O livro de Meenakshi Gigi Durham, “O efeito lolita”, já no seu título faz alusão ao romance “Lolita”, de Vladimir Nabokov. Na visão de Durham, autora feminista, ela compreende que Nabokov apresenta em seu livro um caso de abuso sexual infantil, em que um adulto seduz uma criança de 12 anos. Para Durham, entretanto, a cultura não assimilou a crítica de Nabokov e acabou disseminando o que ela define como “o efeito lolita”. O que seria o “o efeito lolita”? A cultura midiática (filmes, livros, imprensa, jornais, revistas, músicas etc) toda vez que batiza algo como “lolita” sempre é com a intenção de vender a imagem de uma menina sexualizada e intencionalmente sedutora. Segundo a autora, estas são as chamadas “garotas sexies na mídia”. A denúncia de Durham, embora não possamos concordar com sua “visão libertadora do sexo”, é que estão promovendo uma imagem de meninas sedutoras cada vez mais novas e as vendendo como produto de consumo na cultura americana.
No ambiente atual, saturado pela mídia, desde muito cedo as crianças são bombardeadas com imagens e mensagens sobre sexo e sexualidade. Infelizmente, há provas suficientes de que as mensagens que elas têm recebido a respeito do sexo são nocivas, em vez de úteis. Pelo fato de as crianças estarem iniciando sua atividade sexual mais cedo do que outrora, os índices de gravidez na adolescênciatem crescido nos Estados Unidos e em outros países, e a incidência de doenças sexualmente transmissíveis entre adolescentes é extremamente alta. O abuso sexual de crianças é, também, muito comum — a Organização Mundial de Saúde estima que 25% das garotas e 8% dos garotos foram submetidos a alguma forma de abuso sexual; nos Estados Unidos, estima-se que 20% dos garotos e 25% das garotas já foram molestadas sexualmente (Durham, p. 12).
O texto acima é surpreendente por ser uma denúncia vinda de uma feminista. Ela também discerne a tragédia moral em que estão lançados meninos e meninas na América. Ela trata como “uma mudança cultural generalizada, que se tornou norma na America” (p. 21): as roupas cada vez mais parecidas com uma “prostituta de Cingapura” (palavras de Durham), as maquiagens, uma cultura de sedução infantil, tudo isso tem feito muitas pessoas dizerem “que o marketing das empresas está transformando as crianças pequenas em “isca de sexo” (p. 23). A autora feminista chega ao ponto de se indagar que, apesar da
…perspectiva feminista sobre a violência sexual ter nos ensinado que a jamais culpar a vítima: as roupas que uma mulher veste nunca são uma justificativa para o estupro. Mas, ao mesmo tempo, não deveríamos estar preocupados com a oferta de tangas para crianças com 1 ou 2 anos ou de jeans com cintura baixa para pré-adolescentes? (Durham, p. 30).
Tudo isso é levantado pela autora com todo o cuidado para não respaldar o discurso conservador e puritano. Não é esse o objetivo dela. Porém, ela também está assustada e vê a cultura midiática como uma propagadora de mitos. E são esses mitos sobre crianças, meninas e sexo que ela pretende destruir. Em determinado momento, ela indaga: “…por que somos forçados a escolher entre a cristã fundamentalista Joyce Meyers e a cantora pop Shakira como marcos sexuais no terreno da mídia? Por que não há um meio-termo?” (p. 33) Portanto, este é o “efeito lolita”:
uma rede de mitos generalizados sobre a sexualidade feminina, mitos que deslocam a realidade de seu lugar e interferem na capacidade das garotas de lidar com seu desenvolvimento sexual de modo proativo, diversificado, saudável e progressista (p. 39).