso Henriques, D. Dinis, Camões, Eça etc., e outros tantos personagens fictícios que, a bem da verdade, só o consideramos fictícios por não haver registro de suas vidas para a posteridade. Contudo, quem pode negar que os Contreiras de fato não cruzaram todos esses momentos importantes na história da língua?
Além da qualidade na transmissão das informações a respeito da construção gradativa da língua portuguesa, não se pode olvidar da qualidade dos contos criados por Marco Neves. Enquanto lemos as narrativas capítulo a capítulo, com a inserção desses personagens anônimos entre grandes vultos tidos como cultores do idioma, nós também somos levados a pensar na própria história dos nossos antepassados longínquos e o que devem eles ter vivido para que hoje estivéssemos aqui.
O autor mostra que a história da língua portuguesa não é apenas a história dos grandes escritores que o passado nos legou, mas é a história dos nossos próprios ancestrais que, sem perceber, passavam adiante aquilo de mais valioso e precioso que havia, a maior ferramenta de comunicação já criada: a língua. A história do português não deve ser entendida como a história de um ente abstrato, mas sim como a história que nós próprios estamos agora mesmo a construir; sempre infindável, cheia de surpresas e mistérios.