Esse foi o primeiro livro do Carlos Magno de Melo que li e gostei muito. Tive o prazer de conversar com o autor diversas vezes sobre como foi escrito, as pesquisas que foram feitas, o desenvolvimento da parte ficcional. É sempre uma experiência maravilhosa conversar com autores e desvendar oa segredos das obras.
Guaibimpará Caramuru conta a história do nascimento do Brasil. Desde a vida do Pedro Álves Correa, lá em Portugal durante o início da perseguição aos judeus, até o começo da República no Brasil.
O livro é dividido em três partes. Para mim, as mais interessantes foram as duas primeiras.
Na parte 1, a vida de Pedro em Portugal é pano de fundo para contar detalhes sobre a época das grandes navegações. Os fatos históricos são ligados por detalhes ficcionais que dão leveza à narrativa. Um amor não correspondido, jogos de poder, traições, prisões, vidas e mortes.
A segunda parte me apresentou a um Brasil totalmente desconhecido. Um Brasil de diversas tribos inimigas em grande parte e que não viam o menor problema em jantar um prisioneiro. Se não fosse pelo poder da arma de fogo, Pedro Correa, agora sim apelidado de "Caramuru", poderia ter sido o próximo jantar. Ok. Não foi só a arma de fogo que o salvou: ser extremamente magro também ajudou muito.
Mas o que me chamou a atenção é que a antropofagia só perdeu força quando começou a miscigenação de europeus com os índios. E que os europeus só desbravaram as terras brasileiras graças às armas de fogo. Sem elas, nossa história poderia ser bem diferente.
E foi da miscigenação, promovida ora pelo acaso, ora pela vontade, ora pela falta de opção, que os descentes de Guaibimpará, a Paraguaçú, e Caramuru popularam o Brasil e parte do mundo.
A última parte do livro é dedicada à essa miscigenação. Divididos em "Cardoso" e "Silva", o autor traz pequenos contos de como a linhagem de Caramuru e Paraguaçú se estendeu por todo o Brasil. Na última página, um parágrafo resume "Se ela e ele pudessem amarrar uma fita à cintura e na cintura dos descendentes e assim por diante, essas fitas acabariam por trançar e tecer um tecido anárquico e fabuloso. O povo do Brasil".
Leitura leve, fácil e divertida. Na última parte pode ficar um pouco confuso, pela quantidade de personagens citadas, mas não o suficiente para perder a mensagem principal do livro: somos todos filhos de Guaibimpará e Caramuru.