A primeira versão deste livro foi lançada em 1971 com o título A nova esquerda: a revolução antiindustrial, numa época em que a sociedade americana se desorientava em meio à violência organizada e ao passionalismo militante e niilista; uma época em que os campi universitários eram fechados à força por estudantes marginais que brandiam faixas de “liberdade de expressão”; uma época de psicodélicos, de “heróis” assassinos como Fidel e Ho Chi Minh — uma época de muitos ataques lançados em nome de uma causa que ninguém conseguia identificar. Ayn Rand foi quem lhe deu um nome. Nos ensaios contidos neste livro, posteriormente editado e aumentado por Peter Schwartz, Rand identifica a essência ideológica daquela revolta: a nova esquerda, descendente dos filósofos do establishment e de suas doutrinas antiindividualistas e anticapitalistas, defendia sem cerimônias que não se tratava mais de tomar posse das indústrias pela revolução do proletariado, mas sim de renegar e destruir mesmo a tecnologia e a ordem geral da sociedade industrial moderna, causando um retorno a um estágio primitivo de ordenação social. Rand apontava já naquela época que tanto os ambientalistas quanto os multiculturalistas desejam destruir os valores de uma era racional e industrial, ambos são rebentos da nova esquerda e ambos conduzem com o maior zelo suas campanhas de sacrifício do progresso ao primitivismo.
O retorno do primitivo - a revolução antiindustrial
Ayn Rand
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Ó, tá aqui um livro que me trolou bonito, viu! Até a metade eu tava super empolgada, tava sendo o melhor e mais completo livro que já li. Sabe de naaada inocente! Mas eu acho super válido a gente conhecer vários pontos de vista, ampliar o nosso horizonte de possibilidades, de ideias. Até mesmo pra não sofrer uma ditadura do pensamento autoinfligida. Eu poderia transcorrer aqui sobre vários absurdos que o livro apresenta, e todos chegariam nesse ponto: a sobrevivência do mais apto (é uma frase cunhada por Herbert Spencer). Sabe aquela atmosfera de Star Trek? Onde o que define seu lugar na sociedade são suas habilidades, não sua herança, cor, gênero ou posses? Pois é, isso só que sem a solidariedade e tolerância de Star Trek. Nesse contexto, pouco importa se você é preto, pobre, deficiente, mulher. Indifere sua criação, sua educação, seu contexto cultural, as tradições do lugar onde você nasceu e/ou cresceu. Nada disso importa. A bolha escolhida por Rand é os EUA e o sonho americano. Mas nem tudo se joga fora viu! Eu vou chegar na parte boa. São vários artigos que ela escreveu entre 1963 e 1965 e da metade pro final vem os artigos escritos por Peter Schwartz que, dizem ser um futurista americano. Inclusive o assunto feminismo é explanado por ele, não por ela. rs Já começou errado. Não que homens não possam falar sobre o feminismo. Inclusive algo muito legal que aprendi no livro da bell hooks A Teoria Feminista é que os homens precisam ser educados a respeito disso justamente para acabar com essa questão pela raiz (daí o termo feminismo radical). Rand, ops, Schwartz diz que as feministas querem se aproveitar de benefícios governamentais, os quais são extorquidos dos homens. Que as mulheres usam o gênero como uma desculpa para seus esforços e habilidades ineficientes. O mesmo, ele e Rand dizem sobre o racismo, a esquerda, o coletivismo, capacitismo, multiculturalismo, ambientalismo. É tudo desculpa. Ao negar o coletivismo ela nega a interdependência, certo? Eu achei extremismo e hipocrisia porque ao passo que ela defende o livre-arbítrio e a individualidade, ela não aceita o diferente. Ela faz uma crítica atroz a Kant, segundo ela, por sua negação da realidade (eu mesma nunca li Kant). Ela disse que Kant foi o primeiro hippie da história. Segundo Rand, o sistema político perfeito seria o do capitalismo laissez-faire, onde o mercado deve funcionar livremente, sem interferência, taxas nem subsídios, apenas com regulamentos suficientes para proteger os direitos de propriedade. O que Rand não explica é como fica a questão do monopólio, especialmente aquele em que as empresas são em sua maior parte estatais. Temos como exemplo a Petrobrás, e companhias de energia e água aqui no Brasil. O que ela não explica é como isso funcionaria na prática. De onde sairia o dinheiro para manutenção de vias públicas, presídios, parques