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    O Ser da Compreensão - Fenomenologia da Situação de Psicodiagnóstico

    Monique Augras

    Editora Vozes
    1993
    96 páginas
    3h 12m
    ISBN-13: 9788532608857
    Português Brasileiro
    4.1
    77 avaliações
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    "Na entrevista clínica, o cliente fala, distorce, esquece, dissimula, fantasia. Mas a escolha do disfarce é por si reveladora. A máscara aponta, exibe. A hermenêutica do discurso, que já se apresenta como fracasso, é um meio de acesso às contradições da situação do ser no mundo. A falha do discurso é também discurso. Um caminho para se chegar à verdade, já que a fala, tal como o existir, se situa dentro da verdade e da não-verdade".

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    doce vampira30/11/2021Resenhou um livro
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    Conhecer a si, aceitando que sempre há o que se conhecer de novo sobre nós, para então conhecer o outro e o seu desconhecido

    Vejo a obra “O ser da compreensão”, como uma renovação do meu modo de lidar com os outros ao redor de mim, de modo a lidar com esse outro que é o terapeuta, os exercícios que se passam na construção com o encontro desse outro, que irá se refletir numa renovação e numa nova aprendizagem de lidar com as demais pessoas, a alteração da estrutura da coexistência ao ser alterada na relação terapêutica, de modo a viver de uma forma que obtenha menos sofrimento. A perspectiva fenomenológica existencial de que o outro é um duplo de mim, ele aparece para mim como uma duplicidade que foca diretamente na duplicidade que habita dentro de mim, entendendo o estranho como não apenas fora de mim, mas como dentro da minha interioridade. O outro não é apenas o que é distinto de mim, mas ao mesmo tempo existe de mim, embora o igual esteja não apenas dentro, mas fora. Quando vejo nos outros alguns traços meus, também estou me vendo no outro. Daí a quebra com a ideia de neutralidade, que o terapeuta precisa sair de si para cuidar do outro, o que não têm possibilidade de acontecer. Pois a duplicidade, o outro e o si mesmo, existem dentro e fora de mim, o idêntico e o diferente, o conhecido e o desconhecido. Nós não nos conhecemos totalmente, e vamos entrar em contato com o desconhecido fora de nós. Eu me conheço e me desconheço ao mesmo tempo, existem áreas claras e obscuras, conhecidas e desconhecidas, dentro de mim. O movimento da vivência humana, com a instabilidade permanente entre o estranho e o conhecido, é foco da perspectiva fenomenológica. Sendo a minha compreensão sobre mim, e a compreensão sobre o outro, se nutrem reciprocamente, de modo que quanto mais eu conheço a mim mesma como estudante de psicologia, mais eu posso ter capacidade de conhecer o outro. Existir junto do outro, também é estranhar a mim mesma. A ideia, por exemplo, do inconsciente como o outro que nos habita, pode estar ligada a isso. O movimento de integração, do terapeuta se perceber cada vez mais, no que diz respeito a cada vez mais possuir outras perspectivas de integrar-se e de perceber a si mesmo cada vez mais integrado, integrando o que não era conhecido, sendo que essa integração está ligada diretamente a conhecer o que antes era desconhecido. De modo que esse movimento de conhecer a si mesmo e os lados obscuros de si, pode ajudar na ideia de, por exemplo, a ansiedade ser ancorada dentro dessa duplicidade do conhecido em relação ao que não se conhece. Não conheço o que serei no futuro, logo me angustio diante dessa realidade de não conhecer, preciso conhecer e quase acelerar o tampo para que o faça, mas tudo no mundo está relacionado ao que estamos vivendo no aqui agora, o que é real é o aqui agora como realidade concreta, e tanto o passado que não é mais real agora, quanto o futuro que ainda não é real, está ligado também na ambiguidade do conhecido e desconhecido, onde todos os nossos passos são sempre incertos, o que não é real não é a mesma coisa a algo que é ilusão, mas se refere simplesmente a uma parte de nós que não pode ser acessada e vivida na esfera do real, como o passado. Dentro do meu autoexame de duplicidade, quando reconheço que há em mim essa duplicidade, logo já dou um passo para o reconhecimento do outro. Quando estou diante desse outro, estranho e diferente, já possuo mais possibilidades de integrar o desconhecido do outro como algo que ele é como ser humano, o que significa possibilidades de se expressar no mundo como ser humano. O espelho, o sonho, a morte, como experiências também de duplicidades entre existir e não existir, me faz concordar com a percepção fenomenológica de fontes de angústias e mensagens de ambiguidades. Como meu primeiro contato coma teoria fenomenológica, tive alguns desafios de compreensão, pois não considero o terreno da fenomenologia algo fácil de se compreender, mas quando penso no que estou lendo trazendo para a minha realidade, consigo compreender um pouco do que estou estudando na nossa disciplina de Fenomenologia da Ansiedade. Consigo compreender, por exemplo, dentro do campo fenomenológico, questões como o inconsciente como substantivo, mas como adjetivo, no sentido de existirem experiências, realidades, movimentos, que são inconscientes, de modo a não estarem ainda colocados na luz da minha consciência. A ansiedade pode ser entendida uma espécie de negação da duplicidade, ou como um movimento entre unidade e multiplicidade dentro da experiência do individuo humano, porque quando eu nego a minha duplicidade, eu caio numa rigidez, fixa, dentro da ideia de sofrimento psíquico. Saber que minha experiência na vida é dúplice, e se eu não esquecer desse alerta, consigo compreender melhor que não sou apenas só o que vejo, mas que há uma experiência de desconhecido me constituindo em todos os momentos. Conhecer a si e aceitar a parte desconhecida, implica também em ser capaz de acolher o conhecido e desconhecido do outro, e é isso que compreendo pela ideia central da autora de construir dialeticamente a coexistência.

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    Monique Augras

    Monique Augras, nasceu na França, onde se formou em Psicologia, e Doutorado na Sorbonne. Professora Titular da PUC-Rio, radicada no Brasil desde 1961, contratada pelo ISOP da Fundação Getúlio Vargas (1961-1990), dedicou-se primeiro a pesquisas na área do psico-diagnóstico: "A Dimensão Simbólica", 1967; Teste de Rorschach - Atlas e Dicionário, 1968; "O Ser da Compreensão", 1978. Em seguida enveredou para o campo da psicologia da cultura, desenvolvendo pesquisas na área da cultura brasileira, com interesse específico nas religiões afro-brasileiras. "Teoria e Pesquisa", 1980 "O Duplo e a Metamorfose", 1983; "Quizilas e Preceitos", 1987; "De Iyá Mi a Pomba-Gira", 1989; "Os gêmeos e a morte", 1994; "Zé Pelintra, Patrono da Malandragem", 1997; "O Brasil do Samba-enredo", 1998; "O Terreiro na Academia", 2000; "Maria Padilha, Rainha da Magia", 2001. "Todos os Santos são Bem-Vindos", 2006.

    9 Livros
    6 Seguidores
    França, França

    Monique Augras