à medida dos tempos -

    Cleber Bianchi

    Multifoco/Selo Vale em Poesia
    2009
    100 páginas
    3h 20m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
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    Fabiano Fernandes Garcez picture
    Fabiano Fernandes Garcez25/03/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Um tempo que escorre aos olhos

    Em À medida dos Tempos, livro de estréia de Clebber Bianchi, percebe-se que no decorrer da obra o poeta amadurece seu canto, amplia suas impressões e expressões, suas visões e percepções de um tempo impossível de se aprisionar, mesmo depois de capturado pelo retrato fotográfico, restando ao olhar lírico apenas a nostalgia de um tempo tardio, mesmo que recente: Do peito, escorre a chama suja dos tempos. O olhar é simples, singelo, apenas os tempos são capazes de testemunhá-lo. O sorriso amarelou no retrato e a fala muda enalteceu a lembrança. Somente o sonho sobreviveu. E a saudade vive nas tardes, sob as folhas das mangueiras, a cada lágrima que cai. Clebber nos dá mosta do labor poético que preza a fenomenologia do olhar, olhar este que se volta para as coisas sem importância, coisas à toa e, por isso mesmo, são de grande valia e merecem ser recordadas: Haverá um tempo em que o passado estará exposto no reflexo das cores orvalhadas das flores do jardim da janela dos fundos. As goteiras farão as rimas dos versos que contarão a história. O silêncio que havia na casa grande havia entre os odores do curral. O galo que há pouco cantou propiciou reminiscências, que os roncos dos motores e buzinas, além do apitar cotidiano da fábrica, apagaram. RETRATOS A observação subjetiva das coisas simples, singelas, ganha um forte aliado, sua sintaxe também simples, sem afetações linguísticas de um discurso meramente formalista, que pouco comunica. O discurso poético de Clebber comunica bastante, para isso o campo léxico de À medida dos tempos é cotidiano, comum, no entanto é nessa simplicidade de dizer que é dito muito sobre a solidão, os sonhos infantis e até sobre o fato de se perder as palavras, restando apenas a contemplação sensorial do momento: Daqui de cima tudo é solitário. Viver acima é encontrar-se surdamente falando para si mesmo. Esta é a minha casa da árvore (sonho de criança) financiada em duzentos e quarenta meses, além de alienada. Quando enlouqueço e grito lá para baixo, somente as buzinas respondem. Em seguida, as palavras não me vêm. Apenas o pio da andorinha, um pio, um só. Apenas uma andorinha, uma andorinha apenas. UMA ANDORINHA Cleber vale-se de alguns recursos poéticos, apesar de sua linguagem acessível, como por exemplo, paradoxos e antíteses: O tempo é permissivo aos contentamentos descontentes. Vejo que tudo acontece ao mesmo tempo agora no cenário dos dias na cidade... PESARES DO TEMPO Hoje, o tempo me veio solteiro, em uma noite daquelas em que a melhor companhia era a solidão. EU INTRA além disso, em alguns poemas vê-se um jogo com os diferentes valores semânticos de uma mesma palavra, como em MÁSCARA: Um ser sem sentir-se um sentir-se sem ser. porém é nas belíssimas imagens poéticas que Clebber Bianchi se mostra mais criativo: Enquanto os sapos coaxam de sede, O sol atravessa a pele da terra, e meus ombros são minha camada de ozônio. DESALINHO Cansei de respirar uma felicidade esbaforida, cansada de se engasgar no soluço sórdido, numa exatidão sem nexo e triste de alma. (...) Bastou-me um santo e ajoelhei-me sobre as cinzas carbonizadas do meu consciente. DILATEM, PUPILAS! O poeta também se utiliza de alguns recursos sonoros que fazem com que os seus poemas ganhem em musicalidade e ecoem em nossos ouvidos. Um desses recursos, é o eco fonético, ou seja, aproximação de palavras semelhantes sonoramente: Eu era um descaso do acaso, angariado na contramão de uma grande avenida Os brilhos dos olhos lagrimantes de saudade de um tempo escorrido nos relógios refletiam a esperança do passado, apagada na realidade de um presente sério. TEMPO DE REZA Outro recurso utilizado pelo poeta é a onomatopéia: O relógio tinha que tá, tinha que tá mas não tá. (esta foi a única coisa que o tempo parou!) MANTO NEGRO Clebber mostra em seus versos, não raro, a influência de Tonho França, e faz uma homenagem à altura do poeta de Guaratinguetá em CHARUTO CUBANO: Uma lágrima seca escorreu-me de canto e o canto do pintassilgo emudeceu na gaiola. Minha cachaça perdeu o gosto quente, exposta ao sol dos dias. Mesmo uma pimenta aberta no prato caçoava minha coragem. Senti desconforto e, sob meus pés, o vácuo das manhãs sem sal provocava saudades. É contínua a direção dos ventos, segundo os sonhos, seguindo sempre somente e só... Os apoios que me sustentam são espinhos tristes, sanções expressionistas, cenários de Van Gogh. Meu peito dilatado ressalva as atitudes corriqueiras nas janelas temperadas de línguas. E sobre a rede ... ... e sobre a rede, somente um legítimo charuto cubano fazia-me companhia, e entre um trago e outro trago saudades. Ao fundo, solos de blues... Solos de blues, à tarde. As acácias choravam suas perdas, e as folhas caíam como eu, solitariamente... Outro destaque do livro é OLHOS FECHADOS, poema com uma vertente ecológica e, dado aos problemas ambientais, quem sabe, profético: A culpa é nossa! Uma culpa com a imensidão do verso, do céu-fumaça, estradas-pet, sertão-papel. Culpa tamanha! O sonho é esperança contida no escorrer das águas nas sarje¬tas, nas mãos atadas dos pobres de espírito, no papel de bala que perfurou o vento e não pesou sobre a mente poluída. É o início do fim. (...) Le Goff em História e Memória diz: “a memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia”. Com base nessa afirmação, só resta encerrar a resenha com os belíssimos versos de SEXO DOS TEMPOS, sem antes render as devidas congratulações ao poeta que surge à tempo: Sou atemporal. Minhas memórias não morrerão minhas

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