públicos, e auxílios de assistência social? Auxílios públicos, como auxílio à famílias de baixa renda, aposentadoria, auxílio doença (o qual a própria autora precisou e utilizou no fim de sua vida) fazem jus aos impostos pagos, o problema, para Rand, é que quem paga isso são todos os outros contribuintes trabalhadores. Como se os que recebem também não trabalhassem ou que isso fosse o suficiente. Como ela diz que o industrialismo não deve parar para que todos tenham conforto, bem-estar, luxos que nos poupam tempo. Quem tem condição, tem. Mas e quem não tem? O roçador de pasto trabalha tanto quanto o executivo de uma multinacional e nem por isso eles têm as mesmas condições. Ela diz que ideias devem ser combatidas com ideias, refutação, argumentos, ação, ativismo. Não à passividade e ao vitimismo. Mas ela não aceita que a refute. Numa entrevista que ela concedeu, uma condição para a entrevista era de que o apresentador do programa não confrontasse suas ideias. Por que será?! Ela defende que ninguém pode violar os direitos do outro. Isso é muito válido, principalmente quando se trata de convicções religiosas e políticas. A desumanidade do altruísmo, para Rand, significa que o egoísmo é como um instinto de sobrevivência. Ela faz uma declaração de amor à filosofia. O que é muito emocionante. Ela defende a razão como guia das ações humanas, e portanto condena tudo relacionado ao misticismo, fé, religião e emoção! Em um trecho ela diz: Homens criaram deuses e demônios à sua semelhança; fantasias místicas são inventadas para explicar fenômenos para os quais os homens não encontram explicação. A única parte que fez sentido pra mim foi sobre a educação, exclusivamente do ponto de vista da individualidade, não sobre a questão progressista. O desenvolvimento infantil e a importância da primeira infância para definir o resto da vida. A volição como fundamento no processo de aprendizagem. O que ela não admite é que há outros fatores que influenciam, como questões neurológicas, cognitivas e pedagógicas. Ensinar as mesmas coisas, do mesmo jeito para pessoas diferentes, onde fica a individualidade nisso? A cultura do pede bença, divide o brinquedo, não seja egoísta, tira a autenticidade das pessoas, transformando-as em banais conformistas. Quem quer poder busca submissos. Esse é o objetivo do coletivismo. Quando ataca/limita a razão, objetiva o poder. Segundo ela, o existencialismo exime o ser humano da responsabilidade por suas emoções e ações subsequentes. Ela diz ironicamente: Não sabe como agir? Não seja tolo, a coragem consiste em agir sem conhecimento. Há muitos trechos sarcásticos no livro que se tu não souber interpretar vai sair duplamente confuso. Ela diz que os hippies são um bando de transviados sem pensamento, sem foco, sem propósito, sem trabalho. Reforça a importância do senso crítico, para ler e não tomar como verdade, fake news, ver sem se deixar sensibilizar: o faz-de-conta é um luxo perigoso com o qual apenas quem captou a distinção entre o real e o imaginário pode arcar. A formação de conceitos exige solitude. Assim como a felicidade é individual e intransferível. O bando, o coletivo, assim como a religião é a muleta do indivíduo sem habilidades, sem objetivos. A parte mais interessante e mais importante: AS DROGAS Segundo Rand, o uso de drogas advém da imposição cultural de que devemos pertencer a um bando, de que a razão não importa, que a realidade é uma ilusão e que é preciso fazer tudo para ser aceito no grupo, inclusive abrir mão de si mesmo (o altruísmo). Sua causa é a fuga para problemas econômicos, políticos, sociais e filosóficos. A culpa é dos pais e professores que proibiram as crianças de serem quem elas realmente são e as obrigaram a colocar o outro como prioridade, reprimindo assim sua autenticidade, fazendo-a se comprimir para caber nas vontades dos outros (como as crianças dos comprachicos) levando a um estado de baixa autoestima, falta de autoconfiança, buscando querer esquecer, esconder, acompanhar. Deixando-os fracos e desnorteados. É a admissão da impotência pessoal. De não conseguir lidar com um estado interno insuportável. A solução seria um renascimento da filosofia. Apelos a lar, igreja, tradição não resolvem, nunca resolveram. Homens felizes não procuram ficar chapados. Eu concordo demais com essa parte. Sobre o apolíneo e dionisíaco