Barroco Tropical -

    José Eduardo Agualusa

    Companhia das Letras
    2009
    344 páginas
    11h 28m
    ISBN-13: 9788535915693
    Português Brasileiro

    Luanda, 2020. Uma mulher cai do céu diante de um escritor e sua amante. Em torno desse evento insólito, José Eduardo Agualusa traça um retrato hiper-realista de uma Angola em que as tradições arcaicas convivem com uma torta modernidade. Barroco Tropical é um livro ambicioso, de grande fôlego e densidade. A ação se passa em Luanda no ano de 2020 e é narrada alternadamente pelo escritor Bartolomeu Falcato e pela cantora Kianda, sua amante. Os dois testemunham juntos um fato insólito, a queda de uma mulher - literalmente - do céu. A mulher em questão é uma modelo e ex-miss que frequentou a cama de políticos e empresários de expressão, o que a tornou uma figura incômoda para o establishment. Numa narrativa que avança e recua livremente no tempo e que se desloca entre a África, a Europa e o Brasil, Agualusa traça um retrato vivo e pulsante da sociedade angolana atual, onde as tradições ancestrais convivem de modo nem sempre pacífico com uma modernidade mal assimilada. Essas contradições estão sintetizadas no prédio onde mora o escritor Falcato, a Termiteira, futurística torre de 60 andares, o maior edifício do continente, que não terminou de ser construído e já está em ruínas, abrigando os ricos nos andares superiores e a ralé social e criminal no subsolo. Mães de santo e curandeiros convivem nestas páginas com figurinistas de fama internacional, empresários da aviação, militares golpistas e traficantes de drogas e de armas. Romance generoso e exuberante, cheio de personagens pitorescos, Barroco tropical reflete desde o título o que Agualusa identificou em seu país como "uma certa cultura do excesso, quer na maneira de as pessoas se divertirem, quer na maneira de demonstrarem o sentimento e a dor". O insólito está sempre presente, mas intimamente entrelaçado ao prosaico e ao cotidiano, pois, como declarou o autor, referindo-se a Angola, Portugal e Brasil, "nos nossos países a realidade tende a ser muito mais inverossímil do que a ficção".

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    Carla Silva picture
    Carla Silva14/12/2009Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Surrealismo com excesso de páginas

    Um universo pontuado de personagens e situações surrealistas. Uma narrativa que vai pra frente e para trás, continuamente, enquanto os protagonistas alternam suas vozes para nos falar de dor, de medo, de esperança, de amor, de desequilíbrio; de traições e ditadura. De perdas. E de arte, música, literatura, sociedade - tudo isso em relação a Angola. O romance tem passagens deliciosas que me vi lendo em voz alta; certos diálogos servem para discutir ideologias e contrapor tradição/ inovação, verdade/ mentira... Há momentos em que acabei rindo - apesar do assunto, com freqüência trágico. E trágicos são quase todos os personagens: um verdadeiro desfile de figuras sofridas. E contudo, Agualusa continua me parecendo um otimista, uma 'persona' luminosa por trás de seus personagens; sua visão, o gosto que deixa após a leitura, não se modifica: não se olha a História com desespero ou rancor, não que eu perceba; o sofrimento nunca é capaz de obliterar a simples vida, com todas as suas contradições. Mas reconheço que este "Barroco Tropical" - que a certa altura me fez lembrar até de filmes de Woody Allen, e isto é elogio! - tem páginas em excesso; se Agualusa tivesse narrado sua trama em 244 páginas ao invés de 344, poderia ser melhor. Há humor, e absurdo, e crítica idelógica que felizmente (e isso é mérito constante do autor) não soa clichê e nem irritante.

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