10 CONSIDERAÇÕES SOBRE ORELHA LAVADA, INFÂNCIA ROUBADA, DE SANDRA GODINHO OU SOBRE SENHORES E MOSCAS
1 – Uma pancada lírica retratando as desgraças de uma nação que mata a si mesma no nascedouro, na infância. É disso que se trata este romance [ainda que classificação de gênero não seja assim tão pacífica nesta peculiar e grande obra de nossa literatura] que numa prosa em linguagem poética e devastadora se propõe esgarçar nossas piores coisas, entre elas a indiferença com a qual muitas vezes se nega ou finge-se não ver o duro e cruel mundo “real” denunciado por Godinho em sua literatura; 2 – Embora finalista de um prêmio de livros de contos, Orelha lavada, infância roubada talvez não seja bem uma obra contos. Está mais para o romance, há unidade em seus personagens, e o próprio fato de termos o acompanhamento doutros personagens para além daquele que supostamente parece protagonizar a obra, distanciam o livro dos contos e o aproximam de um romance, bem verdade, um romance fragmentado e atravessado por diferentes vozes, algo, aliás, bastante comum aos romances contemporâneos brasileiros. Prefiro, portanto, vê-lo enquanto romance, e um romance de grandeza estética capaz de colocar Godinho entre grandes nomes de nossa literatura; 3 – Já foi falado aqui do lirismo de sua prosa, e de fato, é a obra de uma linguagem e estética bastante primorosa neste sentido. É prosa-poesia o romance, inclusive com muitos momentos em que figuras da poética como as aliterações vão conduzindo o leitor pela prosa como se fosse uma dança. Tal lirismo percorre todo o livro em seus diferentes fragmentos, que cortado nas partes “brincadeira”, “profissões”, “magia” e “limbo” nos atira a uma angustiante e dramática tragédia, a tragédia da infância; mas também a tragédia da sociedade. Nesse sentido há um curioso jogo de contrapesos, pois que a linguagem sublime do romance acaba contrabalançando de certo modo o pungente horror das vidas retratadas no romance;
