Entrevista com o professor -

    Lívio Soares de Medeiros

    Chiado
    2019
    140 páginas
    4h 40m
    ISBN-13: 9789895262861
    Português Brasileiro

    Eu fui professor. Eis tudo. Eu quis ser roqueiro por desejar aquilo que qualquer um deseja quando decide estar numa banda de rock: sexo, liberdade, rebeldia, contestação, inconformismo, fama, dinheiro, possibilidade de se criar a beleza, fãs, entrevistas, shows... Sim, eu queria essas coisas, bem como queria a amizade e o cansaço de estar numa banda de rock. Eu queria ser amado por uma canção que eu tivesse composto, que o rock me tirasse de minha insignificância. Eu queria aproveitar a vida, não ser um burocrata num mundo chato. Há pouco, comentei que errei de destino ao acatar as aulas que me foram ofertadas, mas ainda que eu não as tivesse acatado, falta-me o básico para o que acalentei ― talento. (Disponível em https://www.amazon.com.br/Entrevista-professor-L%C3%ADvio-Soares-Medeiros/dp/9895262868/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=entrevista+com+o+professor&qid=1578178781&sr=8-1)

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    Luiz Pereira Júnior30/05/2020Resenhou um livro
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    Poderia ter sido, mas não foi...

    Sei que parece pedante começar por uma reclamação por algo que, à primeira vista, parece ser algo menor, mas paciência: irritou-me bastante os problemas de diagramação do livro. Na verdade, um único problema que se estende por toda a obra: o esquecimento de tirar o hífen (deve ser algo relativo à composição gráfica ou algo do gênero) de várias palavras por todo o livro (“pró-ximo”, “arti-gos”, “vonta-de”, “perti-nácia”, “quan-do”, só para ficar em cinco exemplos). Um dos pontos bons do livro é que o protagonista é um alter-ego do escritor (será que nem alter-ego ele é? Será que não foi uma tentativa disfarçada de o autor se entrevistar?). Disse que isso era bom, e permaneço na minha visão de que isso dá ao livro uma enorme verossimilhança, mas, por outro lado, parece empobrecer a obra, que, em seus piores momentos, parecem apenas ruminações do poderia-ter-sido-mas-não-foi. No entanto, em certos trechos, a resposta do entrevistado foi visivelmente burilada pelo autor do livro, tirando a qualidade da verossimilhança desses trechos. A linguagem se torna rebusca e, o que é ainda mais irritante, a entrevistada parece ficar siderada, fascinada por esses trechos de sermões, agradecendo a todo instante pela inspiração. Algo que beira o risível, a bem da verdade. Há pontos negativos, sem dúvida, como já comecei a apontar acima. Toda obra os tem, e aqui não é diferente: alguns chavões poderiam ter sido mais bem apresentados e deixariam de ser chavões, é claro (a ideia de que “não tive filhos para não colocar uma criatura neste mundo cruel” já é tão batida que até a citação de Machado não melhora esse trecho do livro). Outro problema do livro é que, por vezes, as opiniões beiram o panfletarismo, mas, em relação a isso, prefiro pensar que estou enganado e que as reclamações constantes contra o sistema, o governo, a sociedade, a tecnologia (embora ele reafirme a todo instante que não é contra ela – algo que o próprio texto contradiga o entrevistado/autor) são um desabafo que das duas uma: ou daqui a alguns anos o autor será visto como um denunciador dos absurdos do atual governo, ou essa será uma parte francamente datada do livro, sem maior interesse para o leitor. Não me entenda mal: o que não faltam são críticos do atual governo e vários deles são muito melhores em expor suas ideias do que os sermões cheios de lugares-comuns do protagonista/autor. Algo também irritante são as reclamações do entrevistado/protagonista/autor (mais uma barra). Ele se torna (ou se toma por) uma espécie de palmatória do mundo, mas nada faz para mudá-lo. Abomina a profissão que escolheu, mas não fez nada para mudar de profissão. Em outras palavras, um reformador social sentado em seu sítio, ruminando como as coisas seriam melhores se ele tivesse seguido a profissão certa – ao menos para ele: ser roqueiro... Mas, e então? Vale a pena investir seu dinheirinho nesse livro. Vale, sim, não desmerecerei a obra. Por ser um autor nacional, por ser um gênero pouco visto em nossas letras (e acho que nas letras de qualquer idioma), por apresentar uma reflexão que pode dar boas sementes se a terra (o cérebro do leitor) for propícia, por ser uma visão extremamente atual do que estamos vivendo... vale a pena lê-lo, sim.

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