As 1001 noites
O nome As 1001 noites evoca nos leitores um sentimento de curiosidade e de misticidade, especialmente nos chamados países ocidentais. Quem nunca ouviu falar, em linhas gerais, da história da bela Xerazade que, com a sua capacidade inventiva, conseguiu enganar o tirano Xariar e escapar da morte durante o período de mil e uma noites - ao fim do qual, este último decide deixá-la viver? Portanto, não é de estranhar que eu tivesse uma certa curiosidade em ler As 1001 noites (clássico da literatura árabe), mais a mais quando esta edição foi recomendada por um professor meu da faculdade, perito na área. Primeiro de tudo, devo alertar para o preâmbulo do livro. Alguns leitores possivelmente terão vontade de ignorar o preâmbulo e passar diretamente as histórias propriamente ditas. Aviso já que em o fazer perderão grande parte do contexto das histórias e de como a própria tradução se encontra estruturada, uma vez que o tradutor explica (com um certo grau de detalhe) as opções que foram tomadas nesta edição. Para além disso, o preâmbulo explica a História por detrás d'As 1001 noites. Ora, sendo a minha formação académica em História, naturalmente captou a minha atenção. Porém, mesmo aqueles que não possuam grande interesse por esta área das ciências humanas exorto-os a lerem o preâmbulo, pois o tradutor fez um excelente trabalho em traçar os primórdios deste clássico da literatura árabe, a sua recepção no Ocidente e como o Orientalismo acabou por distorcer um pouco aquilo que era o texto original. Admito que é um pouco difícil de engrenar na leitura neste capítulo devido à sua linguagem técnica, no entanto - quando passamos para as estórias de Xerazade - os elementos que aí figuram passam a fazer mais sentido. Passando agora às estórias em si, estas são de facto estranhas e maravilhosas. É quase impossível não ir lendo mais do que uma «noite». Todas as histórias apresentando um carácter moralizador, focando-se sempre no equilíbrio entre o Bem e o Mal, neste ideal de retribuir o Mal com o Bem e na fé em Deus. Confesso-me vítima do Orientalismo (mais concretamente da Disney), pois realmente acreditava que As 1001 noites eram estórias voltadas para o público infanto-juvenil. Foi bastante agradável descobrir o quanto estava errada. Tenho ainda que salientar que tinha igualmente uma noção preconcebida (de onde exatamente, não sei) de que tudo isto se desenrolava do facto de que Xerazade tinha sido escolhida por Xariar para passar a noite com ele. Pelo contrário, por Xerazade ser filha do seu estimado vizir, por respeito Xariar nunca escolhe Xerazade ou Dinarzade, sua irmã, para se casarem com ele. É Xerazade quem toma a iniciativa de se casar com o rei, congeminando um plano para pôr termo à sua loucura. Achei interessante, dado colocar esta personagem num lugar de maior destaque, outorgando-lhe uma maior autonomia no sentido em que ela não conta estórias apenas para se salvar, mas antes porque tem um objetivo maior. Outro aspecto que achei engraçado foi o facto de Xariar volta e meia prometer a si mesmo não matá-la até que termine a estória e depois procederá como o tem feito até ao momento. Achei engraçado porque desde o primeiro momento que Xerazade cativa a nossa atenção, sendo impossível não querer ouvir mais (neste caso, ler mais). Ainda por cima, há algumas estórias neste primeiro volume que contêm mais estórias dentro si, as quais acentuam ainda mais o carácter moralizador da primeira. Em suma, As 1001 noites é um compêndio de estórias incríveis, fascinantes e intrigantes, que nos compele a ler mesmo para lá do raiar da aurora. Como última leitura do ano, não poderia ter terminado de melhor forma.
