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    O centésimo em Roma -

    Max Mallmann

    Rocco
    2010
    424 páginas
    14h 8m
    ISBN-13: 9788532525079
    Português Brasileiro
    4.3
    63 avaliações
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    Humor, fina ironia e uma profusão de referências, que vão de Tácito a Shakespeare, passando por Machado de Assis, dão forma ao imperdível romance histórico O centésimo em Roma, do escritor e roteirista Max Mallmann. Com base em sólida pesquisa, Mallmann recria, de forma magistral, a Cidade Eterna entre os anos 68 e 70 d.C.: romanos nobres e plebeus, cristãos, judeus, gregos, etíopes, indonésios e germanos convivem em vielas e becos de uma Roma que cheira a “molho de peixe, suor e esgoto”, e que por isso mesmo é amada pelo atrapalhado centurião e protagonista da história, Desiderius Dolens. Dando vida a legionários, prostitutas, senadores e césares – a maioria com existência comprovada –, Mallmann apresenta ao leitor um caldeirão onde se misturavam corrupção, assassinatos, luxúria, vinho e muito sangue.

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    Resenhas (12)Ver mais
    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa picture
    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa04/04/2012Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Em Roma, como os romanos

    O Brasil tem uma forte tradição em romances históricos, que inclui seu primeiro romance de qualquer gênero (Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida), O Guarani, de José Alencar e, para dar exemplos mais recentes, Agosto de Rubem Fonseca e Desmundo de Ana Miranda. Mas praticamente todos se restringem ao passado do próprio Brasil: raros se aventuram em história antiga ou medieval, talvez por receio de serem escorraçados ao visitarem território tradicionalmente reservado a autores da Europa e América do Norte e ridicularizados como imigrantes sem documentos. Se acaso é assim, é um desperdício. Para se constatar que é perfeitamente possível a um brasileiro escrever boa ficção histórica sobre a Antiguidade, basta ler O Centésimo em Roma (Rocco, 423 páginas, R$ 49, também disponível como e-book) do escritor e roteirista gaúcho Max Mallmann, autor também dos romances Síndrome de Quimera e Zigurate e do roteiro da telenovela Coração de Estudante. A recriação da civilização romana do tempo de Nero e do Ano dos Quatro Imperadores não deixa nada a dever a romances estrangeiros comparáveis. O primeiro deles que vem à mente ao se ler este livro é Asteca, best-seller de 1980 do estadunidense Gary Jennings mais tarde dividido, por razões editoriais, em dois volumes, Orgulho Asteca e Sangue Asteca, que teve várias sequências e ainda é bem vendido. Não só pelo trabalho sério e fiel de reconstrução da história de uma civilização desaparecida, como também pela semelhança dos protagonistas. Assim como o Mixtli de Jennings, o Desiderius Dolens de Mallmann (as conotações dos nomes são propositais) é um cidadão livre de origem humilde que aspira a se tornar um nobre honorário, tem intimidade com todas as camadas sociais, vê sua própria sociedade com senso de ironia e apesar de não estar no topo da cadeia alimentar, está sempre no meio dos eventos mais decisivos de seu tempo. Dolens não pensa como Júlio César, que dizia preferir “ser o primeiro numa aldeia que o segundo em Roma”. Ele se satisfaria com ser o “centésimo em Roma”, como dizia um personagem do conto “Um homem célebre”, de Machado de Assis, mas parece condenado à frustração e à obscuridade de uma morte como plebeu, apesar de sua dedicação à Pátria e de ser notável, à sua maneira, em sua mistura de qualidades e defeitos, coragem e covardia. Mixtli é um ex-diplomata, guerreiro e comerciante asteca bem educado que narra sua história em primeira pessoa a um inquisidor espanhol. Já Dolens é um centurião romano íntegro e competente, mas inculto, cuja vida é narrada por um subordinado aleijado, culto e nobre, Trebellius Nepos, que depois se tornaria um historiador menor. Os capítulos de seu livro se alternam com narrativas mais detalhadas em terceira pessoa, apresentadas como especulações “ficcionais” a partir da história “real” que ele conta. A trama é mais complexa que a de uma mera história de detetive (embora esse elemento esteja presente), mas Dolens e Nepos são quase como Sherlock Holmes e o Dr. Watson. Apesar das frequentes desavenças, um e outro aprendem a se respeitar e admirar, ainda que não a se compreenderem totalmente enquanto lutam para sobreviver a tempos difíceis e imprevisíveis. Em alguns aspectos, Centésimo é superior a Asteca. A exatidão das descrições de cenários e costumes é comparável, mas Dolens é mais convincente como romano do que Mixtli como asteca. O herói de Jennings é demasiado atípico, tanto pela carreira inusual quanto por seus pontos de vista. Despreza o cristianismo tanto quanto os sacerdotes e as práticas sacrificais da civilização na qual foi criado e frequentemente pensa como um estadunidense liberal obrigado a se encarnar no corpo de um mexica. Sacerdotes cristãos e pagãos são retratados de maneira igualmente caricata. Já Dolens apresenta