Utilizando-se de diários pessoais das pilotas, relatórios militares, biografias sobre participantes do conflito, da trajetória de vida e história oral das sobreviventes, Lyuba Vinogradova consegue passar para o leitor as emoções das batalhas e as tensões do background do front sem perder de vista os precedimentos historiográficos, ao comparar fontes e considerar suas distintas naturezas, desconstruindo mitos sobre o heroísmo soviético. Ao mesmo tempo que humaniza as aviadoras, também ressalta o papel estratégico que elas tiveram no conflito e as situa no programa amplo do estado soviético de emancipação das mulheres no socialismo. Para um leitor leigo sobre a história soviética e a contribuição do país na Segunda Guerra Mundial, Vinogradova situa o leitor no período descrevendo as aeronaves usadas, explicando os acontecimentos e também as particularidades da sociedade soviética da época, enriquecendo de informações sem tirar o foco do conflito. Com isso, a autora russa consegue contextualizar suas personagens em sua época, ao mesmo tempo que as atualiza para o leitor, revelando as diversas opressões vivida pelas aviadoras tanto pelas difíceis condições de vida sob o regime de Stálin, como também o machismo de pilotos e comandantes em forma de discursos e práticas discriminatórias de gênero ou travestido de sentimento paternalista, revelando as contradições da sociedade soviética em relação as mulheres. Diferentemente de outras publicações sobre o assunto, como “As Bruxas da Noite” de Ritanna Armeni e o romance-biografia “Rosa de Stalingrado” de Jean-Claude Halle , Valérie Bénaim sobre a ás Lydia Litvyak, que buscam uma escrita mais ficcional e romanciada, Vinogradova consegue envolver o leitor sem perder o rigor e a objetividade historiográfica. Por conta disso, a autora centra-se no período entre 1941 a 1943, ou seja, da criação do primeiro esquadrão feminino por Marina Raskova (ícone e heroína da URSS) até a batalha de Kursk, que viria a ser o maior combate aéreo e de blindados de toda a guerra. Ao não contemplar a resolução do conflito e o destino de outras aviadoras do esquadrão após 1943, Lyuba elege três personagens centrais para sua narrativa: a comandante Marina Raskova e as pilotas de caça Katya Budanova e Lydia Litvyak (todas mortas tragicamente nesse ano). Isso não impede que Vinogradova insira uma diversidade de personagens coadjuvantes em sua narrativa: desde pilotas e mecânicas do esquadrão feminino, comandantes de outros esquadrões que tiveram mulheres aviadoras entre seus subordinados, e até pilotos alemães que se viram em combate com as pioneiras aviadoras soviéticas. O resultado é um livro que, apesar de se centrar num período especifico do conflito, consegue ampliar o universo do leitor ao dispor uma diversidade de personagens e acontecimentos relacionados a aviação soviética, contribuindo para compreendermos mais sobre o papel das mulheres soviéticas na Segunda Guerra Mundial, ao lado de obras fundamentais como “A guerra não tem rosto de mulher” de Svetlana Aleksievitch.