de Nietzsche, Rand afirma que não há dicotomia. A emoção deve ser sempre guiada pela razão. São as emoções irracionais do homem que o derrubam na lama; é a razão do homem que o leva às estrelas. Ela compara Woodstock e o lançamento da Apollo 11, sendo o primeiro evento dionisíaco e o segundo apolíneo. As ideias dela tem a capacidade de gerar admiração e perplexidade. Mas calma, a meu ver, essa utopia tem grandes chances de nunca acontecer. Precisaria um colapso econômico-social-ambiental(não necessariamente nessa ordem - me diz aí o que você acha) para que isso aconteça. O coletivismo consegue adeptos através da propaganda do medo (da rejeição, da solidão). Um medo crônico (p. 134) que os une numa só tribo. Falando em tribo, os tribalistas são bandos humanos igualitários, racistas, multiculturalistas, etnocentristas, feministas. A partir do momento que pede cota admite a inabilidade, não quer conquistas baseadas em méritos. Como ela pode defender o individualismo, mas criticar o multiculturalismo? Condenar o igualitarismo mas não admitir que as pessoas, as condições e as circunstâncias são diferentes? Em uma palavra, ela é contraditória. Uma característica do objetivismo é ser restrito e não aceitar a diferença, mas tão contraditório que prega o individualismo. Resumindo: RAZÃO+INDIVIDUALISMO+COMPETIÇÃO = CAPITALISMO MISTICISMO+ALTRUÍSMO+COLETIVISMO = ESQUERDA HABILIDADES+CONDIÇÕES+CIRCUNST NCIAS = MERITOCRACIA Se eu estiver enganada, por favor me digam! Pelo que ela explicou sobre o coletivismo ditatorial me lembrei do filme o Poço. Uns pegam o melhor e vão passando adiante, dando migalhas para os que precisam até não sobrar nada e muitos ficam sem. A meu ver ela nega o racismo, a desigualdade de gênero. Ela parece simplesmente fechar os olhos a isso. Usa uma viseira de burro. Tão idealista que não vê a realidade, mas é justamente a realidade que ela diz prezar. Como seria se a gente consumisse menos? O consumo não afeta o planeta? Será que a tecnologia que tem que acompanhar, ao invés da gente reduzir o consumo? Muitos conceitos atrasados, com dados e referências baseadas em 1970. Por exemplo: Se e quando houver evidência genuína de que algo produzido pelo homem é prejudicial à saúde humana nenhuma resposta é dada. Ora, isso lá é honestidade? Não colocar a resposta no livro e só escrever isso significa por acaso que de fato não haja uma resposta? Peter Schwartz comparou o impacto da industrialização ao desaparecimento dos dinossauros da terra dizendo desapareceram muito antes de existirem quaisquer industriais ou homens. Sim, a tecnologia traz comodidade e facilidades, mas não podemos negar que ela gera lixo, poluição e que é preciso encontrar meios para causar menor impacto sem abrir mão dos luxos e facilidades que reduzem o esforço humano e libera tempo (cadê esse tempo?) para outros assuntos. Como disse Carolina Maria de Jesus em Quarto de Despejo, se seu tempo é dedicado apenas para o básico não sobre pra criar nada. Peter cria uma teoria conspiratória de que os ecologistas são um meio para o estabelecimento de uma ditadura global. No artigo A Era da Inveja ela diz que alguém que deseja e não tem, não quer se esforçar ou não consegue obter de outro meio; e por isso odeia quem tem pelo simples fato de tê-lo. O ódio do bem por ser o bem. A inveja não como impulso e inspiração para melhorar, mas como desejo de ver a desgraça alheia = vulgo hater. Não querem possuir sua fortuna, querem que você a perca. Amigo bom é aquele que o incomoda (gera inveja boa) por estar certo e te incentiva a buscar essa virtude, não aquele que fica no atoleiro e te leva junto. Ela defende o individualismo e condena a tirania dos sistemas políticos coletivistas mas admite que tirania é todo sistema político que não reconhece os direitos individuais. Ela condena a ditadura mas é exatamente o que ela defende. Uma ditadura do consumo e do egoísmo. Só porque ela conseguiu, com as condições que teve, não quer dizer que todos tenham, e é aí que mora sua filosofia. Pra ela a seleção natural não se aplica apenas ao âmbito inumano, mas também aos humanos. Ao pensar em Ayn Rand, lembrem-se: a sobrevivência do mais apto. Se quer conhecer a filosofia dela sem ler livros didáticos, sugiro A Revolta de Atlas. Sem dúvida, uma mulher muito corajosa e ousada.
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