um misto de respeito aos deuses tradicionais, superstição, blasfêmia e ceticismo que seria de se esperar de um romano popular de seu tempo e Nepos pensa como bom filósofo estoico (inclusive quando o comandante o manda limpar latrinas). Ambos desprezam os cristãos, como também seria de se esperar, mas estes são retratados com equilíbrio em sua combinação de coragem, lealdade e estúpido fanatismo. Claro que é muito mais difícil para um estadunidense se imaginar asteca do que para um brasileiro se pôr na pele de um romano. São valores e costumes que não nos são tão estranhos – vale lembrar o título de um conhecido romance epistolar de uma governanta do século XIX, Ina von Binzer: “Os meus romanos: alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil”. O autor pode até se dar ao luxo de fazer alusões sutis a costumes e problemas brasileiros modernos sem cometer anacronismos. Por outro lado, o conhecimento histórico que se tem da Roma do século I é bem mais rico e detalhado do que da civilização asteca pré-colombiana, o que deixa menos espaço para a imaginação e mais para erros embaraçosos – mas ainda assim, o brasileiro se sai muito bem. E ainda melhor no que se refere a fazer personagens secundários, principalmente os femininos, parecerem reais. As muitas mulheres da vida de Mixtli são todas lindas e maravilhosas como um sonho, correspondem às suas fantasias e se dividem em dois grupos: doces relações casuais e paixões avassaladoras com finais trágicos. As de Dolens são mais palpáveis como personalidades próprias, independentes e imperfeitas, que lhe dão tantas satisfações e dores de cabeça quanto seria de se esperar de uma vida real. Além de se dividir entre a esposa bonita e briguenta que trouxe da Germânia, a prostituta velha que conhece desde a juventude e o desejo impossível por uma jovem aristocrata que o despreza, não consegue (nem quer) deixar de lado, o centurião sustenta a mãe, uma irmã viúva e uma escrava, nenhuma das quais submissa ao atribulado pater familias. Quanto a Nepos, é discreto sobre sua vida sexual, mas sua principal relação é com um seu escravo. Centésimo também se sai melhor no equilíbrio de peripécias trágicas, cômicas e eróticas da trama. Jennings abusa do melodrama e dos extremos de felicidade, prazer, ferocidade e desgraça, enquanto Mallman oferece mais quotidiano e meios-tons sem ser por isso menos interessante. A rotina melancólica dos bordéis e tavernas da Suburra (bairro boêmio e pobre onde vive a família de Dolens) e dos quartéis das cohortes urbanae (o equivalente romano da nossa polícia militar, sem nada do prestígio das legiões e da guarda pretoriana) se mostram tão fascinantes quanto a queda de Nero e as intrigas da sucessão. Enquanto Asteca fervilha de bizarrices eróticas que devem muito mais à fantasia do autor do que a fontes históricas, Centésimo faz um retrato balanceado da sexualidade romana, sem sensacionalismo. Os diálogos vivos e convincentes, as intrigas e as ironias certeiras dos personagens garantem o encanto e a diversão mesmo quando os gládios estão embainhados e as túnicas vestidas. O texto inclui alguns anacronismos intencionais, tais como citações de autores modernos inseridos no texto, inclusive trechos de Shakespeare, Churchill e Machado de Assis. Os mais sérios se integram bem na trama, mas aqui e ali se tornam óbvios demais– por exemplo, uma frase da Marselhesa no discurso de um senador, uma alusão a um clichê de cinema, versões latinas de lemas de torcidas de futebol brasileiras numa partida de harpastum (jogo romano de bola semelhante ao rúgbi) – e arranham a verossimilhança sem necessidade, pois os sarcasmos de Dolens, as manias de nobres e plebeus e a ironia intrínseca das situações em que se metem são muito mais eficazes como humor sem quebrar a consistência. Anacronismos involuntários são imperceptíveis, salvo, talvez, nomes alemães modernos como Köln (Colônia) nas bocas de germanos da época de Nero e Tristram (e Tristanus em latim) para um bretão, quando essa é uma variante medieval do nome Drust (latinizado Drustanus no século V) de vários chefes pictos da história real (e não, o personagem nada tem a ver com o amante de Isolda). Há também um ou outro despejo de informação que poderia ter sido mais hábil – por exemplo, um texto atribuído a Nepos se demora a explicar o significado de Dolens em latim, o que não caberia no texto de um intelectual romano escrevendo a seus pares. O único ponto em que este romance fica a dever ao de Jennings é na amplitude do cenário: enquanto Mixtli explora todo o mundo conhecido dos astecas, a ação do Centésimo se concentra em Roma, salvo ao insinuar, no final, eventuais sequências que poderiam se estender a outras partes do Império Romano. Se estas vierem a existir, com certeza serão igualmente dignas de interesse e leitura. O Brasil de fato conseguiu conquistar Roma, como escreve Mallmann na conclusão de seu posfácio: “bárbaro contemporâneo, cruzei o portão da Urbe não como quem invade, e sim como quem toma posse. A Roma Antiga não pertence apenas (…) aos europeus (…) A Roma latina é uma herança que também é minha, e hoje, com a voz e com as palavras que tenho, eu a reivindico”.

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    Max Mallmann profile picture

    Max Mallmann

    Max Mallmann nasceu em Porto Alegre em 18 de outubro de 1968. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1998, cidade em que viveu até sua morte prematura, em 04 de novembro de 2016, decorrente de um câncer diagnosticado pouco mais de um ano antes. Era casado com a escritora Adriana Lunardi. Estava trabalhando no romance A prole da Loba, terceiro volume das aventuras de Desiderius Dolens, legionário romano do século I apresentado em O centésimo em Roma e em As mil mortes de César. "Roteirista da TV Globo, fez parte do time de redatores da novela Coração de estudante e de séries como Malhação, Carga Pesada e A Grande Família. Ultimamente, trabalhava no roteiro da série Ilha de ferro. Estreou na literatura pouco antes de completar 21 anos, com Confissão do Minotauro (IEL/IGEL 1989). Pela Rocco, publicou Síndrome de quimera, finalista do prêmio Jabuti, e Zigurate – Uma fábula babélica (2003), além da série O centésimo em Roma (2010) e As mil mortes de César (2014), que acompanha a saga do anti-herói Publius Desiderius Dolens na Roma antiga. Baseada em ampla pesquisa, a série se filia ao romance histórico, mas flerta também com o gênero de ação e aposta numa narrativa cheia de ironia e humor. Esses últimos, aliás, eram uma marca registrada de Max Mallmann, que além de aficionado pela história do Império Romano, era dono de um senso de humor singular." [Nota de falecimento, publicada pela Ed. Rocco]

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    Max Mallmann